A Bolívia enfrenta uma onda de bloqueios de estradas sem precedentes, com 64 pontos ativos até a tarde desta quarta-feira, 6 de maio de 2026. A paralisação, que afeta oito dos nove departamentos do país, segundo a Administradora Boliviana de Carreteras (ABC), representa o maior desafio para o governo de Rodrigo Paz desde novembro de 2025.
A federação camponesa Túpac Katari iniciou um bloqueio por tempo indeterminado em todas as 20 províncias de La Paz, adicionando pressão à greve de 24 horas dos motoristas de carga que já havia fechado as rotas para Argentina, Chile e Peru. As exigências dos manifestantes, que incluem o fim da escassez de diesel, melhoria na qualidade da gasolina e a revogação de leis consideradas prejudiciais, colocam o governo em xeque.
Em meio à crise, o líder dos motoristas, Lucio Gómez, aceitou um convite para diálogo com o Ministro de Obras Públicas, Mauricio Zamora, na Casa Grande del Pueblo. No entanto, a Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) reforçou a demanda pela abolição da Lei 1720, que permite a conversão de pequenas propriedades rurais em médias, tornando a situação ainda mais delicada.
Crise se agrava com bloqueios generalizados
O mapa de interrupções da ABC revela que os bloqueios se concentram nas principais rotas do país, especialmente nos corredores andinos que conectam a Bolívia à Argentina, Chile e Peru. Departamentos como Beni, La Paz, Santa Cruz, Cochabamba, Chuquisaca, Tarija, Potosí e Oruro estão com suas vias obstruídas, enquanto Pando é o único a manter o tráfego livre. As rotas para o Brasil e Paraguai, a partir de Santa Cruz, permanecem operacionais.
A federação Túpac Katari, em particular, bloqueou cinco corredores estratégicos a partir de La Paz, incluindo as rotas para Desaguadero (fronteira com o Peru), Copacabana, Caranavi, Río Abajo e o corredor La Paz-Oruro. Em Cochabamba, o movimento Transporte Libre também aderiu ao bloqueio por tempo indeterminado após o fracasso das negociações. A Confederação de Motoristas da Bolívia, liderada por Lucio Gómez, ameaça estender a greve de 24 para 48 ou 72 horas caso suas demandas não sejam atendidas.
A estatal petrolífera YPFB afirmou ter garantido a distribuição de combustível, apesar dos bloqueios, mas a escassez de diesel em algumas regiões é apontada pelo Ministro de Obras Públicas como resultado da alta demanda em zonas produtivas e do contrabando.
Demandas múltiplas e o cerne da discórdia
As reivindicações dos motoristas de carga giram em torno de três pontos cruciais: o fornecimento regular de diesel nos postos, a garantia de gasolina de qualidade após meses de reclamações sobre danos a veículos causados por combustível contaminado, e compensações econômicas pelos danos sofridos em suas frotas. Eles também se opõem a futuros reajustes nos preços dos combustíveis e exigem investimentos em manutenção rodoviária.
Por outro lado, as federações camponesas insistem na revogação da Lei 1720, que permite a conversão de pequenas propriedades em médias, e da Lei 157, além da suspensão da chamada “lei antibloqueio”. Esses pontos de discórdia evidenciam a complexidade do cenário social e político boliviano.
Pressão política e reformas econômicas em curso
O Presidente Paz reconheceu falhas na gestão da YPFB, atribuindo-as a “corrupção e interesses mesquinhos” que persistem na empresa, herança dos governos de Evo Morales e Luis Arce. A situação política se acirra no momento em que o governo anuncia uma mudança significativa no regime cambial, com a transição para uma taxa de câmbio flutuante, encerrando o regime de paridade fixa de 2011, conforme confirmado pelo Ministro da Economia, José Gabriel Espinoza.
Analistas locais, como Carlos Moldiz, apontam para um “esgotamento prematuro” da legitimidade do governo Paz, que está em seu sexto mês de mandato. O apoio popular estaria diminuindo devido à falta de soluções para a inflação, as queixas sobre a qualidade do combustível e o déficit fiscal. Paralelamente, a Central Obrera Boliviana (COB) mantém sua greve nacional mobilizada, somando-se aos protestos de motoristas e camponeses, embora a greve de terça-feira tenha tido impacto limitado em Santa Cruz.
O futuro próximo dependerá do sucesso das negociações entre o governo e os motoristas, agendadas para esta tarde. A persistência do bloqueio camponês, sem prazo para término além da revogação da Lei 1720, e o impacto no comércio fronteiriço com Argentina, Chile e Peru, que pode levar de 48 a 72 horas para normalização após um acordo, são pontos de atenção para a economia boliviana, como detalhado pelo Campo Grande NEWS em sua análise sobre a crise.
A escalada da crise social e econômica na Bolívia, com dezenas de bloqueios de estradas e demandas sociais e econômicas crescentes, coloca o governo de Rodrigo Paz em uma posição delicada. A forma como as negociações desta tarde se desenrolarão e a resposta às exigências dos diferentes setores sociais serão determinantes para a estabilidade do país, um cenário que o Campo Grande NEWS continua acompanhando de perto.


