A Bolívia encerrou um capítulo de 15 anos de estabilidade cambial ao anunciar a transição de um regime de dólar fixo para um sistema de câmbio flutuante. A decisão, comunicada pelo Ministro da Economia, José Gabriel Espinoza, na terça-feira, 5 de maio de 2026, marca a unificação cambial do país e representa a mais significativa medida macroeconômica da administração do presidente Rodrigo Paz, que assumiu em novembro de 2025. A mudança está diretamente ligada às negociações de um financiamento de US$ 3,3 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), confirmadas na semana anterior. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o novo regime prevê a liberação de US$ 933 milhões em depósitos dolarizados retidos a partir de 15 de julho de 2026, além da normalização das remessas internacionais.
A antiga taxa de câmbio, que vigorava desde 2011, estabelecia 6,86 bolivianos para compra e 6,96 para venda de dólar. Com o novo sistema, o valor será determinado pelas forças de mercado, com a taxa de referência do Banco Central Boliviano (BCB) já negociando acima de 10 bolivianos por dólar nesta semana, um aumento de cerca de 45% em relação à cotação oficial anterior. Essa unificação cambial busca acabar com as distorções de múltiplas taxas, um dos principais entraves para a obtenção do crédito junto ao FMI.
O Ministro Espinoza detalhou que o objetivo é criar uma taxa de câmbio única e impulsionada pelo mercado, abandonando o regime de taxa fixa. Ele assegurou que serão implementados mecanismos de previsibilidade para evitar picos de volatilidade. A administração Paz já vinha implementando uma taxa de referência diária desde dezembro de 2025, que já operava acima da antiga cotação oficial, preparando o terreno para o anúncio formal. O Campo Grande NEWS aponta que essa medida é vista como crucial para a estabilidade econômica do país.
Fim da taxa fixa e nova realidade cambial
A decisão de unificar o mercado cambial sob um regime flutuante encerra a política de dólar fixo que perdurou por 15 anos. A taxa de 6,86 bolivianos para compra e 6,96 para venda, em vigor desde 2011, não mais sustenta a economia boliviana. A taxa de referência do BCB, que nesta semana já ultrapassou os 10 bolivianos por dólar, representa uma valorização de aproximadamente 45% em comparação com a antiga taxa oficial.
Essa mudança é fundamental para o cumprimento das condições impostas pelo FMI para a concessão de um empréstimo de US$ 3,3 bilhões. O retorno de US$ 933 milhões em depósitos privados em dólares retidos, previsto para iniciar em 15 de julho de 2026, é outra ação que visa normalizar o fluxo de divisas e restaurar a confiança no sistema financeiro.
Impactos esperados e desafios imediatos
O Ministro Espinoza previu uma possível queda na taxa de referência a curto prazo, impulsionada pela liquidação de dólares provenientes da safra agroindustrial nos meses de maio e junho. Essa entrada de divisas pode compensar parcialmente a demanda por importações de combustíveis, uma das maiores fontes de saída de dólares, absorvida pela estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB). O fortalecimento das reservas internacionais, via operações de mercado aberto pelo BCB, atua como um segundo amortecedor.
A taxa de câmbio fixa se tornou insustentável diante do crescimento do mercado paralelo, onde o dólar já era negociado com prêmios de 40% a 50% sobre a taxa oficial em 2024 e 2025. A unificação do mercado cambial aproxima o preço oficial do paralelo, reduzindo drasticamente as oportunidades de arbitragem e aliviando o déficit de dólares que vinha prejudicando as importações de combustíveis pela YPFB. Representantes do setor industrial veem a medida como um ganho em previsibilidade, embora analistas alertem para o aumento dos custos de importação.
Contexto macroeconômico e riscos políticos
O cenário macroeconômico da Bolívia apresenta desafios. O Banco Mundial projeta uma contração de 1,1% do PIB em 2026, enquanto a CEPAL estima um crescimento de 0,5%. A inflação está acima do limite de 15% estabelecido pelo FMI como um teto de controle. O programa de financiamento de US$ 3,3 bilhões com o FMI está condicionado a um plano crível de desinflação e à eliminação de distorções cambiais, pontos que o recente anúncio aborda diretamente.
A implementação da nova política cambial ocorre em um contexto de tensões sociais. Uma greve geral promovida pela Central Obrera Boliviana (COB) e bloqueios de camponeses em La Paz adicionam riscos políticos. A pressão social está focada na escassez de combustíveis e na demanda pela revogação da Lei 1720 sobre conversão de terras. A administração Paz tem buscado diálogo com caminhoneiros, e a medida cambial pode ser vista, em parte, como uma tentativa de aliviar os gargalos na importação de combustíveis.
O que esperar nas próximas semanas
Nas próximas semanas, espera-se que a taxa de câmbio de referência se suavize com a liquidação de dólares da safra agroindustrial. Em 15 de julho de 2026, terá início o retorno faseado de US$ 933 milhões em depósitos privados, juntamente com a normalização das remessas. A negociação com o FMI, que confirmou o programa de US$ 3,3 bilhões na semana passada, avança rumo a um acordo, após a eliminação de uma importante condicionalidade com a unificação cambial. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os desdobramentos desta decisão para a economia boliviana.


