A Venezuela deu um passo significativo para revitalizar seu outrora próspero setor petrolífero. A estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) começou a circular um modelo de contrato entre executivos do ramo, consultores e players da indústria. Este documento crucial detalha as condições para a retomada de poços existentes, a perfuração de novos e a comercialização da produção resultante, marcando um momento aguardado por empresas como Schlumberger, Halliburton e Chevron. A iniciativa surge em um contexto de queda acentuada na produção, que despencou de 2 milhões de barris por dia em 2016 para 800 mil em 2023, apesar de o país deter as maiores reservas comprovadas do mundo.
PDVSA avança com novo contrato para atrair investimentos
O novo modelo de contrato visa transformar a reforma da lei petrolífera venezuelana, aprovada em janeiro de 2026, em oportunidades comerciais tangíveis. A legislação permite agora que empresas estrangeiras operem com maior autonomia, incluindo a exportação direta e a coleta de receitas de vendas, mesmo com participações minoritárias em joint ventures com a PDVSA. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, este é o movimento mais concreto da PDVSA desde a mudança no quadro legal, preenchendo uma lacuna que impedia a precificação de negócios.
A proposta surge após um processo mais amplo. A Lei Anti-Bloqueio de 2020 já havia estabelecido o regime de Contratos de Participação Produtiva (CPP) como uma forma de contornar as sanções dos EUA. A reforma de janeiro de 2026 aprofundou essa abertura, concedendo aos parceiros da PDVSA maior independência operacional, exportadora e na gestão de receitas. O Ministério do Petróleo havia sinalizado a emissão de novos modelos para contratos de partilha de produção e joint ventures, com legislação tributária separada, mas o processo sofreu atrasos, sendo que o modelo agora divulgado rompe o impasse.
A iniciativa do governo venezuelano, que busca reativar seu setor de petróleo, também se alinha com esforços para normalizar suas relações financeiras internacionais. A proposta de contrato chega um dia após o banco Erebor Bank apresentar autoridades venezuelanas propostas sobre correspondente bancário nos EUA, indicando um esforço coordenado para operacionalizar a Licença Geral 57 da OFAC (Office of Foreign Assets Control), que flexibilizou transações financeiras com bancos estatais venezuelanos. A combinação de acesso bancário e um arcabouço contratual claro é vista como fundamental para atrair capital estrangeiro.
Gigantes do setor de serviços petrolíferos na mira
As quatro principais empresas globais de serviços petrolíferos, que foram impedidas de atuar na Venezuela desde as sanções de 2019, são as beneficiárias mais diretas desta nova abordagem. Estamos falando da Schlumberger (SLB), Halliburton, Baker Hughes e Weatherford International. A SLB, por exemplo, possui cerca de 15 sondas de perfuração armazenadas na Venezuela, o maior inventário de equipamentos ociosos entre as empresas americanas. A Halliburton já confirmou discussões sobre termos comerciais com clientes após visitas às instalações, e a SLB descreveu a Venezuela como uma “oportunidade de crescimento empolgante”, conforme informações divulgadas pela Bloomberg.
Produtores que impulsionam a demanda por equipamentos de perfuração incluem a Chevron, Repsol, Shell e a francesa Maurel & Prom. A PDVSA já mantém conversas paralelas com essas empresas para expandir áreas de joint ventures existentes. A ExxonMobil, que foi expropriada duas vezes e forçada a sair do país em 2007, enviou uma equipe técnica à Venezuela no início deste ano para avaliar oportunidades de investimento, sinalizando sua disposição em retornar sob as devidas garantias legais. A Repsol, vale notar, está entre as cinco empresas autorizadas pela OFAC a exportar petróleo venezuelano sob regras estritas de reporte, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Equipamentos em trânsito e gargalos logísticos
Dezenas de sondas de perfuração, armazenadas em campos no leste da Venezuela e no Lago de Maracaibo, estão sendo transportadas para estaleiros em Trinidad e Guiana para inspeção. Fontes citadas pela Reuters indicam que custos de reparo acima de 1 milhão de dólares por sonda exigiriam contratos de médio prazo, com duração aproximada de 12 meses, para justificar o investimento. Empresas que já possuem equipamentos dentro da Venezuela levam vantagem na burocracia, pois a carga de licenças e liberações do Tesouro é significativamente menor em comparação com a necessidade de importação, conforme checou o Campo Grande NEWS.
A ministra do Petróleo venezuelana, Paula Henao, destacou a necessidade de equipamentos adicionais que vão além das sondas de perfuração, como bombas, válvulas, dutos e outras infraestruturas essenciais para escalar a produção de petróleo e gás. Os gargalos logísticos no porto de Jose, que responde por cerca de 70% das exportações nacionais, permanecem como um obstáculo estrutural, com desafios na redução dos tempos de carregamento e expansão da capacidade de processamento.
Produção e projeções para o futuro
A produção venezuelana, que atingiu o pico de 2 milhões de barris por dia em 2016, caiu para 800 mil barris diários em 2023. Ao final de 2025, a meta é de 1,2 milhão de barris por dia, com o objetivo de superar essa marca em 2026. O país detém as maiores reservas comprovadas do mundo, com 303 bilhões de barris. O CEO da Chevron, Mike Wirth, alertou que “a produção não pode ser aumentada da noite para o dia” sem engenharia adequada, cadeias de suprimentos robustas e o retorno de trabalhadores qualificados que emigraram durante os anos de sanções. Ele ressaltou que a Venezuela “ainda tem trabalho a fazer” para atrair grandes investimentos.
Por outro lado, o Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, tem uma visão mais otimista, projetando que a produção venezuelana será um componente central no quadro global de oferta de petróleo em 2026, com um crescimento estimado entre 30% a 40% da oferta global. Essa projeção ambiciosa reflete a confiança de que os novos acordos contratuais e a flexibilização das sanções financeiras podem destravar o potencial produtivo do país.
O que observar nos próximos passos
Investidores e analistas estarão atentos a diversos indicadores cruciais. O primeiro contrato assinado sob o novo modelo será um marco, definindo parâmetros de avaliação, tributação e autonomia operacional. Uma possível expansão da Licença Geral 57 da OFAC, ampliando o escopo para além dos bancos estatais já nomeados e produtores atuais, multiplicaria o mercado potencial. O ritmo de reimplantação das sondas de perfuração será o indicador mais direto do crescimento da produção. A decisão da ExxonMobil sobre um retorno formal seria o sinal mais carregado politicamente de normalização comercial EUA-Venezuela. Por fim, o ramp-up de produção da Chevron na Petropiar, com a meta de dobrar a produção em 12 a 18 meses, representa o teste de execução de curto prazo mais rigoroso para o novo quadro regulatório.


