Somália: Corte de verba dos EUA força repensar saída de tropas da AU

A decisão dos Estados Unidos de cortar o financiamento para o escritório de logística da ONU que sustenta a missão da União Africana (AU) na Somália está forçando uma reavaliação antecipada da retirada das tropas. Toda a transição de segurança e política agora está em xeque com o esgotamento do dinheiro no final de 2026, conforme informado pelo Campo Grande NEWS.

Crise de financiamento ameaça estabilidade na Somália

Em 1º de julho de 2026, os Estados Unidos comunicaram formalmente à União Africana que interromperiam o financiamento para o Escritório de Apoio das Nações Unidas na Somália (UNSOS) após 31 de dezembro de 2026. A medida, segundo a Reuters, provavelmente encerrará o apoio do UNSOS à missão da AU a partir do início de 2027.

O UNSOS não é um ator periférico. Ele representa a espinha dorsal logística, fornecendo combustível, alimentos, transporte, cuidados médicos e estipêndios para a Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália (AUSSOM). Sem esse suporte, a missão se torna inviável.

A situação financeira já é crítica. O orçamento da AUSSOM para 2025 é de US$ 196 milhões, mas os compromissos de financiamento somam apenas US$ 48,6 milhões. Isso deixa a missão com aproximadamente um quarto do financiamento necessário. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação é agravada por uma dívida herdada de operações anteriores, estimada em cerca de US$ 100 milhões.

Os países que fornecem tropas para a missão já enfrentam dificuldades. No final de 2025, alguns contingentes chegaram a ficar 15 meses sem receber seus auxílios, de acordo com as Nações Unidas. Essa falta de recursos coloca em risco os avanços conquistados na luta contra o grupo extremista Al-Shabaab.

Washington bloqueia solução multilateral

A crise não era inevitável. A Resolução 2719 do Conselho de Segurança da ONU, adotada em 2023, previa que 75% do orçamento das missões de paz autorizadas pela ONU pudessem ser cobertos por contribuições regulares dos países membros. No entanto, os Estados Unidos se opuseram a esse plano em maio de 2025.

A objeção de Washington reflete um ceticismo mais amplo em relação ao compartilhamento multilateral de responsabilidades, uma postura que tem persistido sob diferentes administrações americanas. O resultado é o desmoronamento do antigo modelo de financiamento ocidental para a segurança africana, sem que uma arquitetura de substituição tenha sido acordada.

Risco de vácuo de segurança e ressurgimento do Al-Shabaab

A crise de financiamento tem implicações diretas na segurança. O governo somali já pediu aos militares da AU que retardassem sua retirada em junho de 2024, devido ao temor de um ressurgimento islamista. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, analistas alertam que uma saída abrupta ou parcial pode permitir que o Al-Shabaab explore as lacunas de segurança.

O grupo extremista poderia ameaçar a capital, Mogadíscio, e outros centros urbanos, revertendo anos de ganhos em segurança. A ONU já havia alertado em março de 2023 sobre a “situação financeira desesperadora” da missão, que representava um risco significativo para a transição da responsabilidade de segurança para as forças somalis.

Corrida por influência na região

A Somália ocupa uma posição estratégica que liga rotas marítimas vitais. Essa geografia a torna um foco de interesse para potências externas, e o vácuo de financiamento acelera uma mudança da coordenação multilateral para a competição bilateral. Países como a Turquia têm aumentado sua importância no treinamento e assistência de segurança.

Estados do Golfo, como Emirados Árabes Unidos e Catar, disputam influência através de portos, contratos e financiamento político. A China também pode se beneficiar de qualquer cisão entre Mogadíscio e Washington. Etiópia e Quênia permanecem sensíveis, pois a instabilidade na Somália afeta diretamente sua segurança fronteiriça.

O futuro do modelo de segurança somali

A União Europeia e os Estados Unidos foram historicamente os principais apoiadores externos da Somália. No entanto, a fadiga do doador é real, e os financiadores europeus e americanos questionam cada vez mais a dependência de longo prazo da Somália em missões de paz externas, em vez de construir forças autossustentáveis.

Se a AUSSOM for forçada a se retirar ou encolher, a Somália poderá migrar para arranjos de segurança mais bilaterais e menos coordenados. Isso enfraqueceria a legitimidade da AU e transformaria a missão em um projeto político, em vez de uma ferramenta de resolução de conflitos, como aponta uma análise do DIIS.