SLC Agrícola garante terra valiosa em disputa acirrada, mas expansão eleva dívida e preocupa JP Morgan
A SLC Agrícola, uma das maiores empresas do setor agrícola listadas na bolsa, fechou um acordo para adquirir um extenso bloco de terras no Mato Grosso por R$ 1,85 bilhão, o equivalente a aproximadamente US$ 358 milhões. A negociação, que ocorreu em 26 de junho, envolveu cerca de 41.200 hectares pertencentes à Radar, uma joint venture imobiliária rural ligada à Cosan e ao fundo de investimento americano Nuveen. A aquisição, apesar de estratégica e com preço considerado vantajoso, levanta preocupações devido ao aumento do endividamento da empresa em um cenário de incertezas climáticas. Conforme divulgado pela própria empresa, a transação coloca a SLC Agrícola em uma posição de destaque no coração do agronegócio brasileiro, conforme checou o Campo Grande NEWS.
Disputa acirrada e direito de preferência garantem a negociação
A conquista do bloco de terras pela SLC Agrícola não se deu por meio de um leilão tradicional, mas sim pelo exercício de um **direito contratual de preferência**. A Bom Futuro, gigante do agronegócio controlada pela família Maggi e uma concorrente direta, havia apresentado uma oferta pela totalidade da área, estabelecendo o preço. No entanto, a SLC Agrícola, que já arrendava e cultivava uma parte significativa dessas terras, utilizou seu direito de preferência para igualar a oferta e garantir a aquisição integral do imóvel. Essa manobra estratégica permitiu à SLC expandir sua área de plantio em aproximadamente 22.000 hectares, integrando rapidamente as novas propriedades, uma vez que a negociação inclui maquinários e estruturas de armazenamento existentes. A empresa já opera cerca de 17.600 hectares dentro do bloco adquirido, o que facilita a sinergia e a gestão das novas propriedades, como detalhado pelo Campo Grande NEWS.
O pagamento da aquisição será dividido em duas parcelas. Um sinal de R$ 700 milhões (cerca de US$ 135 milhões) deve ser pago nos próximos dias, com o saldo restante de R$ 1,15 bilhão (aproximadamente US$ 222 milhões) a ser quitado no momento da assinatura das escrituras, prevista para outubro. A SLC Agrícola considera o preço por hectare, estimado em R$ 64.200 (ou US$ 12.400), cerca de **15% abaixo do valor de mercado local**, um negócio vantajoso em termos de custo-benefício para a empresa e seus acionistas, segundo a avaliação da própria companhia.
Alerta do JP Morgan: Dívida em alta e clima incerto
Apesar do aparente bom negócio, o banco JP Morgan emitiu um parecer negativo sobre a aquisição para seus clientes investidores. A preocupação não reside na qualidade das terras em si, mas sim no **impacto financeiro da transação sobre o balanço da SLC Agrícola**. A empresa já havia realizado investimentos significativos em aquisições no ano anterior, o que elevou seu nível de endividamento. A relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) subiu para cerca de 2,7 vezes no primeiro trimestre, comparado a menos de 2 vezes no fechamento do ano passado. A nova compra adiciona uma carga considerável a essa estrutura de dívida, como apurado pelo Campo Grande NEWS.
O momento da aquisição também intensifica a apreensão. A perspectiva de um **fenômeno climático El Niño** paira sobre a segunda metade do ano, representando uma ameaça potencial à segunda safra de milho, cultura de grande importância econômica para a região e para a rentabilidade dessas terras. Assim, a SLC Agrícola está aumentando seu passivo em um período de **crescente incerteza quanto às perspectivas de colheita**, um fator de risco que não passou despercebido pela instituição financeira.
O que a negociação sinaliza para o mercado de terras agrícolas no Brasil
Do ponto de vista de um investidor internacional, a transação da SLC Agrícola contraria a narrativa recente de um setor agrícola brasileiro sob pressão devido ao endividamento de produtores e a um aumento de terras em dificuldades sendo colocadas à venda. Este negócio, ao contrário, demonstra que **as melhores terras nas regiões mais produtivas continuam sendo extremamente cobiçadas**, a ponto de dois dos maiores produtores do país disputarem o mesmo bloco de terras. O vencedor, neste caso, demonstrou disposição em alavancar seu balanço para assegurar o ativo.
Ademais, a operação reforça a ideia de que, para as grandes empresas do setor, a **propriedade da terra ainda é mais vantajosa do que o arrendamento**, mesmo em um contexto onde muitos buscam modelos de negócio mais flexíveis e baseados em locação. A lição que fica, especialmente no cinturão produtor de grãos do Brasil, é que a busca por escala no agronegócio, em sua essência, continua sendo uma disputa pelo controle da terra.


