Real se firma: mercado ignora cortes de juros e eleição, mantém dólar em R$5,20 há 10 semanas

O real brasileiro tem demonstrado resiliência, mantendo sua cotação em torno de R$5,20 por dólar mesmo diante de um ciclo de cortes na taxa básica de juros (Selic), inflação ainda acima da meta e a proximidade de eleições presidenciais. Essa estabilidade surpreendente tem mantido os analistas financeiros em alerta, que, pela décima semana consecutiva, não alteraram suas previsões para a moeda americana no final de 2026.

Real se destaca em meio a incertezas globais e locais

A moeda brasileira, o real, tem surpreendido o mercado financeiro. Apesar de o Banco Central ter iniciado um ciclo de cortes na taxa Selic, a inflação permanecer em patamares elevados e a iminência de eleições presidenciais, a previsão para o dólar no final de 2026 se mantém inalterada há dez semanas consecutivas. Essa constância desafia as expectativas em um cenário de tantas variáveis.

Conforme dados do Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, a projeção mediana para o dólar ao final de 2026 está fixada em R$5,20. Essa estagnação nas previsões ocorre mesmo após o Comitê de Política Monetária (Copom) ter realizado quatro cortes consecutivos na Selic desde março, reduzindo a taxa de 15% para 14% ao ano. A última decisão, em 5 de agosto, marcou a quarta redução, totalizando um ponto percentual de queda no período.

O Campo Grande NEWS checou que essa tenacidade da projeção para o dólar ocorre em um contexto onde as expectativas de inflação para 2026, segundo o Focus, apontam para 5,02%, consideravelmente acima da meta de 3% do regime de metas contínuas. Além disso, a taxa Selic é esperada para encerrar 2026 em 13,75%, com a próxima redução sinalizada para setembro.

A força do carry trade e a influência do cenário internacional

Um dos fatores cruciais para a sustentação do real, mesmo com a queda da Selic, é o chamado “carry trade”. Mesmo após os cortes, a taxa de juros brasileira permanece em dois dígitos, tornando o real uma das moedas mais atrativas globalmente para operações de carry trade. Essa modalidade de investimento, que se beneficia da diferença de juros entre países, atua como um amortecedor, limitando quedas acentuadas da moeda brasileira.

Apesar de o Copom ter alertado sobre expectativas de inflação de longo prazo que se afastam da meta, e os riscos geopolíticos no Oriente Médio que afetam os preços das commodities e cadeias de suprimentos, o mercado tem reagido com moderação. A taxa PTAX, referência oficial do Banco Central, fechou em R$5,1490 por dólar em 25 de agosto, o menor valor em duas semanas, após ter atingido R$5,2236 em 14 de agosto, o ponto mais fraco do mês. Essa volatilidade, no entanto, tem se mantido dentro de uma banda relativamente estreita.

Três pilares sustentam a estabilidade cambial

A persistência da projeção do dólar em R$5,20 pode ser explicada por três forças principais que atuam em conjunto. Primeiramente, o risco fiscal, especialmente com a proximidade das eleições presidenciais em 4 de outubro. Investidores demandam um prêmio de risco adicional até que as contas públicas do próximo governo se tornem mais claras e previsíveis, como aponta o Campo Grande NEWS após análise de mercado.

Em segundo lugar, o “ruído global”, representado pelas incertezas vindas de conflitos internacionais, como a guerra no Oriente Médio, que têm impactado tanto o preço do petróleo quanto a cotação do dólar mundialmente. A economia brasileira, sendo exportadora de commodities, tem seus resultados atrelados a essas flutuações.

Por fim, o terceiro pilar é a própria aritmética dos juros. A taxa Selic de 14% ao ano, ainda significativamente superior às taxas de juros praticadas nos Estados Unidos, torna a aposta contra o real financeiramente dispendiosa para os especuladores, o que, por consequência, limita a pressão vendedora sobre a moeda brasileira.

O que observar até o fim do ano

Os próximos meses serão cruciais para determinar se a projeção de R$5,20 para o dólar se sustentará. Os investidores estarão atentos à próxima decisão do Copom em 16 de setembro, aos resultados da eleição presidencial em 4 de outubro e aos novos dados de inflação, como o IPCA-15 de agosto, com previsão de divulgação para esta quarta-feira. Espera-se, inclusive, uma queda mensal nos preços em agosto, de 0,18%, impulsionada por créditos na conta de luz referentes à usina de Itaipu.

Uma sinalização clara de responsabilidade fiscal por parte da campanha eleitoral vitoriosa poderia levar o dólar a se aproximar de R$5,00, enquanto um cenário de aumento de gastos públicos poderia empurrá-lo para além de R$5,40. No entanto, o mercado, por enquanto, aposta em um cenário de relativa estabilidade, como tem demonstrado nas últimas dez semanas. Essa análise é corroborada pelo Campo Grande NEWS, que acompanha de perto os indicadores econômicos do país.

A atual conjuntura reflete um equilíbrio delicado, onde o atrativo do carry trade se contrapõe aos riscos fiscais e globais. A manutenção da projeção do dólar em R$5,20 por tanto tempo evidencia essa dinâmica, onde os analistas financeiros buscam um ponto de convergência em meio a um cenário complexo e repleto de incertezas.