A gigante sul-africana do varejo Pick n Pay deu mais um passo em sua estratégia de recuperação, vendendo 11,5% de sua rede de supermercados de desconto, Boxer, por cerca de R4,7 bilhões (aproximadamente US$ 290 milhões). Esta movimentação, que reduziu a participação da Pick n Pay na Boxer de mais de 65% para cerca de 53%, sinaliza uma mudança significativa no controle familiar da empresa e evidencia a urgência em reverter um quadro financeiro delicado. A venda ocorre apenas sete meses após a listagem da Boxer na bolsa de valores, em meados de 2024, conforme informações divulgadas pela Billionaires.Africa.
A Boxer tem se mostrado o verdadeiro motor de crescimento do grupo. No ano fiscal encerrado em março, a rede expandiu seu faturamento em mais de 12%, adicionando 51 novas lojas e totalizando 576 unidades. Em contraste, os supermercados tradicionais da Pick n Pay viram seu faturamento encolher em 1,6%, em um movimento de fechamento e conversão de lojas deficitárias. Essa disparidade de desempenho sublinha a importância estratégica da Boxer para a sobrevivência e o futuro da Pick n Pay.
A Crise que Forçou a Venda e a Perda de Controle Familiar
A Pick n Pay enfrentou uma crise financeira severa no ano fiscal encerrado em fevereiro de 2024, registrando um prejuízo líquido de R3,2 bilhões (US$ 198 milhões) e declarando-se tecnicamente insolvente. A empresa violou seus acordos de dívida, com passivos superando ativos em cerca de R183 milhões. Essa situação alarmante forçou uma reestruturação profunda, que incluiu uma oferta de direitos de R4 bilhões e a já mencionada listagem da Boxer, totalizando uma captação de aproximadamente R12,5 bilhões (US$ 770 milhões).
Como parte dessa reestruturação, a família Ackerman, fundadora do negócio em 1966, abriu mão da presidência e viu sua participação acionária ser diluída. Raymond Ackerman, que revolucionou o varejo sul-africano e introduziu o conceito de hipermercado no país, faleceu em 2023. Seu filho, Gareth, presidia o conselho e agora a família cede o controle após quase seis décadas de liderança. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa transição marca o fim de uma era para a varejista.
Boxer: O Motor de Crescimento em Meio à Adversidade
A rede Boxer, focada em consumidores de baixa renda e em áreas rurais, tem sido a joia da coroa do grupo. Seu crescimento robusto, com faturamento acima de 12% e a abertura de 51 novas lojas no último ano fiscal, contrasta fortemente com o desempenho dos supermercados tradicionais da Pick n Pay, que registraram uma queda de 1,6% em suas vendas. Essa dinâmica ressalta a estratégia da empresa em apostar em formatos mais acessíveis e de maior volume.
A venda de mais uma fatia da Boxer é vista por alguns analistas como um sinal de que a recuperação do negócio principal, os supermercados Pick n Pay, é mais complexa e demorada do que o inicialmente previsto pela administração. A orientação para que os supermercados atinjam o ponto de equilíbrio já foi adiada. A estratégia de recuperação, sob o comando do CEO Sean Summers, que retornou em 2023, priorizou a recapitalização, a reestruturação da gestão e a otimização da base de lojas. Embora o faturamento geral do grupo tenha crescido 3,4% e as vendas online tenham disparado quase 33%, o lucro operacional ainda caiu 4,2%.
O Futuro da Pick n Pay e a Lição do Varejo Sul-Africano
A Pick n Pay ainda registra um prejuízo líquido em termos de lucro principal, embora menor do que o projetado. A empresa iniciou consultas de demissão para funcionários de lojas em maio, evidenciando os desafios persistentes. O CEO Summers aponta melhorias na gama de produtos, nos padrões das lojas e em novas logísticas que devem reduzir custos no futuro. Com a reestruturação das lojas concluída, o plano é voltar a expandir, com preferência por formatos menores para manter os aluguéis baixos.
A história da Pick n Pay e da Boxer oferece uma lição valiosa para investidores em mercados emergentes: o valor muitas vezes reside na base da pirâmide. Discounters como a Boxer estão superando as marcas tradicionais, um movimento observado globalmente em países como Brasil e Alemanha. A rival Shoprite, que em 2007 tinha um faturamento semelhante ao da Pick n Pay, hoje mais que dobra o volume de negócios da antiga concorrente, com cerca de R253 bilhões (US$ 15,6 bilhões) em comparação com os R120 bilhões (US$ 7,4 bilhões) da Pick n Pay. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a questão central é se a Pick n Pay conseguirá se sustentar sem precisar vender mais de sua lucrativa Boxer.
Para a família Ackerman, o cenário é agridoce. O ativo mais valioso de seu legado prospera exatamente onde a marca original, a Pick n Pay, encontra suas maiores dificuldades. A venda de mais 11,5% da Boxer, por R82 por ação, totalizando R4,7 bilhões, reforça a aposta na recuperação, mas também levanta questões sobre a viabilidade de longo prazo da marca principal. A confiança dos investidores foi parcialmente restaurada com a entrada de novo capital, mas a trajetória de recuperação ainda é incerta. O Campo Grande NEWS acompanha de perto os desdobramentos desse caso emblemático do varejo.
A redução da participação da Pick n Pay na Boxer, de mais de 65% para cerca de 53%, após a venda de aproximadamente 57,3 milhões de ações em maio, é um reflexo direto da necessidade de capital para financiar a reestruturação. A família Ackerman, fundadora do negócio em 1966, transferiu a presidência e viu seu poder de decisão diminuir significativamente com a entrada de novos investidores institucionais que financiaram a oferta de direitos. A estratégia agora é focar na recuperação dos supermercados tradicionais, enquanto a Boxer continua a ser o principal pilar de sustentação financeira do grupo.


