Haiti: Gangues Sequestram Dezenas em Kenscoff e Governo Promete Resposta Firme

A violência em Kenscoff, no Haiti, atingiu um novo patamar alarmante. Na noite de 23 de agosto, gangues armadas invadiram a comuna, resultando em dezenas de mortos, feridos e sequestrados. A ação, atribuída à coalizão Viv Ansanm, expôs a fragilidade do controle estatal na região e intensificou o drama humanitário, com milhares de pessoas forçadas a deixar suas casas. O governo haitiano prometeu uma resposta enérgica, mas a situação permanece tensa, com a crise de reféns ainda sem solução. Conforme informações divulgadas pela ONU, mais de 50 pessoas foram abduzidas, em um ataque que chocou o país e a comunidade internacional.</p

Crise em Kenscoff: Gangues em Ação e Desespero da População

A comuna de Kenscoff, conhecida por sua produção agrícola e situada nas colinas acima de Porto Príncipe, tornou-se palco de um ataque brutal. Gangues armadas invadiram o centro da cidade na noite de 23 de agosto, desencadeando um ataque que, segundo as Nações Unidas, deixou 47 pessoas mortas e 22 feridas. A Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH) apresentou um balanço ligeiramente diferente, com 45 mortos, e alertou que o número pode aumentar, além de relatar a **queima de oito edifícios**.

O que torna a situação ainda mais sombria é o fato de que entre os atacados estavam pessoas já deslocadas pela violência, que haviam buscado refúgio em uma igreja. Este detalhe, conforme apontado pela Anistia Internacional, evidencia a **insuficiência da proteção oferecida pelo Estado** mesmo para os mais vulneráveis.

O prefeito de Kenscoff, Jean Massillon, identificou a coalizão de gangues Viv Ansanm como responsável pelo ataque. Em resposta, o conselho municipal declarou três dias de luto oficial, de 31 de agosto a 2 de setembro, um gesto simbólico diante da magnitude da tragédia.

Sequestro em Massa e Ameaças em Vídeo

Um dos aspectos mais preocupantes do ataque em Kenscoff é o sequestro de dezenas de pessoas. No dia 25 de agosto, as Nações Unidas confirmaram que mais de 50 indivíduos foram abduzidos durante a ação. A gravidade da situação foi amplificada por um vídeo divulgado por um homem que se identificou como Izo 2, suposto líder de uma das gangues. Na gravação, ele ameaçou matar os reféns caso algum de seus combatentes fosse ferido, dirigindo-se diretamente a Vladimir Paraison, diretor geral interino da Polícia Nacional do Haiti (PNH).

Embora a autenticidade do vídeo não tenha sido confirmada independentemente e a caracterização dos reféns como escudos humanos ainda seja uma interpretação, o fato de pessoas estarem sendo mantidas em cativeiro é documentado, conforme a RNDDH declarou em 26 de agosto. Essa ameaça paira como uma sombra sobre os esforços de negociação e resgate.

Resposta Governamental e Desconfiança no Terreno

Diante da escalada da violência, o governo haitiano reagiu. Em 26 de agosto, o Primeiro-Ministro Alix Didier Fils-Aimé presidiu uma reunião de emergência do Conselho Superior da Polícia Nacional. Seu gabinete anunciou que foi ordenada uma resposta firme com o objetivo de desmantelar as redes criminosas. No mesmo dia, o primeiro-ministro convocou o alto comando da Força de Supressão de Gangues (GSF) para discutir a restauração da ordem pública.

Vladimir Paraison, da PNH, rejeitou alegações de que a polícia havia se omitido, afirmando que policiais e equipamentos estavam posicionados. No entanto, Pierre Espérance, diretor executivo da RNDDH, contestou essa versão, relatando que nenhum veículo blindado da polícia estava presente no local do ataque naquela noite. Essa discrepância de relatos evidencia a complexidade e a desconfiança em torno da atuação das forças de segurança no Haiti.

Deslocamento em Massa e o Impacto Humanitário

Os dados de deslocamento divulgados pela Organização Internacional para as Migrações (IOM) em 26 de agosto pintam um quadro desolador. A Matriz de Rastreamento de Deslocamento (DTM) registrou 2.647 pessoas, de 702 famílias, deslocadas pela violência em Kenscoff entre 23 e 25 de agosto. A maioria buscou abrigo com famílias em áreas vizinhas, como Pétion-Ville, enquanto 611 pessoas foram para três novos abrigos, dois criados após o ataque.

O fechamento de dois sítios de deslocamento no centro de Kenscoff, que antes abrigavam 143 e 140 pessoas, respectivamente, é um reflexo direto da insegurança. Alguns desses deslocados já haviam fugido de incidentes semelhantes meses antes, indicando um ciclo vicioso de violência e instabilidade. A situação é agravada pelo fato de que Kenscoff é a principal área hortícola que abastece o mercado de Porto Príncipe, e a insegurança na região está afetando as colheitas e a disponibilidade de alimentos, elevando os preços dos alimentos básicos em quase 90% acima da média histórica, conforme informações da Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome (FEWS NET).

A Força Internacional e o Futuro Político

A Força de Supressão de Gangues (GSF) opera no Haiti sob autorização do Conselho de Segurança da ONU, com o objetivo de combater grupos armados. Em 8 de julho, a força contava com 1.083 militares. No entanto, o Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti (BINUH) informou em 26 de agosto que a GSF não estava totalmente mobilizada, realizando principalmente patrulhas de rotina em partes da área de Porto Príncipe. O cenário de insegurança no Haiti é alarmante, com 1.408 mortos e 656 feridos registrados entre abril e junho em todo o país.

A crise em Kenscoff ocorre em um momento crucial para o Haiti, que se prepara para eleições gerais em 13 de dezembro, as primeiras em mais de uma década. A capacidade do governo de restaurar o controle em áreas como Kenscoff antes da votação é vista como um teste fundamental para a estabilidade do país e para o cumprimento do cronograma eleitoral, que prevê a posse de um presidente eleito até 7 de fevereiro de 2027.