Um indiciamento do Departamento de Justiça dos Estados Unidos lança uma sombra sombria sobre as eleições de 2021 no estado mexicano de Sinaloa, acusando o Cartel de Sinaloa de orquestrar a ascensão do atual governador, Rubén Rocha Moya. A operação, que teria começado antes mesmo do pleito, envolve supostas reuniões com os filhos de El Chapo e manipulação eleitoral, transformando o caso de uma simples acusação de corrupção em uma profunda crise política para o México.
Cartel teria orquestrado eleição de governador em Sinaloa
O caso ganha contornos ainda mais graves com a revelação de que o Cartel de Sinaloa não apenas pagava propinas a um governador, mas o teria colocado no poder. Segundo o jornal espanhol El País, o plano do cartel para eleger Rocha Moya teria se iniciado em reuniões com os chamados Los Chapitos, filhos de Joaquín “El Chapo” Guzmán. O objetivo seria garantir que, uma vez eleito, Rocha Moya nomeasse funcionários alinhados aos interesses do grupo criminoso em posições-chave do governo estadual.
Interferência eleitoral e intimidação de rivais
A acusação mais chocante detalhada no indiciamento é a interferência direta no processo eleitoral. Promotores americanos alegam que Rocha Moya teria fornecido ao Cartel de Sinaloa uma lista de seus oponentes políticos, incluindo seus endereços. A intenção seria permitir que o cartel intimidasse esses rivais, forçando-os a desistir da corrida eleitoral. Como parte dessa suposta estratégia, no dia anterior à votação, em 5 de junho de 2021, pelo menos nove operadores de campanha dos partidos PRI e Morena foram sequestrados em Culiacán e Badiraguato. Na época, o episódio foi documentado pela mídia local, mas sem qualquer ligação direta com o candidato.
O documento do Departamento de Justiça americano descreve ainda a fase pós-eleição com detalhes alarmantes. Altos funcionários de segurança e procuradores do governo de Rocha Moya, incluindo o vice-procurador estadual de Sinaloa, teriam recebido mensalidades para proteger membros de Los Chapitos contra prisões, vazar informações sobre operações apoiadas pelos EUA e ordenar que a polícia escoltasse carregamentos de drogas, como fentanil, cocaína, heroína e metanfetamina. Dez pessoas, todas ligadas à coalizão governante Morena ou a seus aliados em Sinaloa, foram nomeadas no indiciamento.
Presidente Sheinbaum em xeque
A situação coloca a presidente Claudia Sheinbaum em uma posição delicada. De acordo com o El País, fontes de alto escalão do governo mexicano revelaram que o gabinete de segurança federal já monitorava o padrão de comportamento de Rocha Moya há tempos, incluindo esforços para direcionar operações federais anticorrupção exclusivamente contra rivais de Los Chapitos. Diante da iminência do indiciamento, Sheinbaum teria enviado intermediários para pedir a renúncia de Rocha Moya, mas ele teria recusado o pedido.
Rocha Moya teria justificado sua recusa citando o apoio político recebido de seu antecessor, Andrés Manuel López Obrador, que publicamente o defendeu em agosto de 2024, após a prisão de Mayo Zambada. Para Sheinbaum, a escolha agora é binária: apoiar a extradição e aceitar o custo político de admitir que o partido Morena abrigou a rede descrita no indiciamento, ou recusar e ser acusada por Washington de proteger essa rede. O líder do partido Morena no Congresso, Ricardo Monreal, já minimizou o caso, classificando-o como uma “questão política”, a mesma narrativa utilizada por Rocha Moya em um vídeo divulgado em 1º de maio.
Próximos passos e imunidade parlamentar
O Ministério Público do México, através de seu porta-voz Ulises Lara, informou que está analisando os pedidos de extradição e decidirá se as evidências são suficientes sob a lei mexicana. Tanto o governador Rocha Moya quanto o senador Enrique Inzunza Cazárez possuem imunidade parlamentar, o que exige que o Congresso levante essa proteção antes que qualquer processo criminal possa ser iniciado no México. Os outros oito réus não gozam dessa prerrogativa.
A temperatura diplomática também é um fator crucial. O embaixador dos EUA, Ronald Johnson, emitiu um comunicado afirmando que a corrupção alimenta a atividade criminosa e deve ser combatida, sem mencionar Rocha Moya diretamente. Sheinbaum, por sua vez, classificou a declaração como “infeliz” e rejeitou o que chamou de tentativa de interferência, uma retórica que já utilizou em outras ocasiões relacionadas a ações lideradas pelos EUA em território mexicano.
Implicações para a relação México-EUA
Três pontos estruturais estão em jogo no relacionamento entre México e Estados Unidos. O primeiro é a janela de revisão do USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá), que se abre em 1º de julho, com a cooperação no combate ao narcotráfico sendo um possível ponto de alavancagem. O segundo é que o Departamento de Justiça dos EUA tem construído uma série de casos contra a infraestrutura política do Cartel de Sinaloa desde 2023, sugerindo que mais indiciamentos podem vir. O terceiro é a queda na aprovação de Sheinbaum para 51%, o índice mais baixo de seu mandato, com a corrupção superando a criminalidade como principal preocupação dos eleitores.
Para investidores, a questão não é mais se o caso Rocha está contido. A dúvida é se a tese da operação do Cartel de Sinaloa para eleger um governador se tornará um modelo para Washington argumentar que outros estados mexicanos foram comprometidos, e se essa argumentação poderá ser respondida rapidamente pela Cidade do México para manter as conversações comerciais nos trilhos. Um sinal importante virá do Congresso mexicano. Se a imunidade parlamentar for suspensa, o caso se tornará um processo criminal mexicano e o custo político permanecerá interno. Caso contrário, o caso se transformará em uma disputa de extradição americana, e o custo se moverá para a relação bilateral. De qualquer forma, o período em que a relação Sinaloa-Rocha podia ser negada chegou ao fim.


