Um levantamento inédito do Radar Verde revelou um cenário alarmante em Mato Grosso do Sul: 18 das 21 empresas frigoríficas avaliadas receberam nota zero em controle socioambiental e combate ao desmatamento no Cerrado. A pesquisa analisou unidades em 19 municípios do estado, evidenciando baixa transparência e falhas significativas no monitoramento da cadeia da carne bovina, especialmente em relação a fornecedores indiretos.
Apenas Minerva, JBS e Naturafrig obtiveram pontuações, mas foram classificadas com compromisso baixo ou muito baixo contra o desmatamento. Nacionalmente, o quadro é igualmente preocupante, com 96% das 225 empresas analisadas apresentando classificação muito baixa e nenhuma demonstrando monitoramento efetivo de fornecedores indiretos de gado. Conforme informação divulgada pelo Radar Verde, o estudo buscou avaliar o nível de comprometimento das empresas na prevenção do desmatamento associado à produção de gado.
A pesquisa do Radar Verde, conforme o Campo Grande NEWS checou, atribuiu notas de 0 a 100, onde pontuações acima de 90 indicam grau “muito alto” de compromisso contra o desmatamento. Notas entre 70 e 89 são consideradas “altas”; entre 50 e 69, “intermediárias”; entre 30 e 49, “baixas”; e abaixo de 29, “muito baixas”. É importante notar que nenhuma empresa avaliada no Cerrado alcançou os níveis intermediários, altos ou muito altos, demonstrando um desafio generalizado.
Minerva, JBS e Naturafrig: As únicas com pontuação em MS
Em Mato Grosso do Sul, as únicas empresas frigoríficas que se destacaram com pontuações diferentes de zero foram a Minerva S.A., que alcançou 38,32, e a JBS S.A., com 37,74. Ambas foram classificadas com baixo compromisso contra o desmatamento. A Naturafrig Alimentos Ltda. obteve a nota 21,36, enquadrando-se na categoria de compromisso muito baixo.
A Minerva possui unidade em Batayporã. A JBS, uma das maiores do setor, mantém cinco plantas em quatro municípios sul-mato-grossenses: Anastácio, Campo Grande, Iguatemi e Ponta Porã. Já a Naturafrig atua em Nova Andradina e Rochedo. O levantamento abrangeu 27 unidades frigoríficas distribuídas em 19 municípios do estado.
Nacionalmente, o cenário é crítico: 96% com baixo compromisso
A análise do Radar Verde, que avaliou 225 empresas frigoríficas com 262 plantas no Cerrado brasileiro, indicou que 216 delas, o equivalente a 96% do total, receberam a classificação de compromisso “muito baixo” contra o desmatamento. As outras nove empresas ficaram na categoria “baixo”.
O relatório também destacou a fragilidade no monitoramento dos fornecedores de gado. Apenas sete empresas, cerca de 3% do total analisado, apresentaram algum nível de controle sobre fornecedores diretos. No que diz respeito aos fornecedores indiretos, nenhuma companhia demonstrou evidências suficientes de acompanhamento efetivo.
Fornecedores indiretos são as propriedades por onde o gado passa antes de chegar à fazenda que vende diretamente ao frigorífico. Essa etapa de cria e recria é onde o animal passa a maior parte da vida. Sem monitoramento dessas áreas, o gado pode ser transferido de fazendas com desmatamento ou outras irregularidades para propriedades regularizadas antes do abate, dificultando a rastreabilidade, como o Campo Grande NEWS já havia noticiado em outras ocasiões.
Falta de transparência e desafios no monitoramento no Cerrado
Um ponto crucial levantado pela pesquisa é que nenhuma das empresas avaliadas respondeu ao questionário enviado pelo Radar Verde para complementar informações sobre práticas de monitoramento e controle de fornecedores de gado. Essa ausência de resposta, segundo os organizadores, demonstra baixa transparência ativa, mesmo que não signifique necessariamente a aquisição de animais oriundos de áreas desmatadas.
A análise foi baseada em evidências públicas disponíveis, como auditorias independentes, políticas empresariais divulgadas, documentos oficiais e bases públicas. O estudo também aponta que os sistemas de controle da cadeia da carne no Brasil foram historicamente desenvolvidos para combater o desmatamento na Amazônia, deixando o Cerrado em segundo plano.
Enquanto na Amazônia existem os Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) da Carne, que estabelecem critérios de monitoramento e auditoria para frigoríficos, no Cerrado não há um mecanismo semelhante em vigor. O relatório cita como avanço o Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado, lançado em 2024, mas ressalta que a iniciativa carece de mecanismos de punição em caso de descumprimento, o que reduz sua efetividade.
O Cerrado ocupa 23,3% do território nacional e já perdeu 93 milhões de hectares de vegetação nativa, quase metade de sua área original, sendo 51% convertidos em pastagens. Em 2024, o bioma registrou pelo segundo ano consecutivo a maior área desmatada do país, com 652,1 mil hectares devastados, equivalente a 52,5% de todo o desmatamento nacional no período. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a legislação ambiental, como o Código Florestal, exige a preservação de 20% a 35% da vegetação nativa nas propriedades rurais no Cerrado, exigência que pode chegar a 80% na Amazônia, o que torna a análise de desmatamento um desafio complexo no bioma.
A iniciativa Radar Verde, que desde 2022 avalia o controle socioambiental de frigoríficos na Amazônia Legal e dos maiores grupos varejistas do país, incluiu pela primeira vez empresas com atuação no Cerrado. A parceria entre o Imazon e o Instituto O Mundo Que Queremos busca trazer mais luz a essas questões ambientais e de sustentabilidade na cadeia produtiva da carne. O Sicadems (Sindicato das Indústrias de Frio, Carnes e Derivados do Estado de Mato Grosso do Sul) foi procurado e ainda não se manifestou a respeito, com o espaço permanecendo aberto para resposta.

