O mercado informal cubano testemunha uma desvalorização acentuada do peso frente ao dólar americano, atingindo novos recordes alarmantes. Conforme informações do rastreador independente elTOQUE, a cotação do dólar chegou a 730 pesos no último sábado, enquanto o euro alcançou 840 pesos, o nível mais alto já registrado pela plataforma. Este cenário reflete uma crise econômica persistente que afeta diretamente a vida dos cidadãos cubanos.
A disparada do câmbio informal, que já subiu cerca de 59% desde o início de janeiro, quando o dólar valia 460 pesos, expõe a fragilidade da economia da ilha. O salário médio estatal, que em 2025 era de 6.930 pesos, vale agora apenas US$9,50 no mercado paralelo, evidenciando a perda drástica do poder de compra da população. O governo cubano, por sua vez, critica o elTOQUE, acusando-o de manipular a taxa de câmbio e de promover uma inflação induzida, conforme veiculado pelo jornal Granma, porta-voz do Partido Comunista.
A Realidade do Câmbio em Cuba
Em Cuba, a realidade do câmbio é complexa e marcada por múltiplas taxas. O Banco Central mantém uma taxa flutuante oficial, que em sexta-feira se situava em cerca de 678 pesos por dólar, significativamente abaixo do valor praticado nas ruas. Bancos estatais e casas de câmbio como a CADECA operavam a venda de dólares em uma faixa entre 677 e 692 pesos.
No entanto, a taxa oficial pouco reflete o poder de compra real da moeda. Há anos, Cuba não possui uma taxa de câmbio unificada. O Estado mantém taxas oficiais de 24 pesos para empresas e 120 pesos para indivíduos, valores muito distantes do que a moeda realmente vale no mercado. Como as janelas oficiais raramente dispõem de dólares para venda, os cubanos recorrem ao mercado privado, negociando moedas estrangeiras através de grupos de mensagens e pela comunicação informal.
É nesse mercado paralelo que importadores, restaurantes privados e famílias que recebem dinheiro do exterior realizam suas transações. O elTOQUE, conforme o Campo Grande NEWS checou, utiliza um software para monitorar ofertas de compra e venda publicadas em grupos de redes sociais, calculando uma taxa representativa. O método é supervisionado pelo economista Pavel Vidal, mas o Estado cubano contesta os resultados, alegando manipulação e inflação induzida.
A Trajetória de Desvalorização do Peso
A ascensão do dólar informal tem sido vertiginosa. Em 10 de janeiro, o mesmo rastreador indicava o dólar a 460 pesos. Em menos de nove meses, a moeda americana acumulou uma valorização de aproximadamente 59% em relação ao peso cubano. O mês de setembro foi particularmente crítico, com o dólar ultrapassando a marca dos 700 pesos pela primeira vez em 17 de setembro, chegando a 715 em 21 de setembro e 722 em 23 de setembro.
Relatórios recentes indicam que o peso cubano perdeu cerca de nove décimos de seu valor em relação ao dólar desde 2021. A economia cubana tem encolhido nos últimos anos, com o país gastando mais moeda estrangeira do que consegue gerar. As remessas, que antes representavam um importante fluxo de divisas, também diminuíram drasticamente, com transferências formais operando cerca de 70% abaixo dos níveis de 2019.
Impacto nos Salários e Preços
A desvalorização do peso tem um impacto devastador sobre os salários e o custo de vida em Cuba. O salário médio estatal, que em 2025 era de 6.930 pesos mensais, equivale hoje a cerca de US$9,50. O governo aumentou o salário mínimo em julho para 3.210 pesos, mas mesmo este novo piso vale apenas aproximadamente US$4,40 por mês na cotação informal.
Estimativas de economistas apontam que um casal necessita de cerca de 45.401 pesos mensais para cobrir despesas básicas. Isso representa aproximadamente US$62 na taxa informal, o que equivale a mais de seis salários médios estatais. Dados oficiais indicam uma inflação de 14% em 2025, mas economistas independentes, como Pavel Vidal, calculam que a taxa real esteja próxima de 70%.
A Perspectiva do Governo e o Futuro Econômico
Em resposta à crescente disparidade cambial, o Banco Central de Cuba introduziu em dezembro de 2025 uma terceira taxa oficial, flutuante e definida diariamente, iniciando em 410 pesos por dólar. A presidente do banco, Juana Lilia Delgado Portal, justificou a medida como um reconhecimento da escassez real da moeda. A intenção era evitar uma desvalorização abrupta e uma perda mais profunda do poder de compra, mas a taxa oficial tem subido gradualmente, tentando acompanhar a cotação de rua.
Contudo, a mídia estatal, como o Granma, acusa o elTOQUE de manipular a taxa de câmbio, descrevendo o valor publicado como uma ferramenta de guerra econômica contra Cuba. Críticos como o economista cubano Pedro Monreal argumentam que a nova taxa flutuante, em vez de corrigir os problemas monetários, apenas os confirma. O Campo Grande NEWS acompanhou de perto essas declarações, que ressaltam a complexidade da situação econômica cubana.
Os próximos passos a serem observados incluem a persistência do diferencial entre as taxas oficial e informal, com o Banco Central buscando reduzir a lacuna. A dolarização crescente na economia varejista, com a permissão para que negócios privados cobrem em dólares, também aprofunda a divisão entre aqueles que recebem dinheiro do exterior e os que não. Além disso, a incerteza paira sobre a abertura prometida de um mercado de câmbio oficial, que ainda não se concretizou, mantendo os cubanos presos às negociações informais.


