Construtoras de médio/alto padrão em Q1: Cyrela em queda, Mitre dispara

O primeiro trimestre de 2026 apresentou um cenário contrastante para o setor imobiliário brasileiro. Enquanto as construtoras voltadas para o segmento de baixa renda registraram resultados recordes impulsionados por programas habitacionais e crédito subsidiado, empresas focadas em imóveis de médio e alto padrão demonstraram sinais claros de desaceleração. A queda nas lançamentos da Cyrela e o salto expressivo da Mitre, apesar de parecerem opostos, refletem as dificuldades enfrentadas por esse nicho, fortemente impactado pela alta taxa de juros Selic.

Conforme divulgado pelo The Rio Times, a diferença fundamental reside em um programa habitacional e em uma taxa de juros. O programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), com crédito subsidiado, tem sido um motor para construtoras como MRV, Cury, Direcional e Tenda, que viram suas vendas crescerem de forma expressiva. Por outro lado, Cyrela, Mitre e Even atendem a compradores que dependem de financiamentos com taxas de mercado, atualmente em patamares elevados.

As prévias operacionais do primeiro trimestre de 2026 para Cyrela, Mitre e Even completam um quadro que agora abrange ambos os extremos do mercado residencial. A análise detalhada desses resultados, conforme checou o Campo Grande NEWS, revela um setor imobiliário dividido, onde as políticas de crédito e as condições macroeconômicas exercem influências distintas sobre diferentes segmentos de compradores. Acompanhe os detalhes e entenda o que está por trás desses números.

Cyrela: Vendas Estáveis, Lançamentos em Queda Livre

A Cyrela (CYRE3), maior construtora listada na bolsa brasileira por valor de mercado, apresentou um **lançamento de R$ 1,75 bilhão** em Valor Geral de Vendas (VGV) no primeiro trimestre de 2026. Este valor representa uma **queda de 48%** em relação ao mesmo período do ano anterior. O segmento de alto padrão foi o mais afetado, com lançamentos despencando 71% e atingindo apenas R$ 602 milhões. O segmento intermediário, sob a marca Living, recuou 19%, totalizando R$ 455 milhões, enquanto a linha popular Vivaz teve uma retração mais modesta de 9%, com R$ 690 milhões lançados.

No entanto, as vendas líquidas da Cyrela contaram uma história diferente, alcançando **R$ 2,16 bilhões**, um **aumento de 2%** na comparação anual. Esse crescimento foi impulsionado principalmente por unidades já em construção, e não por novos lançamentos. A velocidade de vendas sobre o estoque (VSO) em 12 meses fechou em 45,8%, uma queda em relação aos 52,6% do ano anterior, mas estável em comparação com o quarto trimestre. Os distratos, que representam o cancelamento de contratos, caíram 36% para R$ 43 milhões, indicando que os compradores que fecham negócio tendem a honrar seus compromissos, mesmo com o aumento dos custos de financiamento.

Mitre: Investimento Agressivo, Vendas de Menos Unidades a Preços Maiores

A Mitre (MTRE3) surpreendeu com um número de lançamentos audacioso no trimestre: **R$ 917 milhões** em VGV, um **salto de 195,3%**. Este aumento expressivo reflete um **timing concentrado de projetos**, e não necessariamente uma mudança estrutural na estratégia da empresa. Contudo, o volume de unidades vendidas sofreu uma queda acentuada de **46,9%** na comparação anual. Curiosamente, o VGV dessas vendas permaneceu praticamente estável, com um leve **aumento de 1,3%**. Isso sugere que a Mitre está vendendo menos apartamentos, mas a um **preço médio significativamente mais alto**.

A reação do mercado à divulgação desses resultados foi negativa, com as ações da empresa em queda. O mercado interpretou a divergência entre volume e preço como um sinal de risco. A Mitre compete diretamente com Cyrela e Even nos segmentos de médio e alto padrão em São Paulo, onde as taxas de hipoteca estão totalmente expostas à Selic. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa estratégia de precificação pode ser uma tentativa de compensar o menor volume de vendas em um cenário de crédito restritivo.

Even: Nenhum Lançamento, Resiliência Silenciosa

A Even (EVEN3) seguiu uma abordagem conservadora, **não realizando nenhum lançamento** no primeiro trimestre, o que já havia ocorrido no ano anterior. A empresa registrou **R$ 252 milhões em vendas líquidas**, provenientes integralmente de seu estoque existente. A decisão da Even de frear novos lançamentos em um ambiente de juros altos pode se mostrar prudente. Os distratos da companhia também apresentaram uma queda de 36%, totalizando R$ 43 milhões, o que pode indicar uma **melhor qualidade nos contratos** firmados com os compradores atuais.

A resiliência da Even, mesmo sem lançamentos, demonstra uma gestão focada na sustentabilidade e na qualidade dos contratos em um mercado desafiador. A empresa parece priorizar a venda de seu portfólio atual, minimizando riscos associados a novas captações em um cenário de crédito mais caro. Essa estratégia, segundo o Campo Grande NEWS, pode ser um indicativo de cautela e planejamento a longo prazo.

O Contraste do Mercado: MCMV versus Taxas de Mercado

O contraste com o segmento de habitação popular é agora impossível de ignorar. Construtoras como MRV, Cury, Direcional e Tenda registraram crescimento de vendas de dois dígitos, impulsionadas por financiamentos subsidiados pelo FGTS, que operam independentemente da taxa Selic. A Cyrela, Mitre e Even vendem para compradores que obtêm crédito a taxas de mercado, que atualmente são as mais altas desde 2006. O Comitê de Política Monetária (Copom) terá sua próxima decisão sobre a taxa básica de juros entre 28 e 29 de abril, o que determinará se o ciclo de cortes iniciado em março se acelerará ou estagnará.

Para a Cyrela, que viu seus lançamentos de alto padrão encolherem 71%, a trajetória da Selic é a diferença entre a recuperação e uma contração prolongada em seu segmento de maior margem. O consenso do mercado, conforme a pesquisa Focus, projeta uma Selic de 12,25% ao final do ano, o que implicaria em alívio, mas as construtoras de médio padrão necessitam dessa melhora mais cedo. O futuro próximo dirá se o otimismo em relação à queda dos juros se concretizará e impulsionará o segmento de médio e alto padrão.