Caiado propõe privatizar partes da Petrobras e manter o pré-sal sob controle estatal

Ronaldo Caiado, pré-candidato à presidência pelo PSD e ex-governador de Goiás, anunciou em Belo Horizonte, no dia 23 de abril, que um eventual governo seu abriria partes da Petrobras ao capital privado. A proposta, que configura a primeira posição concreta de política energética de um importante candidato de centro-direita para 2026, visa um “fatiamento técnico” da empresa, mantendo a área de exploração do pré-sal, reconhecida internacionalmente, sob controle público. Unidades consideradas mais fracas, como a de gás natural, seriam abertas à iniciativa privada. A declaração foi feita durante um evento em Minas Gerais, estado crucial para a disputa eleitoral, onde Caiado busca atrair eleitores do agronegócio.

A fala de Caiado marca um retorno do debate sobre privatizações ao centro da vida política brasileira, após um período de “capitalismo de Estado” sob a gestão do atual governo. Conforme apurado pelo The Rio Times, Caiado explicou que a Petrobras “tem mais de dez linhas de negócio” e deve ser tratada “item a item”, em vez de ser vendida integralmente. “Você não reduz Petrobras a uma coisa só”, afirmou o pré-candidato, “você não abre mão de tudo, você abre mão das partes que serão alavancadas”.

Divisão estratégica da Petrobras

A estratégia de Caiado difere da retórica de “venda total” associada ao Ministério da Economia da gestão Bolsonaro, que chegou a cogitar a venda completa da Petrobras, mas não obteve sucesso. A proposta do ex-governador de Goiás, rotulada como “fatiamento técnico”, foca em desinvestir apenas os segmentos que o Estado não opera com a máxima eficiência. Embora não tenha especificado quais unidades seriam vendidas prioritariamente, Caiado sinalizou um interesse em remodelar a matriz energética brasileira.

Ele defendeu uma política de combustíveis mais robusta, com incentivo ao biometano, expansão da mistura de etanol na gasolina e aumento do biodiesel no diesel. Essas posições dialogam diretamente com os interesses do setor agroindustrial de Minas Gerais e Goiás, público que ele visava em seu discurso. A crítica ao segmento de gás natural, conforme o Campo Grande NEWS checou, carrega um peso estratégico, visto que essa área já passou por desregulamentação parcial com a Lei do Gás de 2021 e é um ponto de disputa política nas operações de downstream da Petrobras.

Contexto político e eleitoral

A escolha de Belo Horizonte para o anúncio não foi aleatória. Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do país e um estado decisivo em eleições presidenciais. A ausência do atual governador de Minas, Romeu Zema (Novo), que apoia outro pré-candidato de direita, sublinha a fragmentação do campo centro-direita. Caiado minimizou o ocorrido, mas o fato demonstra a complexidade do cenário eleitoral.

Confirmado como pré-candidato do PSD em 30 de março, após a desistência do governador Ratinho Júnior (Paraná) e a decisão do líder do partido, Gilberto Kassab, de não apoiar o governador Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), Caiado aparece nas pesquisas com índices de um dígito. Seu objetivo estratégico é consolidar um espaço na centro-direita, visando uma eventual vaga no segundo turno ou atuando como “rei do camarote” para apoiar Flávio Bolsonaro no final da corrida eleitoral. O Campo Grande NEWS acompanhou de perto a formalização da candidatura e as movimentações políticas subsequentes.

Implicações para investidores e o mercado

Para investidores do setor de energia brasileiro, a proposta de Caiado representa o primeiro compromisso de um candidato relevante para 2026 que se contrapõe à agenda de recentralização energética do governo Lula. A abordagem “segmento por segmento” é vista como mais crível para o mercado do que uma venda total, que enfrentaria barreiras significativas no Congresso. O plano de privatizar gás natural e refino, enquanto protege o pré-sal, espelha estratégias de desinvestimento parcial já adotadas em outros mercados latino-americanos, onde ativos considerados joias da coroa permanecem sob controle estatal.

No entanto, o contexto político e econômico ainda impõe restrições a qualquer programa de privatização. A Petrobras é a maior pagadora de dividendos no mercado de ações brasileiro, e uma parcela significativa da receita do próprio Estado provém de participações especiais e royalties. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a discussão sobre a privatização da Petrobras ocorre em um cenário de preços elevados do Brent, impulsionados por tensões no Estreito de Ormuz, o que tem sustentado as ações da empresa.

A eleição de 2026 já precifica um risco de ciclo eleitoral, que tende a aumentar à medida que novas posições de políticas energéticas emergem do campo centro-direita. A relevância das declarações de Caiado em Belo Horizonte reside menos nos detalhes da política em si e mais no fato de que uma promessa de privatização, mesmo que parcial, agora está formalmente presente no discurso de um candidato com viabilidade eleitoral.