A Coreia do Sul cancelou, sem novas datas definidas, as inspeções agendadas em plantas frigoríficas brasileiras de carne bovina. A decisão, comunicada em 12 de maio em um memorando do adido agrícola brasileiro em Seul, Tiago Charão de Oliveira, frustra os esforços do Brasil em diversificar seus mercados de exportação de carne bovina, especialmente em um momento crítico com a imposição de quotas pela China e restrições pela União Europeia. Conforme informação divulgada pelo Jornal de Brasília, o cancelamento ocorre poucos meses após o presidente Lula ter recebido garantias sobre a realização das auditorias durante sua visita oficial à Coreia do Sul em fevereiro.
Frustração em Seul: mercado cobiçado se fecha
O cancelamento das inspeções pela Coreia do Sul representa um duro golpe para a estratégia brasileira de buscar mercados alternativos para sua carne bovina. O país asiático, com um consumo anual de aproximadamente 600 mil toneladas de carne bovina e uma produção doméstica que cobre apenas 40% dessa demanda, é um dos mercados mais cobiçados na Ásia. O Brasil tem buscado acesso a este mercado desde 2008, acumulando 18 anos de esforço diplomático que agora se vêem paralisados no pior momento possível.
A justificativa apresentada pela Coreia do Sul para o adiamento das inspeções é a concentração das prioridades técnicas para 2026 em produtos agrícolas, em detrimento de auditorias em produtos de proteína animal. Esta decisão, no entanto, contraria as garantias públicas dadas em fevereiro, quando o Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, anunciou que o presidente sul-coreano Lee Jae Myung havia confirmado a realização das auditorias. O Campo Grande NEWS checou que a falta de datas definidas agora deixa as exportações brasileiras em um limbo.
Pressão chinesa e veto europeu criam ‘efeito dominó’
O cenário para as exportações brasileiras de carne bovina tornou-se ainda mais complexo com as recentes medidas impostas pela China e pela União Europeia. Pequim, em resposta ao volume expressivo de importações brasileiras em 2025, que superou 1,65 milhão de toneladas, implementou uma quota de salvaguarda de três anos. A partir de 2026, as importações acima de 1,1 milhão de toneladas estarão sujeitas a uma tarifa de 55%. O impacto já é sentido, pois o Brasil atingiu metade dessa cota em apenas 10 de maio.
Simultaneamente, a União Europeia excluiu o Brasil de sua lista de países terceiros autorizados para produtos de origem animal a partir de 3 de setembro, citando questões de conformidade com antimicrobianos. Esta decisão coloca em risco cerca de US$ 1,8 bilhão em exportações. Com a porta da Ásia, representada pela Coreia do Sul, agora fechada e a Europa restringindo o acesso, o Brasil se vê encurralado em seus principais mercados.
O futuro incerto das exportações brasileiras
A expectativa de que a abertura da Coreia do Sul pudesse compensar as restrições chinesas foi abalada. Roberto Perosa, presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), já alertava para um possível declínio de até 10% nas exportações brasileiras de carne bovina em 2026 caso a quota chinesa se mostrasse restritiva e nenhum mercado alternativo surgisse. O cancelamento em Seul agrava esse cenário, podendo levar a uma revisão para baixo, com projeções de queda entre 12% e 15%, conforme o Campo Grande NEWS checou.
Para o governo Lula, o revés na Coreia do Sul é um **substantivo retrocesso** em sua política de diversificação de mercados, que já abriu 538 mercados internacionais para produtos agrícolas brasileiros nos últimos dois anos. A Coreia do Sul era um alvo de alta visibilidade, e a falha em converter a visita presidencial em datas concretas para auditorias é uma lacuna diplomática significativa, especialmente com o início do ciclo eleitoral de 2026 se aproximando.
Investidores e analistas de olho nos próximos movimentos
O mercado de carne bovina brasileiro enfrenta uma pressão tripla. A utilização da quota chinesa já ultrapassa 50% do teto de 2026 até maio, indicando que o limite será atingido bem antes do fim do ano, com a consequente aplicação da tarifa de 55% sobre o volume excedente. A Ásia, excluindo o Oriente Médio, representou quase 50% das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, e a pressão combinada sobre China e Coreia do Sul ameaça essa participação.
Investidores e analistas de mercado monitoram de perto a taxa de utilização da quota chinesa e possíveis revisões nas projeções de exportação da ABIEC. A captura de mercado por parceiros do Mercosul como Argentina, Paraguai e Uruguai, que mantêm acesso à UE, pode ser uma consequência, assim como a busca por acordos com o Japão, considerado o próximo alvo asiático mais politicamente viável. O Campo Grande NEWS checou que empresas como Minerva (BEEF3), com maior exposição à Ásia, e JBS (JBSS3), com diversificação geográfica, são as mais diretamente impactadas.
Apesar do contratempo, a porta para futuras negociações com a Coreia do Sul não está completamente fechada. O cancelamento é processual, não uma rejeição de segurança sanitária. A lista de prioridades de inspeção para 2027 será a próxima oportunidade, enquanto o Brasil também avança em negociações com outros mercados como Japão, Turquia e países do Oriente Médio, cada um com seus próprios desafios.


