Em sua primeira participação como presidente na Assembleia Geral da ONU, José Antonio Kast marcou presença com um discurso ambivalente. Por um lado, o líder chileno buscou projetar uma imagem de um Chile renovado e pronto para atrair investimentos estrangeiros. Por outro, aproveitou o prestigiado púlpito para fazer críticas contundentes à própria Organização das Nações Unidas, apontando sua ineficácia diante dos desafios contemporâneos e clamando por reformas profundas. Conforme relatado pelo The Rio Times, o pronunciamento, que durou 18 minutos, ocorreu em 22 de setembro de 2026, em Nova York.
Kast anuncia o retorno do Chile e dispara contra a ONU
O presidente chileno, José Antonio Kast, que assumiu o cargo em 11 de março de 2026 após vencer a eleição de dezembro de 2025 com 58,2% dos votos, utilizou a tribuna da ONU para apresentar seu país como uma nação que emergiu de um período de estagnação. A mensagem central foi clara: o Chile está de volta e aberto a negócios. No entanto, o discurso rapidamente tomou um rumo crítico, com Kast dirigindo-se diretamente à organização que o recebia.
“He venido hasta este foro a contarles que Chile está de vuelta”, declarou Kast, em espanhol, que em português significa “Vim a este fórum para dizer que o Chile está de volta”. A frase, carregada de otimismo sobre o futuro de seu país, logo deu lugar a uma avaliação sombria sobre a atuação da organização multilateral.
Kast não poupou críticas à ONU, afirmando que a entidade “no ha estado a la altura de los desafíos de nuestros tiempos”, ou seja, “não esteve à altura dos desafios de nossos tempos”. Essa declaração, que ele mesmo definiu como a parte “mais incômoda” de seu discurso, sinalizou um desejo por mudanças significativas no cenário internacional.
Números e promessas: a visão de Kast para o Chile
O presidente apresentou dados que, segundo ele, demonstram um Chile mais seguro e competitivo. Ele citou uma queda de 11,5% na taxa de homicídios no primeiro semestre de 2026 e uma redução de 86% nas entradas irregulares graças ao seu plano de fronteira “Escudo Fronterizo”. As expulsões, de acordo com o governo chileno, aumentaram 50% em relação ao ano anterior.
Na economia, Kast destacou a redução do imposto corporativo de 27% para 23%. Ele também mencionou que mais de US$ 44 bilhões em projetos entraram no sistema de licenciamento ambiental em seis meses, com mais de US$ 33 bilhões aprovados, alguns após anos de espera. Um montante adicional de US$ 17 bilhões foi liberado na fase ambiental, conforme dados apresentados pelo presidente.
Apesar do otimismo, Kast reconheceu que a economia chilena “aún no despega” (ainda não decolou) e que o desemprego “se mantiene alto” (permanece alto). Ele prometeu, contudo, que “El cambio va a llegar” (a mudança virá). Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas do Chile, a taxa de desemprego foi de 9,5% no trimestre de maio a julho de 2026.
Críticas à estrutura da ONU e propostas de reforma
O ponto alto da crítica de Kast à ONU foi a sua declaração de que “No es posible mantener vigente el orden mundial del año 1945 en un mundo del 2026”, salientando a necessidade de adaptar a organização à realidade atual. Para isso, ele apresentou três propostas concretas: a redução da burocracia, a suspensão de agendas não prioritárias e a reforma do Conselho de Segurança.
O presidente argumentou que o atual Conselho de Segurança, com seus cinco membros permanentes e poder de veto, reflete uma ordem mundial defasada, criada em 1945, e não as dinâmicas geopolíticas de 2026. A reforma visa tornar o órgão mais representativo e eficaz.
Kast também instou o fim das guerras globais, ressaltando o impacto do conflito nos preços de bens essenciais como o pão e o transporte, o que afeta diretamente o Chile, um país importador de petróleo. Ele mencionou ainda a retomada das relações com a Venezuela sob sua nova liderança, adotando um curso “intermediário”, sem alinhamento incondicional nem recusa total de reconhecimento.
O convite aos investidores e o futuro da América Latina
Em sua mensagem aos investidores, Kast fez um convite direto: “Elijan Chile para invertir” (Escolham o Chile para investir). Ele prometeu regras estáveis, um sistema judiciário funcional e contratos seguros, destacando os minerais chilenos e o Estreito de Magalhães como ativos valiosos para o comércio internacional.
O discurso de Kast na ONU é visto como um marco, pois um presidente chileno, tradicionalmente cauteloso em sua política externa, decidiu avaliar publicamente as instituições multilaterais das quais o país tanto depende. O timing é particularmente delicado, considerando que Michelle Bachelet, ex-presidente chilena, havia recentemente deixado a disputa pela secretaria-geral da ONU. Kast, no entanto, declarou “o maior respeito” por ela, embora tenha afirmado que seu governo nunca apoiou sua candidatura.
Finalizando sua fala, o presidente lançou um olhar otimista para a região: “América Latina puede ser el continente de la próxima década” (A América Latina pode ser o continente da próxima década), projetando um futuro promissor para o continente.


