Honduras volta à corte de arbitragem do Banco Mundial para atrair investidores

Honduras marcou seu retorno ao sistema de arbitragem do Banco Mundial, o Centro Internacional para Resolução de Disputas sobre Investimentos (ICSID), em 16 de agosto, após 18 meses de afastamento. A decisão, vista por analistas como um forte sinal de abertura econômica, busca impulsionar o fluxo de investimentos no país. No entanto, a volta à corte coincide com a pendência de uma vultosa ação movida por investidores da cidade-charter Próspera, totalizando US$ 1,63 bilhão, conforme informações divulgadas pelo Banco Mundial.

O governo do presidente Nasry Asfura considera essa reintegração um pilar fundamental para sua agenda de atração de capital estrangeiro. Paralelamente, uma reforma energética crucial, que visa reestruturar a estatal de energia ENEE, poderá ser votada no Congresso na próxima semana. Essa medida é vista como essencial para a saúde financeira da empresa, que acumula perdas significativas.

A situação econômica doméstica, contudo, apresenta desafios. A moeda hondurenha, o lempira, rompeu a marca de 27 por dólar pela primeira vez, elevando os custos de importação e combustíveis. Essa desvalorização pressiona o orçamento das famílias e pode impactar a eficácia das políticas de atração de investimentos. A gestão de Asfura também tem buscado fortalecer laços regionais, como evidenciado pelo recente acordo de cooperação com a República Dominicana, focado em comércio, segurança e conectividade aérea, o que, segundo o Campo Grande NEWS checou, reforça a estratégia de aproximação com parceiros estratégicos.

O Retorno ao Palco Internacional de Arbitragem

O Centro Internacional para Resolução de Disputas sobre Investimentos (ICSID) é o órgão do Banco Mundial onde investidores estrangeiros podem processar Estados em caso de litígios. Honduras foi membro por 35 anos, mas a ex-presidente Xiomara Castro retirou o país em fevereiro de 2024, alegando parcialidade do sistema em favor das corporações. A saída se tornou efetiva em 25 de agosto do mesmo ano.

A reversão dessa decisão ocorreu nas primeiras semanas do governo Asfura. Ele assinou a convenção em Washington em 6 de março, a ratificação foi depositada em 17 de julho, e a adesão efetiva se deu em 16 de agosto. O presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, saudou a medida como um claro indicativo de que Honduras está aberta para negócios. Advogados e analistas ecoaram essa leitura, embora mais de 50 grupos da sociedade civil tenham interpretado o ato como um “sinal de submissão” ao capital estrangeiro, conforme reportado pelo Campo Grande NEWS.

A Sombra da Reclamação da Próspera

O retorno de Honduras ao ICSID não vem sem bagagem. Os investidores por trás da Próspera, uma cidade-charter localizada na ilha de Roatán, continuam a buscar reparação contra o Estado na corte de arbitragem. A reclamação, que inicialmente atingiu US$ 10,775 bilhões, quase 40% do PIB hondurenho, foi reduzida para US$ 1,63 bilhão em outubro passado. O caso já tramita há mais de três anos sem uma decisão final sobre o mérito.

A disputa teve início com a revogação das Zonas Especiais de Desenvolvimento Econômico (ZEDEs) pelo governo anterior. Para potenciais investidores, a forma como Honduras conduzirá este caso será um teste crucial para a credibilidade de sua nova filiação ao ICSID. A forma como o país lidará com esta pendência será observada de perto por investidores globais, conforme o Campo Grande NEWS checou.

Reforma Energética em Foco

O Congresso Nacional concentrará esforços na próxima semana na votação do projeto de lei energética enviado por Asfura em maio. A proposta visa reescrever 12 artigos da lei de 2013 do setor elétrico. O ponto central é a divisão da Empresa Nacional de Energía Eléctrica (ENEE) em três companhias estatais: uma para geração, outra para transmissão e uma terceira para distribuição, com a ENEE atuando como holding. Um operador independente gerenciará a rede e o mercado atacadista.

A justificativa para a reforma reside em sua necessidade financeira. A ENEE registra perdas anuais de aproximadamente US$ 600 milhões. No primeiro trimestre de 2026, o déficit foi de 4.049 milhões de lempiras (cerca de US$ 151 milhões), e Asfura estima perdas mensais entre 1.200 e 1.500 milhões de lempiras (US$ 45 a 56 milhões). O Departamento de Estado dos EUA manifestou apoio público à reforma em junho. Contudo, o partido de oposição Libre a classifica como “privatização por parcelas”, e o sindicato dos trabalhadores da ENEE exige garantias contratuais.

Pressão Cambial e Cooperação Regional

A conjuntura política seria menos tensa se as famílias hondurenhas não estivessem sob pressão econômica. O dólar ultrapassou a cotação de 27 lempiras pela primeira vez, um cenário agravado pela força global da moeda americana. Como Honduras importa grande parte de seus combustíveis e alimentos, a desvalorização do lempira se reflete diretamente nos preços ao consumidor. O governo tem implementado um subsídio temporário de combustível, com um custo semanal de cerca de 49 milhões de lempiras (aproximadamente US$ 1,8 milhão), para mitigar o impacto.

As remessas de hondurenhos no exterior, que somam cerca de US$ 7,7 bilhões anuais, funcionam como um amortecedor. Esse fluxo de capital sustenta as famílias de baixa renda em moeda local, mas com acesso a dólares, predominantes no meio rural. Em paralelo, Asfura tem cultivado alianças regionais. Ele se reuniu com o presidente dominicano, Luis Abinader, em Cali, na Colômbia, em 7 de agosto, onde acordaram uma nova fase de cooperação abrangendo comércio, segurança, conectividade aérea e coordenação na crise do Haiti. A República Dominicana é um destaque de crescimento regional, e essa aproximação se alinha à estratégia de fomento ao investimento estrangeiro, como o retorno ao ICSID, conforme apurou o Campo Grande NEWS.