Líbia vincula acesso a dólares ao imposto efetivamente pago
A Líbia implementou uma nova e rigorosa medida para o acesso à moeda estrangeira. A partir de agora, o montante que uma empresa pode obter anualmente para cartas de crédito e transferências internacionais será diretamente calculado com base nos impostos que ela efetivamente pagou nos últimos três anos. Essa fórmula visa combater empresas de fachada e incentivar a conformidade fiscal e a atividade econômica real no país. A decisão foi anunciada pelo Ministério da Economia e Comércio do Governo de Unidade Nacional, sediado em Trípoli, em 20 de agosto, e divulgada pela agência de notícias estatal LANA no mesmo dia.
O mecanismo, descrito como transitório, estabelece um teto anual para operações cambiais. Esse teto é definido como 30 vezes a média do imposto de renda geral pago pela empresa nos últimos três anos, somado a 10 vezes a média do imposto sobre a folha de pagamento no mesmo período. A intenção declarada é vincular o acesso à moeda estrangeira à atividade econômica genuína, à conformidade tributária e à contribuição para a produção e o emprego no país. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa iniciativa representa uma mudança significativa no controle de um dos recursos mais cobiçados da Líbia.
Essa nova política surge em um contexto de escassez de moeda forte na Líbia, onde a importação de bens é quase total e as exportações se limitam majoritariamente ao petróleo. As cartas de crédito são a principal porta de entrada para converter os dólares do petróleo em bens importados. Por isso, o controle sobre esse mecanismo tem sido um ponto central de disputa econômica na Líbia há uma década, determinando quais negócios podem operar. O acesso a essas cartas também tem sido historicamente uma fonte de renda (rent) para intermediários, que lucravam com a própria alocação, e não com os bens em si. A nova fórmula busca dificultar esse tipo de prática, tornando o acesso mais dependente de comprovação fiscal e de empregos gerados.
Quem se beneficia e quem perde com a nova regra
Os grandes beneficiados com a nova fórmula são as empresas importadoras de grande porte, formalizadas e com longo histórico de pagamento de impostos e um quadro de funcionários substancial. Para elas, os tetos de acesso à moeda estrangeira serão generosos e previsíveis. Por outro lado, as empresas comerciais com atividade declarada mínima tendem a perder. Uma companhia que pagou poucos impostos e emprega poucas pessoas terá, sob essa nova regra, um direito muito limitado de acesso a moeda estrangeira. O Campo Grande NEWS ressalta que um ponto cego evidente no design da regra é a falta de um caminho claro para novos entrantes legítimos que, por terem um histórico tributário recente e baixo, podem ter dificuldade em obter uma alocação significativa.
Para fornecedores estrangeiros, o efeito prático é uma alteração em quem poderá efetuar pagamentos. A diligência de contraparte na Líbia agora possui um indicador aritmético público que não existia anteriormente. A ausência de um número de decisão, decreto ou circular publicado para o mecanismo é notável, visto que outras ações recentes do ministério trazem essa numeração. A falta de uma data de início também chama a atenção, com o ministério descrevendo o arranjo como transitório, aguardando um sistema mais amplo de classificação de solvência financeira, cujos indicadores ainda não foram especificados.
Silêncio do Banco Central e tensões institucionais
Um detalhe importante é o silêncio público do Banco Central da Líbia, o órgão que efetivamente executa a alocação de moeda estrangeira. As relações entre o Ministério da Economia e o Banco Central têm sido tensas. Em janeiro, o então ministro da Economia chegou a afirmar que o envolvimento de seu ministério nas cartas de crédito lhe era “forçado” e reivindicou a autoridade sobre o orçamento de importação, pedindo ao banco central para não interferir na política comercial. O atual ministro é Suhail Abu Shiha, que assumiu após uma remodelação ministerial em março. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a ausência de comentários do Banco Central sobre o novo mecanismo não é um detalhe pequeno e pode indicar divergências internas.
A nova regra, anunciada pelo governo sediado em Trípoli, levanta questões sobre sua aplicação nas regiões controladas pela administração oriental da Líbia, dado que o país opera com duas administrações concorrentes desde 2014. Se a regra vincular apenas importadores em Trípoli e não em Benghazi, isso criaria uma oportunidade óbvia de arbitragem. O ano tem sido turbulento para a moeda líbia, com o Banco Central anunciando uma injeção de dois bilhões de dólares em julho para estabilizar o dinar e a renúncia de seu governador em 10 de agosto sem justificativas claras, enquanto o dólar era negociado a 9,30 LD no mercado negro. Nesse contexto, a fórmula parece ser uma tentativa de estabelecer autoridade sobre a própria alocação de moeda estrangeira, e não apenas um ajuste técnico.
Um sinal de fiscalização e controle
Na véspera do anúncio da nova fórmula, o mesmo ministério suspendeu 27 empresas ligadas a três beneficiários de uma mesma família, devido a irregularidades em cartas de crédito no valor de US$ 146,7 milhões. Essas duas ações conjuntas, a suspensão de empresas e a imposição da nova regra, sinalizam uma intenção clara de controle e fiscalização. Uma ação remove empresas nomeadas da janela de câmbio, enquanto a outra estabelece um critério para quem pode entrar. A questão em aberto é se ambas as medidas resistirão ao complexo cenário político líbio. Até 21 de agosto, nenhum órgão empresarial ou economista havia comentado publicamente sobre a fórmula, segundo informações divulgadas pelo g1.


