Aeroporto da Etiópia: Construtoras chinesas dominam licitação bilionária

Gigantes chinesas lideram disputa por aeroporto etíope de US$ 12,5 bilhões

A construção do novo aeroporto internacional de Bishoftu, na Etiópia, um projeto orçado em impressionantes US$ 12,5 bilhões apenas em sua primeira fase, está atraindo a atenção de grandes construtoras globais. No entanto, um olhar atento à lista de empresas pré-qualificadas revela uma forte presença chinesa, com empresas ligadas ao estado da China aparecendo em todos os quatro pacotes de obras disponíveis. A única empresa com sede nos Estados Unidos figura em consórcios liderados por companhias europeias, evidenciando um cenário de intensa competição e consolidação de poder no setor de infraestrutura africana.

A Ethiopian Airlines, responsável pelo ambicioso projeto, divulgou a lista de licitantes pré-qualificados para as quatro frentes de trabalho: instalações principais, instalações de apoio, área de pouso e infraestrutura, e ligações externas. A predominância chinesa é notável, com dez empreiteiras estatais chinesas listadas, incluindo nomes como CCECC e CRBC, que se qualificaram para todos os pacotes. Essa movimentação estratégica reforça a influência da China no desenvolvimento de infraestrutura em larga escala no continente africano.

A notícia, divulgada pelo Campo Grande NEWS, que checa informações de infraestrutura global, destaca que, embora a lista seja diversificada, com representações da Turquia, Itália, França, Catar, Coreia do Sul, Portugal, Índia e Rússia, a China se destaca pela sua abrangência em todos os segmentos do projeto. A única empresa americana pré-qualificada, a Lane Construction Corporation, aparece em três pacotes, mas sempre como membro júnior em joint ventures lideradas por empresas italianas e turcas, e não disputa o pacote principal de instalações. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa participação limitada da empresa americana levanta questões sobre a capacidade de empresas ocidentais competirem em projetos de tamanha magnitude e complexidade financeira.

A forte presença chinesa nos pacotes de obras

Dez entidades chinesas aparecem nas listas de pré-qualificação para o aeroporto de Bishoftu. Duas delas, a China Civil Engineering Construction Corporation (CCECC) e a China Road and Bridge Corporation (CRBC), estão habilitadas para todos os quatro pacotes. A CRBC é subsidiária da China Communications Construction Company, enquanto a CCECC pertence ao grupo rival China Railway Construction Corporation. Outras empresas chinesas como Beijing Construction Engineering Group, Beijing Urban Construction Group, China Railway Beijing Engineering Group e Shandong Luqiao também estão presentes, cobrindo todas as categorias de trabalho exigidas pelo projeto.

É importante notar que este documento é um aviso de pré-qualificação, o que significa que ele apenas decide quem pode apresentar uma proposta, não quem ganhará os contratos. A seleção final dos licitantes foi adiada para o início de janeiro de 2027, segundo o CEO da Ethiopian Airlines, Mesfin Tasew. A justificativa para o atraso é a necessidade de tempo para que os licitantes organizem o financiamento necessário, já que os pacotes são estruturados como engenharia, aquisição, construção e financiamento (EPCF), exigindo que os contratados tragam o capital, além da expertise técnica.

A posição da única empresa americana na disputa

A Lane Construction Corporation é a única empresa com domicílio nos Estados Unidos na lista de pré-qualificados. Ela aparece em três pacotes: instalações de apoio, área de pouso e infraestrutura, e ligações externas. Em todos os casos, a Lane figura como a terceira integrante de uma joint venture, ao lado da italiana Webuild e da turca ICTAS. A empresa não concorre no pacote de instalações principais e nunca aparece sozinha.

Há uma nuance importante: a Lane Construction Corporation é subsidiária integral da Webuild desde 2016. Isso significa que, embora seja uma operadora americana, ela faz parte de um grupo italiano, o que relativiza sua posição como uma licitante americana independente. O governo dos Estados Unidos tem buscado aumentar a participação americana em projetos de infraestrutura na Etiópia, com declarações de autoridades americanas indicando esforços para garantir maior envolvimento de empresas dos EUA, inclusive explorando a possibilidade de vincular a participação a pedidos de aeronaves da Ethiopian Airlines.

Outros players internacionais e a importância estratégica das ligações

A lista de pré-qualificados é genuinamente internacional, demonstrando um processo aberto. A Turquia está representada por ICTAS, Kalyon e MAPA, a Itália por Webuild e ICM, e a França por VINCI. O Catar aparece com Urbacon e GB-ACT, a Coreia do Sul com Samsung C&T, Portugal com Mota-Engil Africa, e a Índia com Afcons. A Rússia também está presente através da JSC Natprojectstroy Group, no pacote de ligações externas.

Um nome que merece atenção especial é a Ethio-Djibouti Railway, operadora estatal do corredor que liga a Etiópia, país sem litoral, ao mar. Ela está pré-qualificada para o pacote de ligações externas em joint venture com a CCECC. Isso coloca o principal corredor comercial do país e seu principal empreiteiro chinês dentro da mesma proposta. O aeroporto e o corredor estão sendo planejados como um sistema integrado, o que confere um peso estratégico significativo a este pacote de obras. Conforme o Campo Grande NEWS atesta, a integração de infraestruturas críticas é um fator chave para o desenvolvimento econômico de longo prazo.

O que a Etiópia está construindo e os desafios financeiros

O novo aeroporto está sendo construído em Abusera, na cidade de Bishoftu, a cerca de 40 km da capital Adis Abeba, a 1.910 metros acima do nível do mar. A primeira fase do projeto, projetada para atender 60 milhões de passageiros até 2030, com um plano mestre que prevê 110 milhões, tornaria o aeroporto o maior da África. Ele não substituirá o Aeroporto Internacional de Adis Abeba Bole, que atualmente lida com cerca de 12,1 milhões de passageiros anualmente, mas sim complementará a capacidade do hub dominante da Ethiopian Airlines na África.

O principal gargalo do projeto, segundo o CEO da Ethiopian Airlines, não é a engenharia, mas sim o financiamento. O African Development Bank (AfDB) está atuando como coordenador principal, com um compromisso de US$ 500 milhões de fundos próprios e a coordenação de até US$ 8 bilhões em dívidas. Essa estrutura de financiamento explica a composição da lista de pré-qualificados, onde empresas capazes de levantar somas tão vultosas em projetos ligados a um soberano são um grupo seleto, e as empreiteiras estatais chinesas se destacam pela sua capacidade financeira.

A leitura mais precisa deste cenário não é de um domínio chinês absoluto, mas sim da profundidade do pool de licitantes chineses, capaz de preencher todas as categorias de um projeto desta magnitude e estrutura. Empresas europeias, turcas, do Golfo e coreanas estão presentes e podem vencer pacotes, mas nenhuma delas aparece em todas as frentes de trabalho. A decisão final sobre os contratos está prevista para janeiro de 2027, e será nesse momento que o verdadeiro panorama da construção do aeroporto de Bishoftu será definido.