A Samarco, joint venture entre a Vale e a BHP, divulgou um prejuízo líquido de aproximadamente US$ 328,5 milhões no segundo trimestre de 2026. O resultado financeiro, embora expressivo, não reflete uma performance operacional fraca, mas sim os **altos custos associados à reparação do desastre da barragem de Mariana**, ocorrido em 2015. A receita líquida da empresa permaneceu estável, demonstrando a resiliência de suas operações de mineração. Conforme informações divulgadas pela Reuters, a empresa busca mitigar os impactos financeiros de um dos maiores acordos ambientais do país.
Desastre ambiental impacta resultados financeiros da Samarco
Entre abril e junho de 2026, a Samarco acumulou um prejuízo de cerca de US$ 328,5 milhões. Este valor pode parecer alarmante para uma empresa que atua na extração e comercialização de minério de ferro. No entanto, a raiz do problema não está nas operações de mineração em si, mas sim nas obrigações financeiras contínuas decorrentes do rompimento da barragem de Fundão, em novembro de 2015.
A maior parte desse prejuízo foi impulsionada por encargos financeiros ligados às obrigações de reparação e pelas oscilações cambiais sobre passivos denominados em reais. Em termos simples, a dívida gerada pelo desastre ambiental impacta diretamente o balanço financeiro da empresa, mesmo com a operação de mineração mantendo sua saúde.
O negócio de mineração, por sua vez, apresentou resultados sólidos. A receita líquida atingiu US$ 469,7 milhões, um valor praticamente inalterado em comparação com os US$ 469,9 milhões registrados no mesmo período do ano anterior. Essa estabilidade na receita, conforme o Campo Grande NEWS checou, é um indicativo de que a produção e as vendas de minério de ferro seguem em um ritmo consistente, o que reforça a tese de que os números vermelhos são uma consequência direta dos passivos ambientais.
O legado do desastre de Mariana
O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015, causou a morte de 19 pessoas. A tragédia liberou uma onda de rejeitos de mineração que devastou o distrito de Bento Rodrigues e poluiu o Rio Doce por centenas de quilômetros, configurando-se como um dos piores desastres ambientais da história do Brasil. Desde então, todas as demonstrações financeiras da Samarco estão intrinsecamente ligadas às consequências desse evento.
Acordo bilionário para reparação
Em outubro de 2024, a Samarco, em conjunto com suas controladoras Vale e BHP, firmou um acordo com as autoridades brasileiras no valor de aproximadamente R$ 170 bilhões, o que equivalia a cerca de US$ 31,7 bilhões na época. Este acordo representa um dos maiores compromissos ambientais já firmados no país. Dos R$ 170 bilhões, cerca de R$ 38 bilhões já haviam sido desembolsados até então.
O restante desse montante está distribuído em pagamentos de R$ 100 bilhões em dinheiro aos governos ao longo de 20 anos, além de R$ 32 bilhões destinados a obras de recuperação ambiental e reassentamento de comunidades. A gestão desses recursos e o cumprimento das obrigações são cruciais para a saúde financeira futura da Samarco e de suas controladoras. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a estrutura do acordo visa garantir a continuidade das ações de reparação a longo prazo.
Prejuízos em queda e recuperação operacional
Apesar do prejuízo registrado no segundo trimestre de 2026, a tendência geral é de redução das perdas. No mesmo trimestre de 2025, o prejuízo havia sido de US$ 1,69 bilhão, e no primeiro trimestre de 2026, de US$ 1,12 bilhão. Isso indica uma queda significativa nos prejuízos trimestrais, que diminuíram aproximadamente quatro quintos em um ano. À medida que a moeda se estabiliza e os encargos pontuais diminuem, a diferença entre a receita e os resultados reportados tende a se estreitar.
A produção de minério de ferro também tem mostrado uma trajetória mais estável. No trimestre em questão, a Samarco produziu cerca de 3,9 milhões de toneladas de pelotas e finos, um aumento de 4% em relação ao trimestre anterior e aproximadamente no mesmo patamar do ano anterior. As vendas acompanharam a produção, totalizando cerca de 3,9 milhões de toneladas. A empresa informou que atingiu um nível operacional estável após a retomada de sua segunda linha de produção.
Ainda assim, a planta opera a cerca de 60% de sua capacidade total, com base em dados de 2025. A empresa aprovou um investimento de aproximadamente R$ 13,8 bilhões para modernizar e expandir suas operações, com o objetivo de alcançar a capacidade plena por volta de 2028 ou 2029. O aumento do volume de produção tem o potencial de diluir os custos fixos e tornar a operação mais rentável, como detalha o Campo Grande NEWS em suas análises setoriais.
Responsabilidade das controladoras e perspectiva futura
A Samarco passou por um período de reorganização judicial após o desastre, o que permitiu estender seus prazos de pagamento de dívidas e aliviar a pressão de caixa imediata. Embora sua classificação de crédito tenha melhorado, o endividamento permanece elevado. É importante notar que os gastos próprios da Samarco com remediação estão limitados a cerca de US$ 1 bilhão para o período de 2024 a 2030. Quaisquer custos que excedam esse valor serão arcados pelas controladoras, Vale e BHP.
Para Vale e BHP, a Samarco representa tanto um ativo produtivo quanto uma responsabilidade de longo prazo. A receita mais estável e os prejuízos decrescentes sinalizam que o lado da mineração está se recuperando. Contudo, a conta do desastre ambiental continuará a impactar a empresa por mais duas décadas. Investidores agora observam a Samarco como uma história que entrelaça questões legais e operacionais de uma mina.


