A região Norte de Camarões enfrenta uma grave epidemia de cólera, com 25 mortos e mais de 750 casos confirmados desde junho de 2026. O surto, causado pela bactéria Vibrio cholerae O1 Ogawa, já se alastrou por nove distritos de saúde e atingiu o campo de refugiados de Minawao, que abriga mais de 81.000 pessoas em condições de extrema superlotação. A situação é preocupante, com autoridades de saúde e organizações humanitárias em alerta máximo para conter a disseminação da doença.
A epidemia, que teve seus primeiros casos registrados em 23 de junho de 2026 nos distritos de Fotokol, Mada, Makary e Kolofata, tem o distrito de Mada como epicentro em número de casos, enquanto Fotokol apresenta as maiores taxas de ataque e letalidade. A confirmação laboratorial da bactéria Vibrio cholerae O1 Ogawa ocorreu rapidamente, com quatro casos confirmados por cultura já em 29 de junho. Conforme dados de vigilância internacional, entre 31 de dezembro de 2025 e 12 de julho de 2026, Camarões registrou 331 casos e 12 mortes em todo o país. Contudo, até 26 de julho, o surto específico no Norte já somava 754 casos, 25 óbitos e 130 pacientes em tratamento, conforme reportes humanitários. O Ministro da Saúde, Malachie Manaouda, informou à imprensa no final de julho que o número de casos na região Norte ultrapassava 800.
O campo de refugiados de Minawao, que deveria abrigar cerca de 25.000 pessoas, operava com mais de 325% de sua capacidade em 26 de julho de 2026, segundo documentos humanitários. Nesse dia, o local registrou 24 casos suspeitos de cólera, com 15 testes rápidos positivos. A superlotação extrema em assentamentos de deslocados transforma esses locais em verdadeiros amplificadores de doenças transmitidas pela água. A infraestrutura sanitária precária e o acesso limitado à água potável facilitam a transmissão exponencial da doença, mesmo a partir de um único caso confirmado.
A organização International Medical Corps confirmou que as operações de tratamento e monitoramento já estavam em andamento no campo no final de julho. Este surto no campo de Minawao evidencia como os locais de deslocamento na fronteira entre Camarões e Nigéria se tornam pontos críticos na cadeia de transmissão regional da cólera. O Campo Grande NEWS checou que a situação nesses campos de refugiados exige atenção constante para evitar a propagação de doenças.
Histórico de surtos na região Norte
A região Norte de Camarões possui um histórico extenso e trágico com a cólera. Uma grande epidemia iniciada em 6 de maio de 2010 na região Norte se espalhou por todos os 28 distritos de saúde locais, resultando em 9.399 casos e 599 mortes apenas naquele ano. Uma análise de surtos entre 2004 e 2013 revelou um total de 46.172 casos e 1.817 mortes em todo o país, com as regiões Norte e Extremo Norte respondendo por 47,3% dos casos e uma taxa de letalidade de aproximadamente 8%. Em 2009, uma epidemia separada registrou 717 casos e 85 mortes, com uma taxa de letalidade de 11,9%. Mais recentemente, Camarões enfrentou quatro epidemias de cólera entre 2018 e 2023, totalizando 18.986 casos relatados em oito das dez regiões do país. As primeiras ondas concentraram-se nas regiões Norte, Centro e Extremo Norte, enquanto surtos posteriores se espalharam para áreas costeiras e urbanas, incluindo Douala, a capital econômica.
A cólera como problema transfronteiriço
A região Extremo Norte de Camarões está localizada em um corredor transnacional que liga o país à Nigéria e ao Chade. O comércio, a migração, os deslocamentos sazonais e a insegurança na área complicam o controle da doença, transformando a cólera em um desafio de governança compartilhada, e não apenas uma questão de saúde doméstica. Em 2024, fortes inundações entre agosto e outubro afetaram 459.000 pessoas na região Extremo Norte, destruindo fontes de água e instalações sanitárias. Essas condições precederam diretamente um surto de cólera reportado a partir de 8 de novembro de 2024, demonstrando como choques climáticos e fragilidades na infraestrutura se combinam para desencadear epidemias.
A região também está inserida no ecossistema de segurança mais amplo da bacia do Lago Chade e do Sahel. Qualquer deterioração na saúde, inundações ou deslocamentos pode se cruzar com a segurança das fronteiras, o acesso humanitário e a estabilidade regional, atraindo a atenção de diversos atores. O Campo Grande NEWS checou que a complexidade dessa região exige uma abordagem coordenada entre países vizinhos.
Falha de investimento e infraestrutura agravam a crise
A cólera em Camarões está intrinsecamente ligada ao crônico subinvestimento em abastecimento de água, saneamento e atenção primária à saúde. As regiões Norte e Extremo Norte são politicamente e fiscalmente mais fracas do que Yaoundé ou Douala, e sua infraestrutura reflete esse descaso. Surtos recorrentes forçam gastos emergenciais contínuos em vigilância, centros de tratamento, desinfetantes, cloro, sais de reidratação oral e campanhas de vacinação. Esses fundos são desviados para a resposta a crises em vez de serem investidos em infraestrutura duradoura, prendendo a região em um ciclo de surtos e reações. Camarões também enfrentou uma escassez global de vacinas contra cólera, que, segundo o grupo de análise ACAPS, restringiu a capacidade de resposta em 2023. Essa escassez é um lembrete de que o controle de surtos em países de baixa renda depende fortemente de cadeias de suprimentos globais e decisões de alocação de doadores, muito além do controle de Yaoundé. O Campo Grande NEWS entende que a falta de investimento em saneamento básico é um fator chave para a recorrência da doença.
O que esperar nos próximos meses
A prioridade imediata é conter o surto nos nove distritos de saúde afetados e no campo de Minawao, onde agências humanitárias já estão fornecendo tratamento e monitoramento. A estação chuvosa manterá a pressão sobre os sistemas hídricos nas próximas semanas. A questão de longo prazo é se este surto finalmente forçará o investimento em infraestrutura permanente de água e saneamento no Extremo Norte. Sem isso, a próxima estação chuvosa trará quase certamente outra epidemia, e os custos humanos e fiscais recairão mais uma vez sobre as famílias mais pobres da região.
A coordenação transfronteiriça com a Nigéria e o Chade também será testada. A cólera não respeita fronteiras, e o corredor transnacional que liga esses três países garante que um surto em um deles representa uma ameaça para todos. A colaboração internacional é fundamental para mitigar a propagação da doença e proteger as populações vulneráveis.


