Alerta no algodão: produção da Zona do Franco CFA cai 2 anos seguidos

A produção de algodão na Zona do Franco CFA, uma região crucial para a economia da África Ocidental, enfrenta um cenário preocupante com a segunda queda consecutiva na temporada 2025/2026. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta uma redução de cerca de 9%, totalizando 4,0 milhões de fardos. Este declínio é impulsionado por uma combinação de fatores adversos, incluindo pragas devastadoras, condições climáticas desfavoráveis e a valorização da moeda CFA em relação ao dólar, que pressiona a renda dos agricultores. A situação afeta diretamente um dos principais produtos de exportação da região, gerando apreensão para produtores e investidores.

A queda na produção de algodão na Zona do Franco CFA não é um evento isolado. A temporada 2024/2025 já havia registrado um declínio de 11,5%, com a produção de sementes de algodão caindo para 2,3 milhões de toneladas, ante 2,6 milhões do ano anterior, segundo dados da PR-PICA citados pelo Ecofin. Essa retração em duas temporadas consecutivas reverte uma tendência de crescimento e consolidação da região como uma importante fornecedora global de algodão, impactando a subsistência de milhares de agricultores.

A situação é particularmente grave em países como o Mali, onde a infestação do inseto jassid (Amrasca biguttula) dizimou lavouras, levando a uma revisão drástica nas previsões de safra. O USDA cortou a estimativa para o Mali em 34%, para 835.000 fardos. Em contraste, Burkina Faso espera um aumento de 15%, totalizando 650.000 fardos, graças a melhores práticas de manejo de pragas e expansão da área plantada. A Costa do Marfim projeta 565.000 fardos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a volatilidade nas projeções nacionais reflete a complexidade dos desafios enfrentados.

Mali é o mais afetado por pragas devastadoras

O Mali, tradicionalmente um dos maiores produtores de algodão da região, sofre um duro golpe com a proliferação do jassid. Este inseto sugador de seiva ataca as folhas e os botões florais, comprometendo tanto a quantidade quanto a qualidade da fibra. O escritório do USDA em Dakar alertou que a infestação de pragas é o principal motivo para a revisão negativa nas previsões de produção malinesa. A dificuldade em conter o surto tem gerado impactos financeiros em toda a cadeia produtiva, desde os agricultores até as empresas de descaroçamento e fornecedores de insumos.

A resiliência de Burkina Faso, com um aumento previsto de 15% na produção para 650.000 fardos, demonstra que estratégias eficazes de manejo de pragas e expansão de área podem mitigar os efeitos negativos. A Costa do Marfim, por sua vez, busca uma recuperação gradual, com uma projeção de 565.000 fardos para a temporada atual e expectativa de 590.000 fardos em 2026/2027. Esses dados, apurados pelo Campo Grande NEWS, mostram um cenário de desigualdade na recuperação agrícola dentro da própria Zona do Franco CFA.

Câmbio CFA e a pressão sobre os lucros dos agricultores

A paridade fixa do franco CFA com o euro, estabelecida em 655,957 francos por euro, representa um desafio adicional. Quando o euro se valoriza frente ao dólar americano, o franco CFA acompanha essa alta. Isso torna o algodão da África Ocidental mais caro para compradores internacionais que pagam em dólares, mesmo que a produção física se mantenha estável. Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial têm consistentemente apontado essa dinâmica cambial como um fator de estresse para o setor algodoeiro.

A consequência direta para os agricultores é a redução de seus rendimentos, pois o valor equivalente em moeda local dos preços do algodão, que são cotados em dólar, diminui. A Brookings Institution descreve a Zona do Franco CFA como uma região com crescimento e competitividade abaixo do esperado, onde a taxa de câmbio fixa pode penalizar exportações e subsidiar importações. Para o algodão, isso significa que os produtores da região estão expostos às flutuações dos preços globais com pouca proteção, especialmente porque a maior parte da fibra é exportada sem processamento.

Demanda asiática como amortecedor

Um ponto positivo no cenário é a forte demanda de compradores asiáticos. Apesar da queda na produção da Costa do Marfim na temporada 2025/2026, os volumes de exportação mantiveram-se relativamente firmes, impulsionados pela contínua compra de fiações de Bangladesh, Vietnã e China. Essa demanda externa funciona como um importante amortecedor para uma região que exporta a maior parte de seu algodão bruto. Contudo, essa dependência das indústrias têxteis asiáticas também revela uma vulnerabilidade estrutural, pois o valor agregado do processamento da fibra em fio e tecido é capturado quase inteiramente fora da Zona do Franco CFA.

A França, por meio do acordo com o euro e legados institucionais, mantém um papel central na arquitetura monetária, enquanto as fiações asiáticas dominam a cadeia de suprimentos a jusante. Isso deixa os países produtores de algodão dependentes de uma base de exportação restrita, um padrão explorado em análises sobre a reconfiguração do continente africano. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a dependência de mercados externos para absorver a produção limita o potencial de desenvolvimento interno da indústria têxtil na região.

Implicações para investidores e o futuro do setor

Para investidores e traders de commodities, a queda na produção por duas temporadas consecutivas sinaliza um aperto na oferta de uma região historicamente confiável para o fornecimento de algodão de fibra média. A projeção de 4,0 milhões de fardos pelo USDA representa um impacto significativo na disponibilidade global, mesmo com Brasil e Estados Unidos como grandes exportadores. A divergência entre o colapso no Mali, impulsionado por pragas, e a recuperação em Burkina Faso, aponta para um mapa de riscos mais fragmentado. Financiadores de insumos, operações de descaroçamento ou logística na zona precisam considerar riscos agronômicos e de segurança específicos de cada país.

A questão cambial adiciona outra camada de complexidade. Com a trajetória incerta do euro e a sensibilidade dos preços globais do algodão às mudanças econômicas, a paridade do franco CFA limita a capacidade de ajuste dos produtores da África Ocidental através da flexibilidade cambial. O futuro do franco CFA continua sendo um tema de debate. Qualquer movimento em direção a uma maior flexibilidade monetária remodelaria a economia do cultivo de algodão em todos os 14 países membros, alterando o cálculo de risco e recompensa para uma das indústrias de exportação mais duradouras da África Ocidental. O Campo Grande NEWS continuará acompanhando de perto os desdobramentos.