A Nigéria dá um passo significativo em direção à monetização de suas vastas reservas de gás natural com o avanço do seu primeiro projeto de GNL flutuante. A UTM Offshore anunciou um acordo crucial de 15 anos com a NNPC e a Seplat Energy para o fornecimento de 200 milhões de pés cúbicos de gás por dia, matéria-prima essencial para a planta de GNL. Este contrato é um marco para a decisão final de investimento no projeto, previsto para o quarto trimestre de 2026, com as primeiras exportações de GNL planejadas para 2030. A informação foi divulgada em comunicado oficial, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
Gás garantido para inédito projeto de GNL flutuante
O acordo de compra e venda de gás bruto foi formalizado durante a Nigeria Oil and Gas Energy Week, em Abuja. A parceria entre a NNPC, estatal nigeriana de petróleo, e a Seplat Energy Producing Nigeria Unlimited garantirá o fornecimento contínuo de gás, retirado do campo de Yoho, localizado na licença de exploração de petróleo 104, na costa do estado de Akwa Ibom. Este fornecimento é o pilar para a operação da planta flutuante, que liquefará o gás para exportação.
A tecnologia de GNL flutuante é estratégica, pois permite que o gás natural, resfriado a menos 162 graus Celsius, reduza seu volume em aproximadamente seiscentas vezes, facilitando o transporte marítimo para qualquer porto com terminal de regaseificação. Essa flexibilidade consolidou o GNL como um combustível de grande importância no mercado global de energia. Conforme relatórios da Energy Intelligence, espera-se que a planta processe cerca de 176 milhões de pés cúbicos de gás por dia, volume ligeiramente inferior ao contratado devido ao consumo interno do próprio processo de liquefação.
Por que a opção flutuante é vantajosa para a Nigéria
A escolha por uma planta de GNL flutuante, construída sobre o casco de um navio e ancorada diretamente sobre os campos de gás offshore, elimina a necessidade de extensas obras em terra, aquisição de terras e a construção de gasodutos. Estes fatores frequentemente causam atrasos significativos em projetos de gás na África, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS. Para a Nigéria, que detém as maiores reservas de gás natural do continente africano, este modelo representa uma oportunidade valiosa para monetizar o gás offshore que, de outra forma, seria queimado (flaring) ou simplesmente deixado no subsolo.
O país já conta com o complexo NLNG, na Ilha de Bonny, um dos maiores exportadores de GNL do continente, mas que foi construído há uma geração. A nova planta flutuante adicionará capacidade e flexibilidade à estratégia energética nigeriana. O sucesso de projetos similares, como o Coral South da Eni em Moçambique, que opera desde 2022, serve como prova de conceito para a viabilidade desta tecnologia em águas africanas.
Estrutura do projeto e financiamento inovador
A UTM Offshore, liderada pelo empresário nigeriano Julius Rone, detém 72% do projeto. A NNPC possui 20% e o governo do estado de Delta detém os 8% restantes. Um dos pontos cruciais para o avanço do projeto foi a garantia de financiamento, com a Afreximbank, banco de comércio com sede no Cairo, comprometendo-se com o financiamento da dívida. Essa instituição tem se tornado uma referência para projetos de energia no continente, especialmente em um cenário onde bancos ocidentais mostram-se mais cautelosos.
O investimento total estimado para o projeto é de aproximadamente 3 bilhões de dólares. A capacidade de produção anual de GNL da planta está projetada em 1,8 milhão de toneladas. Julius Rone tem trabalhado arduamente na viabilização deste empreendimento, superando ceticismos sobre a capacidade de uma empresa nigeriana independente em entregar um projeto de GNL. O compromisso da Afreximbank, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS, foi um passo fundamental para responder à pergunta mais desafiadora: quem financiaria o projeto.
O caminho para a decisão de investimento e as perspectivas futuras
Com o fornecimento de gás garantido, a UTM Offshore mira uma decisão final de investimento (FID) no quarto trimestre de 2026. As primeiras exportações de GNL estão previstas para 2030. Este contrato de 15 anos de fornecimento de gás é considerado a pedra angular financeira do projeto, pois garante a segurança do suprimento de longo prazo, um requisito essencial para credores que investem bilhões em plantas de liquefação.
A iniciativa alinha-se com a política governamental da Nigéria, que declarou a “Década do Gás”, promovendo a comercialização das reservas como uma ponte entre a dependência do petróleo e a transição para energias renováveis. A crescente demanda global por GNL, impulsionada pela busca por fontes de energia não russas na Europa e Ásia, torna a participação africana no fornecimento mundial ainda mais relevante, apesar de suas vastas reservas. Um projeto de exportação nigeriano, liderado por capital local e financiado por um banco africano, representa um marco no financiamento autônomo da indústria energética do continente.
Além dos benefícios econômicos, o projeto de GNL flutuante traz um dividendo ambiental. A queima de gás em campos offshore tem sido uma prática comum na Nigéria por décadas, gerando emissões significativas. Projetos que transformam moléculas de gás em receita de exportação atacam o desperdício e a poluição simultaneamente. Leitores da América Latina podem reconhecer um cenário similar na Argentina, onde projetos de GNL flutuante estão convertendo o gás de xisto de Vaca Muerta em exportações marítimas, demonstrando uma convergência tecnológica em ambas as margens do Atlântico Sul.


