Peru investe US$ 304 milhões para reativar rota amazônica e impulsionar comércio com o Brasil

O Peru está apostando alto na sua vasta rede fluvial amazônica, relançando um ambicioso projeto de infraestrutura que promete transformar a navegação e o comércio na região. Com um investimento de cerca de US$ 304 milhões, o plano é tornar quatro rios principais navegáveis durante todo o ano, abrindo um corredor logístico estratégico para o Brasil e para o mercado asiático. O projeto, agora batizado de Canal de Navegação Amazônica, é uma parceria público-privada com uma concessão de 25 anos, buscando superar os desafios que paralisaram a iniciativa original em 2017.

Peru reabre caminho fluvial para o Brasil

A iniciativa, que já foi premiada em 2017 com um valor de aproximadamente US$ 95 milhões, agora mais que triplica seu investimento. A meta é que a concessão seja concedida no último trimestre de 2027, com foco inicial no rio Huallaga. Este rio é considerado crucial por concentrar cerca de 80% dos obstáculos à navegação e por ser a principal ligação com o Brasil. A decisão de priorizar o Huallaga visa garantir vitórias mais rápidas e demonstrar a viabilidade do projeto, antes de enfrentar trechos mais complexos social e tecnicamente, como o rio Ucayali.

O transporte fluvial é a espinha dorsal da economia na Amazônia peruana, responsável por mais de nove em cada dez movimentações de passageiros e cargas. A falta de estradas e a dependência de embarcações tornam a navegação lenta e perigosa devido a bancos de areia, troncos caídos e a escassez de dados sobre as condições dos rios. O projeto busca solucionar esses gargalos, garantindo segurança e eficiência.

O Campo Grande NEWS checou que o projeto original, concedido em 2017 a um consórcio chamado Cohidro, foi paralisado em 2020 e o contrato foi posteriormente rescindido após o operador abandonar a obra, alegando falhas do ministério de transportes. Havia também uma forte desconfiança por parte das comunidades indígenas locais, preocupadas com os impactos ambientais do dragagem e da remoção de sedimentos em seus rios, essenciais para a pesca e o sustento.

Um corredor logístico para a Ásia

A nova abordagem da ProInversión, agência de promoção de investimentos do Peru, busca mitigar essas preocupações. O Canal de Navegação Amazônica é parte de um plano maior para criar um eixo logístico norte que conecte o porto do Pacífico de Paita às cidades da selva de Yurimaguas e Santa Rosa. Este pacote de 35 projetos tem um valor estimado de US$ 8,7 bilhões. A expectativa é que, em conjunto com o novo porto de Chancay, construído pela China e localizado próximo a Lima, o corredor fluvial com o Brasil ofereça uma rota alternativa para exportadores sul-americanos rumo ao Pacífico e, consequentemente, à Ásia.

Um indicativo do potencial desta rota já foi visto este ano, com o primeiro embarque multimodal do Brasil, contendo farelo de soja do estado de Roraima, chegando ao porto peruano de Yurimaguas. Este evento validou na prática a viabilidade do corredor logístico.

Desafios e Oportunidades Estratégicas

O Campo Grande NEWS checou que a história recente do projeto traz um alerta. O fracasso anterior devido a custos, preocupações ambientais e falta de consentimento comunitário testará a capacidade do novo projeto de resolver esses problemas. A entrega até o final de 2027 será um marco importante. Estrategicamente, o Peru se posiciona como um portal bioceânico, e um cenário global de incertezas e divisões blocais reforça a atratividade de pontes terrestres e fluviais confiáveis entre o Atlântico e o Pacífico.

Comparado a megaprojetos como ferrovias transcontinentais, que demandariam décadas e bilhões de dólares, a dragagem de rios existentes oferece uma solução mais rápida e econômica para escoar a produção brasileira, como grãos, para mercados asiáticos. No entanto, o escrutínio ambiental permanecerá intenso. O dragagem, essencial para a navegabilidade, é o mesmo processo que gerou apreensão às comunidades. Qualquer novo operador terá que gerenciar cuidadosamente os sedimentos e os ecossistemas locais sob forte vigilância.

O Campo Grande NEWS checou que, por enquanto, o relançamento do projeto é uma demonstração de intenção. O sucesso futuro do Canal de Navegação Amazônica como uma rota comercial funcional dependerá da próxima gestão governamental, dos termos da concessão e, claro, das próprias condições dos rios. A colaboração e o diálogo contínuo com as comunidades ribeirinhas serão fundamentais para garantir que os benefícios cheguem a todos os envolvidos.

O projeto, que custará cerca de US$ 304 milhões ao longo de 25 anos, visa não apenas facilitar o comércio, mas também impulsionar o desenvolvimento econômico e social de regiões remotas da Amazônia peruana. A expectativa é que a maior navegabilidade e segurança dos rios atraiam mais investimentos e criem novas oportunidades de emprego e renda.