A Venezuela, um país com aproximadamente 28 milhões de habitantes, enfrenta uma crise de liquidez sem precedentes, onde a quantidade de dinheiro físico em circulação é tão escassa que mal cobre o custo de um café por habitante. Estimativas apontam para um valor de apenas US$ 3 a US$ 5 por pessoa em notas de bolívar, contrastando drasticamente com países vizinhos como Brasil e México, que possuem centenas ou milhares de dólares em espécie por cidadão. Essa situação levanta sérias preocupações sobre a funcionalidade da economia e a confiança na moeda nacional.
Venezuela: o que acontece quando o dinheiro some?
A escassez de dinheiro físico na Venezuela é tão drástica que a quantidade total de bolívares em notas e moedas é estimada entre US$ 70 milhões e US$ 136 milhões. Essa quantia, dividida pela população, resulta em um valor irrisório por habitante, tornando o papel-moeda praticamente obsoleto para transações cotidianas. Em contrapartida, a economia venezuelana tem se apoiado fortemente no dólar americano físico, com cerca de US$ 5 bilhões em circulação, e, em algumas regiões de fronteira, o peso colombiano também desempenha um papel. Essa dolarização informal, embora ofereça uma alternativa, evidencia a profunda desvalorização e falta de confiança no bolívar.
O cenário é agravado pela predominância de transações digitais. O sistema de transferências por celular, conhecido como “pago móvil”, criado em 2017 justamente para suprir a falta de dinheiro físico, tornou-se o principal meio de pagamento eletrônico, respondendo por 63% das transações no primeiro semestre de 2026. Apesar de sua utilidade, o sistema não é isento de custos e recentemente sofreu um aumento significativo nas taxas mínimas, tornando-se um fardo maior para a população de baixa renda. Conforme informado pelo El Nacional, um aumento de 600% na taxa mínima do pago móvil, de 2 para 14 bolívares, representa uma carga desproporcional para os mais pobres, que recebem o salário mínimo de 130 bolívares mensais.
A dependência de sistemas digitais, no entanto, expõe a Venezuela a outro risco crítico: a instabilidade da rede elétrica. Blackouts frequentes e racionamento de energia comprometem o funcionamento de terminais de cartão, aplicativos bancários e do próprio pago móvil, paralisando o comércio em diversas regiões por horas a fio. Essa combinação de ausência de dinheiro físico e uma rede elétrica precária configura uma emergência silenciosa, que vai além das manchetes sobre a desvalorização cambial.
A Teoria das Notas Guardadas e Suas Dúvidas
Uma teoria que circulou recentemente, disseminada por um memorando da MIGP Capital Corporation, sugeria que o Banco Central da Venezuela (BCV) possuiria cerca de 750 milhões de notas de bolívar impressas entre 2016 e 2018, que poderiam ser reintroduzidas na economia. Essas notas, de alta denominação e pertencentes a antigas famílias de bolívares, teriam custado aproximadamente US$ 53 milhões. No entanto, o próprio memorando, publicado por uma empresa com interesse comercial no mercado de câmbio venezuelano, aponta para a necessidade de uma decisão afirmativa do BCV para reativar essas notas, algo sem precedentes internacionais recentes.
A verificação independente dessas informações é desafiadora. A empresa de segurança De La Rue, por exemplo, registrou em 2019 uma dívida não paga de £18,1 milhões (cerca de US$ 23 milhões) com o BCV, citando dificuldades de transferência de fundos devido a sanções. A questão de se os fornecedores foram pagos integralmente permanece incerta, e o inventário das notas nos cofres do BCV baseia-se em documentos não públicos, tornando a alegação um tanto quanto especulativa, conforme apurado pelo The Rio Times. Além disso, as antigas famílias de notas foram formalmente desmonetizadas em 2018 e 2024, exigindo uma decisão formal do conselho do BCV para sua reintrodução, um processo legal complexo.
Por que a Reemissão das Notas é Duvidosa
Mesmo que as notas estejam disponíveis e o conselho do BCV esteja disposto, há fortes razões para duvidar da eficácia dessa medida. A primeira é a **confiança**. O povo venezuelano não poupa em bolívares; as poucas economias em moeda nacional são vistas como temporárias e rapidamente convertidas ao dólar. A injeção de centenas de milhões de notas antigas seria interpretada como uma tentativa do governo de imprimir dinheiro para resolver seus problemas, algo que já ocorreu no passado e gerou desconfiança. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação econômica atual exige medidas que restaurem a credibilidade, e não que a minem ainda mais.
O segundo ponto é a **segurança das próprias notas**. Designs impressos há uma década podem ter sido estudados por falsificadores, e a detecção de cédulas falsas no varejo venezuelano depende mais da percepção visual do comerciante do que de máquinas de verificação. A terceira objeção é o **timing**. Com um novo presidente no BCV, a restauração das relações com o FMI e o Banco Mundial, e a preparação para uma reestruturação da dívida, a reemissão de notas associadas a períodos de hiperinflação seria uma estratégia pouco condizente com a busca por estabilidade e credibilidade internacional. Pesquisadores da UCAB em Caracas observam que a escassez de dinheiro é uma decisão de oferta do banco central, não um mero acidente.
Um Previsão Que Não Se Concretizou
O memorando da MIGP Capital Corporation ousou prever uma data específica para a reemissão das notas, sugerindo que ocorreria em torno de 22 de julho ou início de agosto de 2026. A previsão falhou, pois nenhuma comunicação oficial nesse sentido foi feita, e o câmbio oficial continuou sua trajetória de desvalorização. O bolívar perdeu mais de 60% de seu valor no último ano, e a inflação atingiu 175,5% até julho. Essa previsão falha, publicada por uma entidade com interesse no mercado de câmbio, levanta questões sobre a motivação por trás de tais especulações. Conforme o Campo Grande NEWS checou, é fundamental analisar tais previsões com ceticismo, especialmente quando vêm de partes com interesses financeiros diretos.
A realidade atual é que a Venezuela opera com uma quantidade mínima de dinheiro físico em sua própria moeda. A economia se adaptou, utilizando aplicativos de pagamento, notas de dólar e moedas estrangeiras. Para quem tem negócios, funcionários ou familiares no país, as implicações são claras: os preços são definidos em dólares, as remessas são feitas por transferência, e a interrupção do fornecimento de energia pode paralisar completamente as transações. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a situação exige uma compreensão profunda das dinâmicas econômicas e tecnológicas que moldam o dia a dia dos venezuelanos.


