Venezuela busca erradicar fome e critica sanções dos EUA em fórum da ONU
Em um palco internacional, a Venezuela lançou um ambicioso plano para combater a fome, o Venezuela Alimenta, apresentando a iniciativa na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma. A vice-presidente, Delcy Rodríguez, foi a porta-voz do governo venezuelano, destacando o objetivo de alcançar a ‘Hambre Cero’, ou fome zero, no país. Ao mesmo tempo, Rodríguez direcionou críticas contundentes aos Estados Unidos, atribuindo às sanções impostas por Washington uma significativa queda na produção de alimentos.
A apresentação ocorreu durante o Fórum Mundial de Alimentação da FAO, um evento de relevância global focado em soluções para a segurança alimentar. A iniciativa venezuelana visa, segundo o Ministério das Relações Exteriores do país, integrar todas as etapas da cadeia produtiva de alimentos, desde a lavoura até a distribuição social, buscando otimizar recursos e garantir o acesso dos cidadãos aos alimentos.
A fala de Rodríguez em solo europeu ganha destaque em um momento delicado para as relações entre Caracas e Washington. Os Estados Unidos apoiam negociações entre o governo venezuelano e a oposição, que têm o objetivo de encontrar um caminho para a estabilidade política e econômica do país. As declarações da vice-presidente, portanto, adicionam uma camada de complexidade a essas discussões, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.
O plano Venezuela Alimenta e suas metas
O plano Venezuela Alimenta propõe, conforme divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores da Venezuela, conectar a produção nacional de alimentos com redes de distribuição social. A meta declarada é a erradicação da fome no país sul-americano. Delcy Rodríguez enfatizou que a iniciativa buscará ‘engrenar todos os processos produtivos de alimentos’, promovendo três prioridades: o fortalecimento de modelos de produção, a unidade nacional e a elevação do perfil internacional do país.
Um projeto de lei sobre a economia local também está em pauta e deve ser encaminhado à Assembleia Nacional em breve. O objetivo desta legislação é criar uma ponte entre produtores comunitários e grandes empresas agroindustriais, visando estimular o mercado interno e a produção nacional. No entanto, o que chama a atenção é a falta de detalhes concretos sobre o plano.
Nem o orçamento previsto, nem o cronograma de implementação, tampouco as fontes de financiamento para o Venezuela Alimenta foram divulgados até o momento. Essa ausência de informações detalhadas levanta questões sobre a viabilidade e o alcance prático da iniciativa, como observado por analistas consultados pelo Campo Grande NEWS.
Sanções dos EUA como bode expiatório, segundo Rodríguez
A vice-presidente venezuelana atribuiu às sanções impostas pelos Estados Unidos, que ela descreveu como ‘mais de 1.000 medidas coercitivas unilaterais’, a responsabilidade por uma queda de 16% na produção agroalimentar do país. Segundo Rodríguez, essas medidas teriam dificultado o acesso a créditos e a importação de insumos essenciais, como sementes e maquinário, prejudicando toda a cadeia produtiva.
Ela também mencionou que o diálogo político nacional e as conversas diplomáticas com os Estados Unidos têm contribuído para mitigar a crise de abastecimento. Rodríguez ressaltou que alimentos não deveriam ser utilizados como ferramenta de pressão política, defendendo a cooperação internacional para garantir a segurança alimentar. A declaração, no entanto, contrasta com as negociações em curso, conforme relatado pelo El Nacional.
Para ilustrar o impacto positivo, Rodríguez citou dados da FAO, indicando uma queda na subnutrição de 5,3% em 2025 para 3% no ano corrente. Estes números, apresentados por ela, sugerem que aproximadamente um em cada 33 venezuelanos ainda estaria em situação de subnutrição. É importante notar que esses dados foram apresentados em seu discurso e não foram, até o momento, verificados independentemente contra o relatório oficial da FAO, como apontado pelo Campo Grande NEWS.
O impacto das declarações e o cenário político
A estratégia da Venezuela de culpar as sanções americanas publicamente enquanto negocia com os EUA sob seu patrocínio envia uma mensagem dupla. Essa postura pode influenciar como o Congresso e o Departamento de Estado americano avaliarão qualquer futuro alívio nas sanções. O Secretário de Estado, Marco Rubio, manifestou apoio às negociações após um encontro com a negociadora da oposição, Dinorah Figuera, reforçando o interesse americano no processo.
Para investidores e exportadores de alimentos dos EUA, a ênfase na produção local por parte da Venezuela pode, a longo prazo, significar menos oportunidades de importação. Atualmente, contudo, não há anúncios de novas tarifas, cotas ou regras de importação associadas ao plano Venezuela Alimenta.
O que ainda permanece em aberto são os detalhes do plano e sua implementação. A ausência de um orçamento definido, cronograma e fontes de financiamento, em meio a sanções que ainda persistem, gera incerteza. A Venezuela se encontra em uma posição delicada, buscando apoio internacional enquanto lida com desafios econômicos internos significativos, onde a produção de alimentos é um dos pontos mais críticos.
O que esperar nos próximos passos
O próximo passo concreto para o plano Venezuela Alimenta será a apresentação do projeto de lei sobre a economia local à Assembleia Nacional, algo que o governo promete para os próximos dias. Paralelamente, as conversas entre o governo e a oposição, mediadas em parte pelos Estados Unidos, serão retomadas em breve. Estes eventos podem trazer mais clareza sobre as intenções e capacidades do governo venezuelano em lidar com a crise alimentar.
Em Roma, Delcy Rodríguez também aproveitou a oportunidade para se reunir com líderes de outros países, como o presidente de Angola, João Lourenço, e o presidente da República Dominicana, Luis Abinader, segundo o Ministério das Relações Exteriores. Essas interações internacionais podem ser parte de uma estratégia para buscar apoio e parcerias para o plano econômico e social da Venezuela. A iniciativa apresentada na ONU, contudo, não altera, por si só, as sanções impostas pelos Estados Unidos.


