A recente venda das empresas que compõem o Consórcio Guaicurus ao grupo HP Mobilidade, anunciada pela Prefeitura de Campo Grande, trouxe à tona um mar de lembranças para muitos campo-grandenses. A notícia despertou a nostalgia de um tempo em que o transporte coletivo da cidade era marcado pela identidade visual e pela presença de diferentes companhias, cada uma com suas particularidades e um papel fundamental na vida de milhares de pessoas.
Antes da formação do Consórcio Guaicurus em 2012, operadoras como a Viação São Francisco, Cidade Morena e Jaguar eram as responsáveis por conduzir a população campo-grandense. Essas empresas não apenas transportavam passageiros, mas também ajudaram a tecer a história de muitas famílias, criando laços afetivos que perduram até hoje. A implantação do Sistema Integrado de Transporte (SIT) em 1991 é lembrada como um marco importante nesse percurso.
Moradores mais antigos da Capital guardam com carinho as memórias dos antigos passes de papel para estudantes e as distintas cores e logotipos que identificavam cada linha e empresa. Essas recordações são um testemunho vivo de como o transporte público moldou o cotidiano e a memória coletiva de Campo Grande ao longo das décadas.
A história de Lucas Matheus Mariano, professor de Educação Física, ilustra essa profunda conexão geracional com o transporte coletivo. Sua família tem uma longa trajetória ligada ao setor: seu pai foi motorista entre 1987 e 1990, dois tios também atuaram na área, e seu sogro completa, em agosto, 40 anos de profissão. Lucas ingressou na Viação São Francisco em 2006 e permaneceu no sistema até 2024, passando por diversas funções, de cobrador a motorista, concilhando o trabalho com a formação acadêmica.
“Minha paixão não era o ônibus em si. Era a Viação São Francisco. Eu amava aquele lugar pelas pessoas”, relata Lucas, destacando a identidade própria da empresa e a visão de seu fundador, Ramão Delmondes, que investia em veículos diferenciados. Ele vivenciou a transição do modelo antigo para o atual, encerrando sua jornada no setor após a empresa ser absorvida pela Viação Campo Grande.
As lembranças de Lucas também se materializam em fotografias. Uma imagem de 1988, onde ele e a irmã aparecem ao lado do pai em frente ao ônibus que ele dirigia, foi refeita em 2021, transformando-se em um poderoso retrato da passagem do tempo e da continuidade familiar no transporte público.
Memórias de Família e Passeios Mágicos
Para Luciana de Souza Pereira, agente de conservação e asseio, as lembranças do transporte coletivo estão intrinsecamente ligadas à sua família. Seu pai, Otaciano Modesto Pereira, foi motorista de ônibus antes mesmo de ela nascer. Apesar de não ter fotos daquela época, as histórias contadas por ele preenchiam sua imaginação.
Ela recorda com afeto os passeios de sua família do bairro São Conrado para visitar os avós no Conjunto José Abrão, utilizando a antiga rodoviária de Campo Grande como ponto de transbordo. “Enquanto esperávamos o ônibus, passeávamos pelas lojas, comíamos salgados. Para mim era mágico”, confessa, emocionada ao reviver esses momentos.
A Evolução do Transporte e a Saudade de um Tempo
José Carlos dos Santos, corretor de imóveis de 56 anos, compartilha uma forte ligação afetiva com os antigos ônibus. Ele utilizava o transporte diariamente desde os 12 anos para ir à escola. Naquela época, sem o SIT, quem precisava trocar de ônibus no Centro pagava uma nova passagem, e o ônibus era o principal meio de locomoção, visto que táxis eram caros e os aplicativos de transporte ainda não existiam.
José Carlos tem em mente as características visuais das empresas: a São Francisco era azul e branca, a Jaguar ocre com bege, e a Cidade Morena, bege claro. Ele lembra que, antes da implantação do sistema integrado, todos os ônibus passaram a ser vermelhos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a implantação do SIT em 1991 foi um avanço significativo, permitindo baldeações com uma única passagem.
Apesar da nostalgia, José Carlos reconhece o progresso da cidade e do transporte. “Campo Grande era menor, tinha menos habitantes. Era um tempo bom, muito saudoso. O transporte tinha problemas, claro, mas não tantos quanto hoje”, pondera. Ele também se recorda dos antigos passes de papel para estudantes e, até hoje, acompanha publicações sobre a história do transporte coletivo online.
Preservando a Memória Online
As memórias do transporte coletivo de Campo Grande ganham vida na página “Ônibus Antigos de Campo Grande MS” no Facebook. O espaço reúne fotos, relatos e comentários de pessoas que se dedicam a preservar essa parte importante da história da cidade. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, Alessandro Vargas, um dos frequentadores da página, relembra com carinho as idas à garagem da Cidade Morena para buscar o passe estudantil, enfrentando filas com centenas de famílias.
Ele conta que plastificou seu documento para facilitar o processo, iniciativa que foi elogiada por um atendente da empresa e serviu de exemplo para outros usuários. “Fiquei muito orgulhoso daquele reconhecimento”, recorda. A página se tornou um ponto de encontro para compartilhar saudades e manter viva a memória dos ônibus que, para muitos, foram mais do que um meio de transporte, mas parte integrante de suas vidas.
A venda das empresas do Consórcio Guaicurus, embora represente uma nova fase para o transporte na Capital, reforça a importância de valorizar e relembrar as histórias que moldaram o sistema ao longo do tempo. Essas memórias, compartilhadas por gerações de campo-grandenses, como detalhado pelo Campo Grande NEWS, continuam a circular e a emocionar, conectando o passado ao presente.

