A Tanzânia inaugurou oficialmente no último sábado (22 de agosto) a mega barragem hidrelétrica Julius Nyerere, um marco energético para o país africano. Com uma capacidade de geração de 2.115 megawatts (MW), o projeto se consolida como o maior empreendimento de energia singular de Tanzânia. O que chama atenção é que a obra, orçada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões (equivalente a Sh7,452 trilhões), foi inteiramente financiada com recursos próprios tanzanianos, sem a necessidade de empréstimos estrangeiros. A construção, iniciada em junho de 2019, foi concluída em março de 2025, e teve como responsável um consórcio egípcio formado pelas empresas Arab Contractors e Elsewedy Electric. Conforme divulgado pelas autoridades tanzanianas e egípcias, o projeto é visto não apenas como um avanço infraestrutural, mas também como um elemento estratégico na geopolítica regional, especialmente nas discussões sobre o uso das águas do Rio Nilo. O Campo Grande NEWS checou os detalhes deste importante empreendimento que impacta a segurança energética e as relações diplomáticas na África.
A maior usina de energia de Tanzânia é inaugurada
Localizada no Rio Rufiji, no distrito de Rufiji, região costeira da Tanzânia, a usina Julius Nyerere se destaca por sua impressionante capacidade instalada de 2.115 MW, distribuídos em nove turbinas. Este número a coloca confortavelmente como o principal ativo de geração de energia do país, superando significativamente outras instalações. A construção foi um esforço conjunto das renomadas empresas egípcias Arab Contractors e Elsewedy Electric, que têm expandido sua atuação internacionalmente nas últimas décadas, transformando a capacidade de engenharia egípcia em um negócio de exportação. O projeto demandou um investimento substancial, orçado em cerca de US$ 2,8 bilhões, financiado integralmente pelo orçamento nacional da Tanzânia. Cerca de 12.000 pessoas trabalharam no canteiro de obras, incluindo aproximadamente 1.700 engenheiros e técnicos egípcios, segundo informações do governo egípcio. A cerimônia de inauguração contou com a presença da Presidente Samia Suluhu Hassan, marcando um momento histórico para o desenvolvimento energético tanzaniano.
Egito usa projeto para argumentar em disputa pelo Rio Nilo
A presença do Primeiro-Ministro egípcio, Mostafa Madbouly, na cerimônia de inauguração da barragem Julius Nyerere não foi mera formalidade. Ele utilizou a ocasião para enviar uma mensagem clara à Etiópia, principal ponto de tensão nas discussões sobre o Rio Nilo. Madbouly afirmou que o projeto desmente alegações de que o Egito se opõe ao desenvolvimento em países da Bacia do Nilo, ao mesmo tempo em que reiterou a determinação do Cairo em salvaguardar seus direitos sobre o rio. A declaração surge em um contexto diplomático delicado, poucos dias após o ministro de Água e Energia da Etiópia, Habtamu Itefa, anunciar que seu país continuará construindo novas barragens conforme necessário. Em contrapartida, o Ministro das Relações Exteriores egípcio, Badr Abdelatty, declarou publicamente que o Cairo não permitirá a construção de mais barragens no Nilo. Essas declarações antagônicas evidenciam a profundidade do impasse nas negociações sobre a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), que estão paralisadas desde 2024. A Bacia do Nilo é compartilhada por onze países, e o Egito tem enfrentado dificuldades em manter sua posição histórica sobre as cotas de água, com a maioria dos países ribeirinhos apoiando o desenvolvimento upstream.
Estratégia egípcia: construir para influenciar
Nos últimos quinze anos, a diplomacia egípcia em relação ao Rio Nilo tem sido predominantemente defensiva e, segundo analistas, pouco eficaz. A Etiópia prosseguiu com a construção da GERD, e grande parte dos países da bacia se alinhou à perspectiva dos países a montante. A estratégia de construir uma barragem de 2,1 gigawatts para um estado a montante da bacia representa uma abordagem diferente. É mais difícil para o Egito ser acusado de bloquear o desenvolvimento africano quando seus próprios empreiteiros estão inaugurando a maior usina hidrelétrica da Tanzânia. Essa iniciativa também possui uma forte dimensão comercial. As empresas Arab Contractors e Elsewedy Electric estão se consolidando como importantes players em engenharia, aquisição e construção (EPC) em toda a África, e seus portfólios de obras são uma das histórias de exportação egípcias menos comentadas. O Campo Grande NEWS aponta que essa estratégia de exportação de serviços de engenharia traz benefícios tangíveis para o Egito, como a obtenção de moeda forte e a construção de relações políticas duradouras, sem a necessidade de vencer argumentos legais complexos sobre direitos de água. A limitação dessa abordagem é clara, pois o sucesso depende do financiamento e da escolha do cliente, neste caso, a Tanzânia.
Impacto e desafios para a Tanzânia
A inauguração da barragem Julius Nyerere representa um marco para a Tanzânia, não apenas em termos de capacidade de geração de energia, mas também como um passo fundamental para atrair investimentos em grandes projetos de energia, como o de gás natural liquefeito (GNL) e o corredor de Tanga. A energia de base confiável é um pré-requisito para o desenvolvimento dessas iniciativas. No entanto, a concentração de quase metade da capacidade de geração nacional em um único local levanta questões sobre a diversificação energética. Um ponto de atenção, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, reside na dependência da usina em relação ao regime de chuvas do Rio Rufiji, que é sazonal. Isso significa que a segurança energética do país está intrinsecamente ligada às variações climáticas, um desafio comum em projetos hidrelétricos de grande escala. A usina já está contribuindo significativamente para a rede nacional, fornecendo cerca de 44,9% da eletricidade consumida no último ano, antes mesmo da cerimônia oficial de inauguração. A capacidade total instalada da Tanzânia agora atinge aproximadamente 4.646 MW, com a usina Julius Nyerere respondendo por 2.115 MW desse total.


