A empresa Redvalue Tecnologia, investigada na Operação Antidotum, está no centro de um escândalo envolvendo a digitalização de prontuários na Santa Casa de Campo Grande. Apesar de ter concluído apenas 9% do serviço contratado, a companhia recebeu o valor total de R$ 2,1 milhões. Os dados, divulgados pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), revelam um esquema que pode ter desviado recursos públicos em larga escala.
Conforme informações do pedido de prisão feito pela 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande e pelo Gecoc, a Redvalue Tecnologia deveria ter digitalizado 42 milhões de páginas de prontuários em um período de 14 meses, entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026. Contudo, apenas 3.818.695 páginas foram transformadas em arquivo digital, o que representa um percentual irrisório de 9% da meta estabelecida.
Apesar da produção significativamente inferior ao acordado, a diretoria da Santa Casa, sob a gestão da presidente Alir Terra Lima, realizou os pagamentos de forma integral e mensal. O valor recebido pela empresa totalizou R$ 2,1 milhões, enquanto o custo proporcional aos serviços efetivamente prestados seria de apenas R$ 190.934,75. Essa discrepância levanta sérias suspeitas de desvio de dinheiro público, conforme detalhado pelo Gecoc.
Contrato mantido apesar de recomendações de suspensão
O Gecoc aponta que a presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, manteve o contrato com a Redvalue Tecnologia mesmo após receber uma recomendação de suspensão por parte do Conselho Fiscal do hospital. O conselho havia identificado irregularidades no processo, mas Alir Terra Lima não acatou as advertências, permitindo a continuidade dos pagamentos sem a devida contrapartida em serviços.
Em sua defesa, ao ser questionada pela 32ª Promotoria de Saúde, Alir Terra Lima teria tentado justificar a contratação alegando falsamente a existência de outros sistemas que seriam entregues pela empresa. No entanto, o Gecoc esclarece que tais sistemas não possuíam qualquer relação com o objeto do contrato investigado, caracterizando uma tentativa de dar uma aparência de complexidade e vantagem econômica a uma contratação que, na verdade, servia ao desvio de verbas públicas.
Funcionários da Santa Casa teriam atestado falsamente a execução do serviço
A investigação revela ainda que funcionários do SAME (Serviço de Arquivo Médico e Estatística) da Santa Casa, incluindo a supervisora Monique Gregório, o fiscal do contrato Alessandro Dias Junqueira e o gestor Rinaldo Romano, teriam atestado falsamente que os objetivos do contrato estavam sendo alcançados. Eles teriam, inclusive, solicitado um aditivo contratual que, em vez de corrigir o problema, propunha reduzir a meta mensal de digitalização de três milhões para um milhão de páginas, mantendo a mesma remuneração mensal.
Essa manobra, segundo o Gecoc, visava reduzir a produtividade em 66% e aumentar o custo unitário em 200%, sem que houvesse impacto financeiro aparente para a empresa. Rinaldo Romano e Alessandro Junqueira, mesmo cientes da baixa produtividade, não interromperam a contratação e ainda subscreveram a solicitação de aditivo, omitindo a redução drástica na eficiência do serviço. Conforme o Campo Grande NEWS checou, Rinaldo Hakme Romano, após iniciar o processo de contratação, não realizou estudo de referência de preços de mercado e recebeu a minuta do contrato do dono da Realvalue, Maurício Aparecido Benites, também preso na operação.
Ligação entre empresas e o dono da Redvalue
A juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, que autorizou as prisões e buscas, reforçou que empresas listadas para dissimular a pesquisa de mercado apresentavam vínculos diretos com Maurício Benites. Os elementos reunidos indicam que o procedimento de contratação foi iniciado sem estudo técnico preliminar, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração objetiva de vantajosidade, com cotações provenientes de empresas que, embora formalmente distintas, possuíam ligações com Benites. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, o contrato previa um pagamento mensal de R$ 150.000,00, com base em uma capacidade estimada de 3.000.000 de páginas por mês.
A Operação Antidotum resultou na prisão de seis pessoas, incluindo Alir Terra Lima, Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites. Outros dois indivíduos, o advogado da unidade, Paulo da Cruz Duarte, e Beatriz Lemes da Silva, foram afastados de suas funções e proibidos de se aproximar da Santa Casa. O caso foi sugerido por um leitor através das redes sociais do Campo Grande NEWS.

