A Santa Casa de Campo Grande está novamente sob a ameaça de uma intervenção, um cenário que remete a um período de “extremamente complexo”, conforme descrito pelo promotor Marcos Roberto Dietz. A possibilidade surge diante da persistência do impasse nas negociações que envolvem a administração do hospital e a gestão de seus significativos déficits financeiros. A medida extrema, embora não seja o desejo das partes, pode ser acionada se o consenso não for alcançado, impactando diretamente a continuidade dos serviços essenciais aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).
Santa Casa em Alerta: Nova Intervenção é Possibilidade Real
A complexa situação financeira e administrativa da Santa Casa de Campo Grande reacende o espectro de uma nova intervenção no hospital. O alerta foi emitido pelo promotor Marcos Roberto Dietz, da 76ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, durante uma audiência de conciliação. Ele enfatizou que a intervenção, que já ocorreu no passado e foi um período de “extremamente complexo”, não é o objetivo principal, mas uma medida que pode ser reimposta caso as negociações sobre a gestão e os débitos não avancem.
O hospital acumula um déficit mensal expressivo de R$ 15 milhões, contrastando com os cerca de R$ 500 milhões anuais recebidos em repasses públicos. A diretoria da instituição reivindica ainda o pagamento de R$ 100 milhões, valores que já foram reconhecidos judicialmente como devidos. Conforme informado pelo promotor, o foco das discussões atuais está na busca por um acordo sobre o reajuste contratual e a garantia da continuidade dos serviços, visando sempre resguardar o atendimento aos pacientes do SUS.
O promotor Dietz defende a realização de uma perícia e auditoria detalhada nas contas da Santa Casa. O objetivo é trazer maior transparência ao custo real da estrutura hospitalar, que é majoritariamente financiada com recursos públicos. Essa medida visa esclarecer a origem e a aplicação dos fundos, buscando uma solução sustentável para a crise.
Necessidade de Reforma Estrutural e de Governança
O Secretário de Saúde do Estado, Maurício Simões, aponta que a Santa Casa necessita de uma profunda reforma estrutural e de governança. Ele justifica essa necessidade pelos resultados financeiros negativos sucessivos e pelo patrimônio líquido negativo acumulado pela instituição. Simões argumenta que a mudança deve iniciar pela gestão interna e, posteriormente, avançar para uma revisão completa da relação contratual entre o hospital e os órgãos públicos.
Os dados financeiros referentes a 2024, publicados em 2025, revelaram uma situação “realmente muito delicada” para a Santa Casa. O secretário ressalta que, embora o contrato com o poder público possa ser um fator contribuinte, a complexidade do cenário vai além da relação contratual, indicando problemas internos na gestão. A necessidade de alterar o modelo de contratação atual, que movimenta aproximadamente R$ 500 milhões anuais em repasses públicos, é vista como crucial.
Questionamentos sobre Transparência e Gestão de Recursos
Por parte do município, o Secretário de Saúde de Campo Grande, Marcelo Vilela, levantou questionamentos sobre a falta de transparência na gestão dos recursos repassados à Associação Beneficente Santa Casa. Vilela destacou que, enquanto os gestores públicos são rigorosamente auditados pelos tribunais de contas, o mesmo nível de controle não se aplica à entidade privada que administra o hospital.
Ele informou que uma nova proposta de contrato foi elaborada após uma audiência de conciliação no início do ano, mas os termos não foram aceitos pela diretoria da Santa Casa. Essa recusa agrava o impasse e aumenta a pressão por soluções efetivas. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a falta de acordo em propostas anteriores demonstra a dificuldade em alinhar os interesses e as necessidades de ambas as partes.
Santa Casa Defende Equilíbrio Contratual e Cobra Valores Devidos
A presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, rebateu as críticas sobre a prestação de contas, afirmando que a produção hospitalar está devidamente registrada nos dados oficiais do DataSUS. Ela enfatizou a importância da instituição, que responde por 60% dos procedimentos de média e alta complexidade do estado, e ressaltou que o contrato atual está sem equilíbrio econômico-financeiro há mais de dois anos, o que contribui para o agravamento da crise.
Segundo a presidente, o déficit mensal da instituição subiu de R$ 13 milhões para R$ 15 milhões. Ela explicou que os repasses pontuais recebidos foram utilizados para quitar salários atrasados de médicos e que a receita própria do hospital tem sido desviada para cobrir despesas de assistência à saúde, que seriam responsabilidade do poder público. A entidade também cobra o pagamento de mais de R$ 100 milhões, valores que, segundo a administração, já foram reconhecidos judicialmente como devidos.
Propostas para Otimizar a Gestão e Aliviar a Sobrecarga
Para otimizar a gestão e aliviar a sobrecarga do hospital, a direção da Santa Casa propõe a melhoria no fluxo de regulação e o cumprimento do contrarreferenciamento. Essa medida permitiria que pacientes que necessitam apenas de cuidados básicos continuassem o tratamento em seus municípios de origem ou em unidades de menor complexidade, liberando leitos e recursos para casos mais graves. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a falta de adesão a essas propostas agrava o cenário.
A busca por um acordo que garanta a sustentabilidade financeira e a eficiência administrativa da Santa Casa de Campo Grande é um desafio complexo. A intervenção, embora extrema, permanece como uma possibilidade real caso as negociações não avancem. A transparência na gestão e a readequação contratual são pontos cruciais para evitar um desfecho que prejudique ainda mais o acesso à saúde para a população. O Campo Grande NEWS segue acompanhando os desdobramentos deste caso de grande relevância para a saúde pública.

