Quatro pacientes em Mato Grosso do Sul passaram por cirurgias com o uso da polilaminina, uma substância ainda em fase de estudos e sem registro na Anvisa, na tentativa de recuperar movimentos após lesões na medula espinhal. Os relatos, após mais de seis meses do primeiro procedimento, indicam sinais de melhora, como formigamentos e contrações voluntárias, mas a comunidade científica aguarda avaliações mais robustas para confirmar a eficácia e a relação direta com o medicamento. As cirurgias foram autorizadas judicialmente para uso compassivo, uma exceção permitida quando não há outras opções de tratamento disponíveis globalmente. No Brasil, 104 procedimentos já foram realizados sob essa modalidade, conforme dados do laboratório Cristália. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o caso mais recente, operado em março, apresenta a evolução mais notável até o momento, segundo relatos obtidos pela reportagem.
A polilaminina, nome derivado do grego “poli” (muitos) e “laminina” (proteína presente em células-tronco), é desenvolvida pela pesquisadora Tatiana Sampaio, da UFRJ. A Anvisa liberou o início de estudos da substância em janeiro deste ano, com potencial para se tornar o primeiro tratamento a regenerar diretamente a medula espinhal após lesões. Apesar da promessa, a fragilidade das evidências científicas atuais gera debates na comunidade médica. O laboratório Cristália, que produz a substância em parceria com a pesquisadora, monitora os pacientes para eventos adversos, conforme determinação da agência reguladora.
Dhiego Paredes: esperança e passos com apoio
Dhiego Paredes, 35 anos, entregador de cestas básicas antes de ser vítima de uma bala perdida, foi operado em 25 de março no Hospital Proncor. Ele relata sentir formigamento e dor nas pernas, além de ter conseguido mover um pé recentemente. “Está devagar, mas evoluindo. Sinto formigamento e agora até dor nas pernas. Consegui mexer um pé recentemente”, conta. Ele realiza fisioterapia diária em casa com uma amiga de sua irmã, que cobra valores reduzidos. Um vídeo recente o mostra dando alguns passos com apoio, e Dhiego expressa otimismo: “Acredito que vai mais um tempo, mas a esperança é muita. Minhas pernas ainda estão moles, mas ficando rígidas”.
No entanto, é crucial ressaltar que não é possível afirmar que a melhora de Dhiego e dos outros pacientes seja diretamente atribuída à polilaminina. Eles ainda não passaram por avaliações médicas ou científicas que possam comprovar essa relação. Por se tratar de uso compassivo, não integram estudos experimentais com análises rigorosas. Fatores como as particularidades de cada caso, outros tratamentos concomitantes e a evolução natural das lesões podem influenciar os resultados. Nenhum deles relatou efeitos negativos relacionados ao medicamento. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, os pacientes preenchem formulários mensais enviados pelo laboratório.
Luiz Otávio Nunez: o primeiro caso e a expectativa de avaliação
Luiz Otávio Nunez, soldado do Exército, foi o primeiro paciente a receber autorização para a cirurgia com polilaminina em Mato Grosso do Sul, em 20 de janeiro, no Hospital Militar de Campo Grande. Aos 19 anos, ele é o mais jovem a passar pelo procedimento no Brasil. Luiz Otávio prefere aguardar uma avaliação médica formal antes de comentar seu progresso, mas o laboratório Cristália informou que uma consulta presencial de retorno para avaliação da evolução após seis meses da aplicação ocorrerá em breve, sendo que todos os pacientes serão reavaliados.
Apesar da cautela em se pronunciar oficialmente, Luiz Otávio compartilha vídeos em suas redes sociais que demonstram sua evolução em exercícios de fisioterapia. Em um dos posts, ele menciona a percepção de contrações na região pélvica durante as sessões. “Na 15ª sessão, o fisioterapeuta notou que tinha uma contração. Até então, não sabia se era espasmo ou contração voluntária. E hoje, na 20ª sessão, nota-se que já tem uma contração voluntária. Ainda tem espasmos, mas também tem contração voluntária na região pélvica”, relatou em um dos vídeos.
Maria José Gonçalves e Daniel Aparecido Costa dos Santos: sensibilidade e desafios no acesso à reabilitação
Maria José Gonçalves, 64 anos, e Daniel Aparecido Costa dos Santos, 32 anos, foram operados um dia antes de Dhiego, também no Hospital Proncor. Ambos perderam os movimentos da cintura para baixo. Maria José relata sentir sensibilidade nas pernas e vontade de ir ao banheiro, segundo sua filha, Rosimeire Gonçalves Rocha. Ela acredita que a mãe poderia ter uma evolução maior com assistência adequada, lamentando a negligência no atendimento público. “Está indo bem, poderia estar melhor. Dependemos da rede pública e o atendimento está sendo bastante negligenciado. Não conseguimos fisioterapia motorizada, estamos cobrando um home care para ela agora”, desabafa.
Daniel Aparecido Costa dos Santos, que sofreu um acidente de trabalho, reside em Sidrolândia com a família, mas se desloca diariamente para Campo Grande para sessões de fisioterapia. Ele também sente formigamento nas pernas após iniciar a fisioterapia. “Evolução na questão do movimento eu não tive, a gente está tentando. Sinto as pernas formigarem depois que comecei a fisioterapia”, disse à reportagem. A jornada diária de aproximadamente duas horas de deslocamento para a fisioterapia, na mesma clínica que Luiz Otávio frequenta, evidencia os desafios logísticos enfrentados por alguns pacientes. Conforme o Campo Grande NEWS noticiou, a busca por tratamentos inovadores para lesões medulares é uma constante, e a polilaminina surge como uma esperança, embora ainda envolta em incertezas científicas.
Apesar da falta de comprovação científica robusta, os relatos de melhora, mesmo que incipientes, trazem um sopro de esperança para pacientes com lesões medulares. A comunidade científica aguarda ansiosamente os resultados dos estudos em andamento e as publicações revisadas por pares para que, quem sabe, a polilaminina possa se tornar uma ferramenta eficaz e segura no tratamento dessas condições debilitantes. O acompanhamento rigoroso dos pacientes e a transparência nos dados são fundamentais nesse processo. Como o Campo Grande NEWS sempre destaca, a informação de qualidade e o acompanhamento de especialistas são cruciais para a tomada de decisões em saúde.

