Polícia Federal mira fundo de pensão de Cajamar por R$ 107 milhões em perdas

A Polícia Federal deflagrou a Operação Off-Balance, que investiga um esquema de investimentos suspeitos no fundo de pensão dos servidores de Cajamar, em São Paulo. A operação apura um prejuízo de cerca de R$ 107 milhões (US$ 27 milhões), sendo R$ 87 milhões (US$ 22 milhões) em aplicações no liquidado Banco Master. A ação, que cumpriu seis mandados de busca e apreensão em Cajamar, Boituva e São Paulo, lança luz sobre um possível caso de gestão temerária e fraudulenta, com ramificações políticas significativas.

A investigação foca em três ex-diretores do Instituto de Previdência Social dos Servidores Públicos de Cajamar: Luiz Henrique Miranda Teixeira (ex-diretor-presidente), Milton Marques Dias (ex-diretor financeiro) e Marcelo Ribas de Oliveira (ex-diretor de benefícios). O juízo da 9ª Vara Criminal Federal de São Paulo autorizou o bloqueio de bens e o afastamento dos investigados de seus cargos públicos. A ofensiva policial transforma o escândalo do Banco Master, antes restrito à supervisão bancária, em uma crise de previdência pública brasileira, com os recursos de aposentadoria dos trabalhadores de Cajamar emergindo como a primeira vítima quantificada.

Os investimentos em questão foram realizados entre agosto de 2023 e março de 2024, período que coincide com a gestão do ex-prefeito Danilo Joan (PP), um aliado político do senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP. Este último também foi alvo de uma operação da Polícia Federal na semana anterior, a Operação Compliance Zero, sob suspeita de receber pagamentos mensais do proprietário do Master, Daniel Vorcaro. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a extensão das perdas em Cajamar e a conexão com figuras políticas de peso adicionam uma camada de complexidade e urgência à investigação federal.

Investigações miram ex-diretores e gestão temerária

A Polícia Federal aponta para possíveis crimes de gestão temerária e fraudulenta no instituto de previdência de Cajamar. O foco principal é determinar se os três ex-diretores cumpriram os devidos procedimentos de diligência, avaliação de risco, governança e documentação ao autorizar as quatro grandes aplicações em Letras Financeiras. A investigação busca, ainda, identificar se o volume alocado ao Banco Master era compatível com os padrões de segurança exigidos para a gestão de fundos de pensão públicos.

Os recursos desviados foram aplicados em Letras Financeiras emitidas por dois bancos privados. Aproximadamente R$ 87 milhões (US$ 22 milhões) foram direcionados a notas do Banco Master, e outros R$ 20 milhões (US$ 5 milhões) para o Banco Daycoval. O montante total de R$ 107 milhões representava 15,36% da carteira de investimentos do fundo. As notas possuíam prazos de vencimento longos, entre oito e dez anos, e eram indexadas ao IPCA. Com a decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, o fundo de pensão de Cajamar efetivamente perdeu os R$ 87 milhões aplicados na instituição.

Alerta ignorado e conexões políticas sob escrutínio

Um sinal de alerta importante foi emitido pelo Ministério Público de Contas de São Paulo (MPC) em 2024. O órgão advertiu formalmente Cajamar e outros quatro municípios paulistas sobre os riscos reputacionais e de solvência do Banco Master. A comunicação destacou a preocupação com a exposição não apenas ao risco reputacional, mas, mais gravemente, com a própria solidez patrimonial da instituição. Apesar do aviso, os investimentos em Cajamar permaneceram ativos. O Campo Grande NEWS destaca que a informação sobre esses alertas é crucial para entender a sequência de eventos.

A ligação política se intensifica com o fato de que Danilo Joan, prefeito de Cajamar durante o período dos investimentos, é um notório aliado do senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas (PP). Joan ingressou oficialmente no PP em março de 2026, em evento com Nogueira. A conexão é relevante pois o próprio senador Nogueira foi alvo da Operação Compliance Zero em 23 de abril de 2026, sob alegação de receber pagamentos mensais do dono do Master. Nogueira nega veementemente as acusações. A exposição do fundo de pensão de Cajamar ao Master está sendo reavaliada à luz dessas denúncias, conforme noticiado pelo Campo Grande NEWS.

Outros municípios sob risco e o futuro da investigação

Além de Cajamar, outros quatro municípios paulistas foram alertados pelo MPC sobre a exposição ao Banco Master: Araras, Santa Rita do Oeste, Santo Antônio de Posse e São Roque. A Polícia Federal já havia realizado uma operação no fundo de pensão de Santo Antônio de Posse em 23 de abril de 2026, investigando R$ 13 milhões em notas do Master e Daycoval. A operação em Cajamar amplia o padrão de investigação, deixando outros três fundos municipais sob escrutínio.

A exposição combinada das cinco cidades alertadas pelo MPC ainda não foi totalmente quantificada. Se o padrão se mantiver em escala similar à de Cajamar, a exposição total dos fundos de pensão municipais brasileiros ao Master pode atingir centenas de milhões de reais, todos expostos ao mesmo evento de liquidação. O caso, que se assemelha a escândalos de previdência municipal anteriores no Brasil, agora opera em uma escala materialmente maior e com um eixo de poder político claro conectando os fundos afetados.

Investidores e analistas devem ficar atentos a possíveis desdobramentos. Três outros municípios (Araras, Santa Rita do Oeste e São Roque) cujos fundos de pensão foram alertados em 2024 ainda não foram alvo da Polícia Federal, e operações paralelas podem ocorrer. O tempo para indiciamento dos ex-diretores de Cajamar também é um ponto de atenção, com a possibilidade de acusações formais em cerca de 60 dias. A imunidade parlamentar de Ciro Nogueira pode ser posta à prova caso as evidências conjuntas das operações Force Zero e Off-Balance se fortaleçam.

A investigação sobre a atuação do Banco Central na fiscalização do Banco Master, levantada pelo presidente do BTG Pactual, André Esteves, também ganha contornos mais relevantes com a descoberta de vítimas no âmbito dos fundos de pensão. A cadeia de fundos de pensão afetados fortalece o argumento político para uma reforma na supervisão de Letras Financeiras detidas por Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS).