Petro tenta novo decreto para taxar bancos e lucros extraordinários

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, assinou um novo decreto de emergência econômica com o objetivo de taxar os chamados “lucros extraordinários” de bancos e outras grandes empresas. A medida, anunciada na terça-feira, visa aumentar a arrecadação em 8 trilhões de pesos (aproximadamente US$ 1,8 bilhão) para financiar a reconstrução de áreas devastadas por chuvas intensas que causaram inundações em oito departamentos do país.

Esta é a segunda tentativa do governo Petro de implementar medidas fiscais por meio de decretos de emergência. A primeira tentativa, em dezembro de 2025, foi suspensa pela Corte Constitucional em janeiro, por não atender aos requisitos de emergência imprevista. O novo decreto busca fundamentar a necessidade da taxação em um desastre climático, uma justificativa que o governo acredita ser mais robusta constitucionalmente.

Lucros bancários sob o holofote

O decreto propõe um adicional à alíquota do imposto de renda para instituições financeiras, elevando-a de 35% para até 50%. Além disso, inclui um imposto sobre grandes fortunas para pessoas jurídicas, com alíquotas estimadas entre 0,6% e 1,2% sobre os bens de alto valor. O alvo são mais de 15.000 empresas. Petro justificou a medida nas redes sociais, argumentando que os lucros recordes dos bancos não derivam de crescimento econômico real, mas sim de aumentos nas taxas de juros promovidos pelo banco central.

“Taxar esses lucros extraordinários tornou-se um pecado”, escreveu o presidente. “É a coisa mais justa que se pode fazer.” O objetivo declarado é arrecadar os 8 trilhões de pesos necessários para a reconstrução em departamentos como Córdoba, Sucre e Bolívar, onde as enchentes deixaram um rastro de destruição, com pelo menos 14 mortos e 69.000 famílias desalojadas.

Segunda tentativa, mesma batalha judicial

Em dezembro de 2025, o governo Petro enfrentou a rejeição do Congresso a um projeto de financiamento que visava arrecadar cerca de US$ 4 bilhões para o orçamento de 2026. Durante o recesso judicial, Petro emitiu o primeiro decreto de emergência, o Decreto 1390, que autorizava o aumento de impostos sem aprovação legislativa. As justificativas incluíam déficits orçamentários, dívidas do sistema de saúde e ameaças de segurança. No entanto, a Corte Constitucional suspendeu o decreto, considerando que as razões apresentadas não configuravam emergências imprevistas, conforme exigido pela Constituição.

Bruce Mac Master, presidente de uma associação empresarial, criticou o decreto original como um “abuso flagrante do Estado de Direito”. A nova versão tenta contornar essa objeção legal ao ancorar a necessidade da taxação no desastre das inundações, um evento que o governo considera uma crise extraordinária e que atende ao limiar constitucional.

Cálculos e riscos econômicos

O think tank econômico Anif, uma das principais instituições de pesquisa econômica da Colômbia, estima que o imposto sobre grandes fortunas, por si só, poderia gerar até 13,4 trilhões de pesos (US$ 3 bilhões), superando a meta do governo. Contudo, a mesma análise aponta para consequências negativas. A adição desse novo imposto ao imposto de renda corporativo, que já totalizou 70,6 trilhões de pesos em 2024, elevaria a alíquota efetiva de 29,8% para 35,5%. Esse aumento de 6 pontos percentuais, segundo o Anif, configura dupla tributação, reduz os incentivos ao crescimento e desencoraja novos investimentos em um cenário onde o investimento privado já atingiu mínimos históricos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa preocupação com o impacto no investimento é um dos pontos centrais do debate econômico no país.

O veredito da Corte Constitucional

O decreto concede ao governo um prazo de 30 dias para emitir as medidas fiscais com força de lei, mas a validação final cabe à Corte Constitucional. Dada a decisão anterior da Corte de suspender o decreto de dezembro, o desfecho desta nova tentativa é incerto. A Colômbia se aproxima de eleições em 2026, e a coalizão de esquerda de Petro enfrenta uma oposição fortalecida pela disputa fiscal. A questão fundamental permanece a mesma: se um presidente pode impor por decreto impostos que o Congresso recusou aprovar por lei. As enchentes conferem a Petro um argumento mais forte, mas a decisão final dependerá da interpretação da Corte sobre a robustez desse argumento para preencher o déficit fiscal do país.

O Campo Grande NEWS acompanha de perto as movimentações políticas e econômicas na Colômbia, buscando trazer informações precisas e contextualizadas para seus leitores. A análise sobre o impacto econômico dessas medidas, como apontado pelo Anif e repercutido pelo Campo Grande NEWS, é crucial para entender as futuras direções da política fiscal colombiana.