Panamá suspende venda de energia para Costa Rica em disputa comercial

A relação entre Panamá e Costa Rica deu um passo drástico nesta quinta-feira, quando o presidente panamenho, José Raúl Mulino, anunciou a suspensão imediata das vendas de eletricidade para a Costa Rica. A medida, justificada pelo princípio de “reciprocidade” nas relações internacionais, marca uma escalada significativa na disputa comercial que se arrasta há quase sete anos, transformando um embargo agrícola em uma crise bilateral de maior proporção, justamente quando a região se prepara para os efeitos do fenômeno El Niño em 2026, que pode impactar a geração hidrelétrica costarriquenha.

Panamá corta energia da Costa Rica após embargos agrícolas

O anúncio de José Raúl Mulino ocorreu em sua conferência de imprensa semanal, onde declarou de forma direta: “Por enquanto, não há venda de energia para a Costa Rica, é simples assim”. Esta ação de retaliação, conforme o Campo Grande NEWS apurou, é uma resposta direta à declaração da presidente costarriquenha, Laura Fernández, feita em sua primeira semana no cargo. Fernández havia afirmado que ativaria “todos os mecanismos internacionais disponíveis” para derrubar o bloqueio comercial panamenho, imposto desde 2019-2020 a produtos agrícolas da Costa Rica, incluindo frutas, laticínios e carnes.

O gatilho da suspensão energética

A decisão panamenha de suspender a venda de energia, como destaca o Campo Grande NEWS, seguiu a iniciativa da Costa Rica de buscar a resolução internacional do embargo agrícola. O Instituto Costarricense de Electricidad (ICE), a estatal de energia da Costa Rica, havia formalizado um pedido para expandir o acesso à energia panamenha para 2026. Este pedido estava em avaliação pelas autoridades energéticas do Panamá até que o Ministro do Comércio, Julio Moltó, recebeu instruções de Mulino para comunicar a suspensão.

Mulino expressou surpresa com a postura pública de Laura Fernández, que assumiu a presidência em 8 de maio de 2026. O presidente panamenho, que esteve presente na posse de Fernández, criticou o que chamou de “desvio das normas diplomáticas centro-americanas de discrição, moderação e respeito”. O Panamá rejeitou formalmente a caracterização costarriquenha da disputa como “unilateral ou arbitrária”, defendendo as restrições de 2019-2020 como medidas legítimas de proteção à saúde pública, segurança alimentar e interesses dos produtores panamenhos.

A longa disputa agrícola entre os países

A origem do conflito comercial remonta a 2019-2020, quando o Panamá implementou restrições à entrada de produtos agrícolas da Costa Rica, alegando salvaguardas sanitárias e fitossanitárias. Os produtos afetados incluem uma vasta gama, como bananas, abacaxis, morangos, laticínios, carnes bovina e suína, e embutidos processados, cobrindo efetivamente quase todo o portfólio de exportação agropecuária costarriquenha para o mercado panamenho. A Costa Rica levou o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Em dezembro de 2024, um painel de arbitragem da OMC deu razão à Costa Rica, declarando as restrições panamenhas inválidas. O Panamá apelou da decisão em janeiro de 2025, e o processo de apelação ainda não tem prazo para resolução. Nesse ínterim, as restrições permaneceram em vigor, gerando perdas estimadas em mais de 100 milhões de dólares para o setor exportador costarriquenho, conforme o ex-ministro do Comércio Exterior, Manuel Tovar. Negociações bilaterais foram reiniciadas em janeiro de 2026, mas estagnaram em discussões técnicas antes da transição de governo na Costa Rica.

Energia em jogo: o Mercado Elétrico Regional

Panamá e Costa Rica são membros do Mercado Elétrico Regional (MER), que opera através da linha de transmissão do Sistema de Interconexão Elétrica dos Países da América Central (SIEPAC). Essa interconexão permite a troca de eletricidade entre os países membros, tanto por contratos quanto no mercado spot. Historicamente, a Costa Rica importa energia panamenha durante a estação seca, quando sua geração hidrelétrica é menor. O ICE havia solicitado acesso ampliado para 2026, antecipando a temporada de El Niño, mas o acordo não se concretizou antes da suspensão anunciada por Mulino.

O Ministério das Relações Exteriores da Costa Rica confirmou que, no momento da suspensão, não havia contratos firmes de compra de energia panamenha e que não havia projeção de importação para o restante de 2026. O impacto prático de curto prazo na rede elétrica costarriquenha é considerado limitado. Contudo, o sinal estratégico é relevante, já que a Costa Rica depende em cerca de 73% de sua eletricidade de fontes hidrelétricas, tornando-a estruturalmente vulnerável a déficits de precipitação causados pelo El Niño. A perda de flexibilidade nas importações panamenhas reduz as opções em um momento crítico.

Contexto e desdobramentos da crise bilateral

As exportações costarriquenhas para o Panamá atingiram aproximadamente 612 milhões de dólares em 2025, representando 16,6% do total das exportações da Costa Rica para a América Central. Isso consolida o Panamá como o segundo maior parceiro comercial regional da Costa Rica, após a Guatemala. A disputa comercial ganha contornos macroeconômicos significativos para a administração de Laura Fernández, que herdou este tema sensível como um dos primeiros grandes desafios de seu mandato. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a própria presidente Fernández decidiu não comparecer à próxima Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), que será realizada no Panamá, elevando ainda mais a temperatura diplomática.

O Ministério das Relações Exteriores do Panamá solicitou “condições de concorrência justas” em vez de recuar nas restrições, indicando que a suspensão energética visa pressionar por uma resolução negociada. A proximidade de eleições presidenciais na Colômbia em 31 de maio e o calendário político regional adicionam complexidade a qualquer acordo a curto prazo.

O que observar nos próximos passos

Analistas e investidores devem monitorar a resposta da presidente Fernández, avaliando se ela manterá a estratégia de escalada internacional ou optará pelo diálogo bilateral. Atualizações meteorológicas sobre o El Niño são cruciais, pois um fenômeno forte em 2026 aumentaria a necessidade de importação de energia da Costa Rica justamente quando o acesso panamenho se fecha. A capacidade da Costa Rica de garantir contratos alternativos de fornecimento de energia de outros países centro-americanos através do MER também será fundamental. Qualquer indicação sobre o cronograma de apelação do Panamá na OMC ou a expansão do princípio de reciprocidade para outros setores pelo Panamá pode alterar drasticamente o cenário.