A investigação sobre a quebra do Banco Master, que já havia revelado um rombo estimado em R$ 40 bilhões, ganhou um novo e chocante capítulo. Na manhã desta quinta-feira, 14 de maio, a Polícia Federal (PF) prendeu Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, proprietário do banco, em Belo Horizonte. A prisão faz parte da sexta fase da Operação Compliance Zero e aponta para a existência de uma milícia privada com ramificações em diversas áreas, incluindo a infiltração em instituições públicas e o uso de hackers.
A PF identificou duas organizações criminosas atuando sob a égide da família Vorcaro. A primeira, denominada “A Turma”, seria responsável por intimidação física, coleta ilegal de dados e infiltração em órgãos públicos, liderada pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. A segunda, “Os Meninos”, configurava uma célula de hackers encarregada de ciberataques, derrubada de redes sociais e vigilância digital, sob o comando de David Henrique Alves, operando através da empresa Bipe Software Brasil Ltda.
O que chama a atenção na operação é o suposto envolvimento de membros da própria Polícia Federal. A delegada Valéria Vieira Pereira da Silva, em exercício em Minas Gerais, teria acessado investigações sigilosas pelo sistema interno e-Pol, repassando as informações ao grupo Vorcaro. Seu marido, Francisco José Pereira da Silva, um agente federal aposentado, teria atuado como intermediário. Ambos foram afastados de suas funções e impedidos de acesso às instalações da PF.
Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, Henrique Vorcaro é apontado como o financiador de “A Turma”, realizando pagamentos mensais que variavam entre R$ 400 mil e R$ 800 mil. Esses pagamentos teriam continuado mesmo após a primeira prisão de seu filho, Daniel Vorcaro, em novembro de 2025. David Henrique Alves, por sua vez, recebia R$ 35 mil mensais via Bipe Software. Henrique presidia o grupo de infraestrutura Multipar, que movimentou mais de R$ 1 bilhão entre 2020 e 2025, com transações que levantaram suspeitas de ocultação de bens junto ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF).
A teia da milícia privada revelada
A investigação, autorizada pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, e com apoio da Procuradoria-Geral da República (PGR), cumpriu sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A decisão do ministro descreve a estrutura como uma “milícia privada”, com quatro braços operacionais: físico, tecnológico, financeiro e informacional policial. O bloqueio de R$ 18,85 milhões em bens ligados ao caso também foi determinado.
As acusações incluem ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivo informático e violação de sigilo profissional. A PF ressalta que a estrutura criminosa continuou operando mesmo após fases anteriores da investigação, o que justifica a prisão preventiva para evitar coerção de testemunhas e destruição de provas, conforme noticiado pelo Gazeta do Povo.
Conexões com o crime organizado no Rio
A investigação aponta Manoel Mendes Rodrigues, descrito como um “empresário do jogo” no Rio de Janeiro, como o líder de um braço local da estrutura. Este braço seria a ponte entre a organização Vorcaro e as redes tradicionais do jogo do bicho no Rio. O jogo do bicho é um sistema de apostas ilegal com raízes no século XIX, historicamente ligado a redes de crime organizado, financiamento político e milícias formadas a partir de corrupção policial. A ligação identificada pelo STF é considerada um dos pontos mais graves do caso.
O fluxo financeiro e a infiltração policial
Mensagens extraídas do celular de Marilson revelam as transferências mensais de Henrique Vorcaro para “A Turma”. Em uma das trocas, Marilson solicita um pagamento e Henrique responde que enviaria “400”, interpretado pela PF como uma referência a R$ 400 mil. Em outro momento, a solicitação foi de R$ 800 mil. A PF conclui que Henrique atuou como “destinador de recursos” da estrutura criminosa.
Outras mensagens indicam que Henrique solicitava acesso a investigações sigilosas da PF que o envolviam e a seu filho. Marilson confirmava que os pedidos seriam atendidos por “um parceiro que vai se encontrar comigo aqui”. O Ministro Mendonça destacou que isso amplia a gravidade do papel de Henrique, pois a estrutura não agia apenas para intimidação, mas também para obter informações sigilosas de interesse direto dele, como checou o Campo Grande NEWS.
O escândalo Master se expande
Inicialmente focada em fraudes financeiras relacionadas ao colapso do Banco Master, a Operação Compliance Zero agora desvenda uma operação paralela de coerção e inteligência. Essa operação envolve policiais federais ativos e aposentados, hackers profissionais e conexões com o crime organizado tradicional. O grupo Multipar, presidido por Henrique Vorcaro, movimentou mais de R$ 1 bilhão em transações suspeitas, segundo o COAF, reforçando a suspeita de ocultação de bens.
O caso se transforma de uma história financeira para uma questão de captura do Estado, com evidências de uma estrutura criminosa complexa e infiltrada nas instituições. A prisão de Henrique Vorcaro marca um ponto de virada, indicando que o escândalo vai além das perdas financeiras. A atuação da PF, com apoio do STF e da PGR, demonstra a seriedade com que o caso está sendo tratado, conforme o Campo Grande NEWS acompanhou.
O que esperar nos próximos passos
O acordo de delação premiada de Daniel Vorcaro, iniciado em março, pode trazer novas revelações sobre outros atores do sistema financeiro e figuras políticas envolvidas. A investigação sobre o acesso indevido ao sistema e-Pol pela delegada Valéria Vieira e seu marido levanta questões sobre os controles de acesso interno da PF, com potencial para expansão a outros servidores e uma crise institucional. A recuperação do rombo de R$ 40 bilhões no sistema financeiro permanece um desafio, com impactos diretos no custo para o contribuinte.


