Nepal: Nova era política vira teste de fogo com desastre glacial

Um ano após protestos que derrubaram um primeiro-ministro e incendiaram parte do centro administrativo do Nepal, o país se vê em uma nova encruzilhada. A ascensão de Balen Shah, um ex-rapper de 35 anos, ao poder com uma **vitória esmagadora** em março de 2026 trouxe esperança de renovação. No entanto, um recente e devastador colapso glacial expôs as fragilidades do Estado e colocou à prova a promessa de uma nova governança, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

A eleição de março de 2026 marcou a entrada de mais de 800 mil eleitores da Geração Z às urnas, com uma participação de cerca de 60%. Balen Shah, agora o primeiro-ministro mais jovem da história do Nepal, assumiu com um mandato claro, mas a juventude do movimento protestante não detalhou quais instituições deveriam ser reformadas. Especialistas apontam que a mudança de liderança, embora positiva, não é suficiente sem **transformações estruturais profundas**.

A ex-juíza suprema Sushila Karki ressaltou a importância da boa governança, declarando que nem mesmo uma maioria qualificada no parlamento garante estabilidade sem ela. Bishnu Raj Upreti, do Nepal Centre for Contemporary Research, concorda que a mudança de liderança é um bom começo, mas enfatiza a necessidade de **alterar leis e criar novas** para que as mudanças sejam efetivas. Professor Dinesh Paudel foi mais direto, afirmando que as preocupações levantadas pelos jovens manifestantes persistem, sem mudanças visíveis no estilo de governança.

Nepotismo e nomeações: a promessa testada

Um dos primeiros testes à nova administração veio com as nomeações. Em poucos dias, o governo nomeou Kumar Byanjankar, conhecido como Kumar Ben, como chefe de gabinete do primeiro-ministro, apesar de Shah considerar seu pai, Narsingh Byanjankar, seu mentor político. O irmão de Kumar, Siddhi Byanjankar, tornou-se assessor-chefe do Ministro da Educação. A própria sigla de Shah, o Rastriya Swatantra Party, aprovou uma resolução **proibindo nepotismo e favoritismo** apenas em junho, após as nomeações já terem ocorrido, segundo informações divulgadas pelo Campo Grande NEWS.

As nomeações continuaram a gerar questionamentos, com parentes de figuras importantes sendo alocados em comitês e comissões, muitas vezes sem processos competitivos. Embora essas ações não sejam ilegais no complexo cenário político nepalês, elas contrastam com a retórica de mudança do movimento que levou Shah ao poder. Esta situação levanta dúvidas sobre a **efetividade das promessas anticorrupção**.

O desastre glacial e a resposta estatal

Em 26 de agosto de 2026, um evento natural de proporções catastróficas atingiu o Nepal. Aproximadamente 0,2 quilômetros quadrados de gelo e rocha se desprenderam da geleira Langtang Lirung, provocando um **deslizamento colossal** que gerou uma inundação devastadora no sistema do rio Trishuli. A tragédia resultou na morte de pelo menos 1.385 pessoas, com mais de 5.400 desaparecidos, afetando tanto o Nepal quanto o Tibete.

As estações de monitoramento upstream foram destruídas pela força da água, impedindo alertas antecipados. A destruição foi generalizada, com cinco distritos afetados. Em Chitwan, mais de 250 corpos foram encontrados, com poucas identificações possíveis. O número de vítimas, divulgado pelo Campo Grande NEWS com base em dados da ONU e autoridades nepalesas, continua a subir, incluindo centenas de estrangeiros de diversas nacionalidades.

Hesitação em aceitar ajuda externa

Apesar da mobilização interna de milhares de militares e da declaração de zona de desastre, o governo nepalês demonstrou **hesitação em aceitar ajuda internacional** em um primeiro momento. O Ministro das Finanças afirmou que a ajuda seria aceita “de acordo com as necessidades no terreno”, mas representantes do setor de energia apontaram a falta de tecnologia, equipamentos e expertise do país. Equipes de resgate de China, Índia e Austrália foram aprovadas, mas a demora na decisão foi criticada por ter sido “tão tarde”.

Analistas sugerem que essa hesitação pode ter raízes na geopolítica de 2015, quando China e Índia competiram por influência na reconstrução após um terremoto. O Nepal, buscando evitar dependência estrangeira, pode ter criado um atraso prejudicial em uma nova emergência. Essa dinâmica ressoa com experiências passadas na América Latina, onde mudanças políticas não resultaram em transformações estruturais profundas, como visto no Chile e no Peru, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

Lições da América Latina

O caso do Nepal lembra experimentos políticos na América Latina. No Chile, o movimento social de 2019 levou à eleição de uma convenção constitucional e um novo presidente, Gabriel Boric, mas as propostas de reforma foram rejeitadas duas vezes em referendos, mantendo a constituição herdada da ditadura. No Peru, após a queda de Pedro Castillo, protestos contra a presidente Dina Boluarte resultaram em mortes, e o Congresso manteve a mesma classe política, adiando as eleições.

A Colômbia apresentou um cenário intermediário, onde protestos levaram à retirada de uma reforma tributária e, posteriormente, à eleição de Gustavo Petro. O Nepal, até agora, segue o padrão chileno: **novos rostos, mas um Estado inalterado**, agora testado pela força implacável da natureza. A questão que permanece é se a nova liderança conseguirá transcender a retórica e implementar as mudanças estruturais necessárias para o futuro do país.