Morreu na última sexta-feira (22), em Campo Grande, o empresário Deócles José Ferreira, aos 90 anos. Fundador da Pax Real do Brasil, empresa que revolucionou o setor funerário na capital sul-mato-grossense, Deócles estava internado desde o dia 13 devido a uma infecção urinária que agravou um quadro de saúde já debilitado pela idade. Sua partida deixa um legado de empreendedorismo e uma história peculiar, que inclui a inauguração de sua própria estátua enquanto ainda estava vivo, um feito raro que demonstra sua visão única.
A notícia do falecimento foi divulgada pelo filho do empresário, o jornalista João Paulo Ferreira, que detalhou as circunstâncias da internação. Segundo ele, o pai enfrentava diversos problemas de saúde nos últimos anos, mas manteve a lucidez até o fim. A infecção urinária, embora aparentemente simples, teve um impacto significativo em sua saúde já fragilizada, acelerando o declínio. A causa da morte não foi diretamente a infecção, mas sim o enfraquecimento geral do organismo.
Um pioneiro que desafiou tabus
Mineiro de origem, Deócles chegou a Campo Grande no final da década de 1970, um período em que o setor funerário ainda enfrentava grande resistência e preconceito por parte da população. Foi em 1979 que ele fundou a Pax Real do Brasil, após meses de trabalho árduo para convencer os moradores de que um plano funerário não era um mau presságio, mas sim uma forma de amparo em um dos momentos mais difíceis da vida: a perda de um ente querido.
A jornada para estabelecer a empresa foi repleta de desafios. Deócles contou em entrevista ao Campo Grande NEWS, em 2017, que ouviu xingamentos e enfrentou portas fechadas até conseguir firmar o primeiro contrato. “Imagina como era naquele tempo chegar na casa de uma família oferecendo um caixão e assistência na hora da morte. As pessoas não aceitavam, pensavam que eu estava indo à casa delas gorar a vida”, relatou na época, evidenciando a persistência necessária para construir seu negócio.
A estátua em vida: um ato de ousadia e legado
A trajetória de Deócles José Ferreira foi tão marcante que ele decidiu eternizá-la de uma forma incomum: encomendando e inaugurando sua própria estátua de bronze no cemitério Memorial Park. A obra, com mais de 300 quilos e 1,60 metro de altura, foi concebida por ele para ser uma lembrança para a família após sua morte. No entanto, seus netos o convenceram a inaugurar a homenagem enquanto ele ainda estava vivo, um gesto que reflete sua personalidade forte e sua vontade de ver o reconhecimento de seu trabalho em vida.
A estátua o retrata sorrindo, segurando uma pasta que, segundo ele contou na época, simbolizava o primeiro contrato fechado pela Pax Real do Brasil, em 21 de março de 1979. “Ali nasceu a Pax Real do Brasil”, disse ele na entrevista ao Campo Grande NEWS, ressaltando a importância daquele momento para o início de sua empreitada. A capacidade de contar sua própria história, e de fazê-lo de forma tão singular, demonstra a autoconfiança e a visão de longo prazo de Deócles.
Despedida e legado de orgulho
O filho, João Paulo Ferreira, expressou a dor da família, mas também um profundo sentimento de orgulho. “Fica o sentimento de orgulho por ter sido parte da história de um grande homem. Uma honra para nós. Fica o exemplo do homem que conquistou o mundo com o próprio suor e honestidade”, declarou. Ele lembrou ainda da origem humilde de seu pai, que começou a trabalhar ainda criança, vendendo lavagem e esterco, e se tornou um dos empresários mais marcantes de Campo Grande.
Deócles, que era pai de sete filhos, avô e bisavô, sempre fez questão de ser lembrado não apenas pelo patrimônio construído, mas pela honestidade e perseverança. Em suas próprias palavras, ditas em 2017, ao falar da estátua: “toda história merece ser contada e bem contada. Principalmente para que minhas gerações tenham uma boa lembrança”. Sua vida é um testemunho de que é possível construir um império com trabalho árduo e integridade, um legado que, sem dúvida, suas gerações e a cidade de Campo Grande guardarão com carinho, conforme o Campo Grande NEWS checou.
O velório de Deócles José Ferreira ocorreu no sábado (23), a partir das 7h, no Cemitério Memorial Park, com sepultamento marcado para as 16h, no mesmo local. A despedida de um homem que dedicou sua vida a amparar outras famílias em seus momentos mais difíceis, e que escolheu celebrar suas conquistas de maneira extraordinária, ressoa como um exemplo de perseverança e visão.

