O presidente da Argentina, Javier Milei, comemorou o resultado do primeiro turno das eleições brasileiras, parabenizando nominalmente Flávio Bolsonaro pela liderança. Em postagem na rede social X, Milei descreveu o desempenho de Flávio como uma “vitória histórica contra o comunista Lula” e expressou o desejo de que trabalhem juntos em breve. A declaração reforça a proximidade ideológica entre os líderes e suas agendas políticas.
A manifestação de Milei ocorre em um momento crucial, com o Brasil se encaminhando para o segundo turno da eleição presidencial. Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, obteve a dianteira na votação inicial, mas não alcançou a maioria absoluta necessária para vencer de imediato. A disputa decisiva contra Luiz Inácio Lula da Silva está marcada para 25 de outubro.
O presidente argentino utilizou a plataforma X para declarar “La Libertad Avanza en Brasil”, slogan que também batiza seu próprio partido político. Ele se referiu a Flávio Bolsonaro como um “querido amigo” e ressaltou que “o continente americano pertence aos cidadãos que querem viver em liberdade”. Milei também expressou a expectativa de que Argentina e Brasil mantenham “grandes parcerias comerciais, culturais e políticas”, com oportunidades “infinitas” de colaboração.
O discurso de Milei, que encerrou com seu conhecido grito de campanha “Viva la libertad, carajo”, foi acompanhado diretamente da residência presidencial de Olivos, nos arredores de Buenos Aires. A declaração, conforme divulgado pelo jornal Infobae, sinaliza um forte alinhamento com a candidatura de Flávio Bolsonaro e uma clara oposição a Luiz Inácio Lula da Silva.
Liderança no primeiro turno, mas sem vitória garantida
Com a totalidade das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 45,16%. A diferença entre os candidatos é de aproximadamente 2,2 milhões de votos, segundo a contagem final do Tribunal Superior Eleitoral, conforme reportado por Poder360 e O Globo. Para vencer no primeiro turno, um candidato precisa ultrapassar a marca de 50% dos votos válidos.
Argentina e Brasil: uma relação comercial estratégica
O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina ininterruptamente desde 1991, conforme dados do Infobae de julho. O comércio bilateral atingiu impressionantes US$ 31,2 bilhões em 2025, o maior valor desde 2013. A Argentina exportou bens no valor de US$ 12,8 bilhões para o Brasil e importou US$ 18,4 bilhões, resultando em um déficit de cerca de US$ 5,7 bilhões. O trigo se destacou como a principal exportação agrícola, com um valor de US$ 1,2 bilhão, de acordo com a Bolsa de Comércio de Rosário.
No primeiro semestre de 2026, o Brasil absorveu 12,6% das exportações argentinas, superando China e Estados Unidos. Em contrapartida, forneceu 22,3% das importações argentinas, um percentual ligeiramente inferior ao da China. O setor automotivo opera sob um acordo bilateral que se estende até junho de 2029. Além disso, o Brasil figura como a quarta maior fonte de investimento estrangeiro direto na Argentina, conforme apontado pelo Infobae.
Expectativas do mercado financeiro argentino
O mercado financeiro de Buenos Aires, conhecido como “a City”, considera Flávio Bolsonaro como “o candidato preferido dos financistas em ambos os países”, de acordo com a visão do analista Christian Buteler, citado pelo iProfesional. Leonardo Chialva, sócio da Delphos Investment, acredita que um governo Bolsonaro aumentaria a probabilidade de “estabilidade ou apreciação do real”, o que aliviaria a pressão econômica sobre a Argentina. Um real mais forte tornaria os produtos argentinos mais competitivos e impulsionaria o turismo.
O analista Gustavo Ber prevê “uma reação positiva inicial” nos ativos argentinos, aguardando por maior clareza sobre as consequências da eleição brasileira. Essas projeções foram feitas na noite de domingo, antes da abertura do mercado em Buenos Aires na segunda-feira, 5 de outubro. O risco país argentino, que representa o prêmio pago pelos títulos da dívida argentina em relação aos Treasuries americanos, subiu de 408 para 655 pontos em 70 dias, segundo contagem do iProfesional.
Mercosul e a relação diplomática congelada
O Mercosul, bloco econômico formado principalmente por Brasil e Argentina, poderia se fortalecer com governos alinhados, priorizando comércio e investimento em detrimento de divergências políticas, segundo as expectativas do iProfesional. No entanto, a relação diplomática entre os países está tensa. Em julho, durante o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, Milei chamou Lula de “ladrão” e “presidiário”, conforme noticiado pelo La Nación.
Em resposta, o Brasil recolheu seu embaixador e, em 4 de agosto, a embaixada passou a operar sob um encarregado de negócios, um diplomata de menor escalão. O embaixador argentino deixou Brasília dias depois. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a relação diplomática entre os países está em um ponto baixo, com os embaixadores ainda não retornados aos seus postos em 2 de outubro, conforme reportado pelo La Nación. A situação pode se complicar ainda mais para Milei em Washington, com a possibilidade de um governo Bolsonaro competir por apoio de Donald Trump, um risco destacado em 4 de outubro.
O que acontece a seguir
O segundo turno em 25 de outubro definirá o futuro presidente do Brasil. Até lá, a declaração de Milei permanece como uma aposta política, sem implicações diretas em acordos comerciais ou diplomáticos. A ausência de embaixadores em seus postos, conforme reportagem do La Nación em 2 de outubro, evidencia o congelamento das relações. Uma vitória de Lula deixaria Milei diante de um governo que ele comparou, em setembro, a uma “crise de 2001” argentina, devido ao déficit orçamentário.
Flávio Bolsonaro havia expressado a intenção de convidar Milei ao Brasil caso vencesse, segundo o portal Ámbito. Esse convite, agora, depende do resultado da votação de 25 de outubro. Para os investidores, o próximo indicador será o desempenho do real e dos títulos argentinos nesta semana. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a relação comercial é vital para a Argentina, e um alinhamento político poderia trazer benefícios econômicos e estabilidade.


