Mercado de trabalho dos EUA surpreende, mas revisões e crise na OTAN acendem alerta

O mercado de trabalho dos Estados Unidos apresentou um cenário contraditório em março, com um número de vagas surpreendentemente alto, mas com revisões negativas em meses anteriores e um pano de fundo de incertezas geopolíticas. A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) enfrenta uma crise sem precedentes com ameaças de retirada de seus membros, enquanto o risco de recessão e a instabilidade no mercado imobiliário continuam a preocupar. Conforme divulgado pelo Bureau of Labor Statistics, a criação de empregos não agrícolas superou todas as estimativas, mas as revisões dos meses anteriores pintam um quadro mais sombrio, e as tensões internacionais adicionam uma camada extra de complexidade para investidores e governos.

O relatório de empregos de março nos EUA, divulgado na sexta-feira de Páscoa, registrou a criação de 178.000 novas vagas, um número significativamente superior à projeção de 60.000. A taxa de desemprego caiu para 4,3%. O setor de saúde, impulsionado pelo retorno de enfermeiros após greves, liderou a recuperação, seguido pela construção e pelo setor de transporte e logística. Contudo, a euforia gerada pelo número positivo é temperada por revisões preocupantes nos dados de meses anteriores. O mês de fevereiro, que inicialmente mostrava uma perda de 92.000 empregos, foi reavaliado para uma queda ainda maior de 133.000 postos de trabalho, uma deterioração de 41.000 vagas. Janeiro, por outro lado, teve uma revisão positiva, saindo de 126.000 para 160.000 empregos criados. Esse padrão volátil, com meses fortes e fracos, dificulta a identificação de uma trajetória clara para o mercado de trabalho, refletindo impactos de greves, clima e choques energéticos, conforme apontado pela análise da CreditSights. O Campo Grande NEWS checou que essa volatilidade é um fator de atenção para os mercados.

Dependência do setor de saúde e riscos de recessão

A análise mais profunda do relatório revela uma dependência crescente do setor de saúde para a geração de empregos. Sem ele, a economia americana teria perdido mais de meio milhão de empregos no último ano. Nela Richardson, economista-chefe da ADP, alerta que muitos desses empregos em saúde são de baixa remuneração e não contribuem significativamente para o consumo. A recuperação em março foi, em grande parte, um reflexo do fim de greves e da demanda demográfica, não de uma força econômica generalizada. O governo federal e o setor de informação continuam a apresentar quedas no número de empregos. Para investidores latino-americanos, o forte dado de março é um ponto positivo para a tese de um pouso suave, mas a revisão negativa de fevereiro reforça os riscos de recessão. A abertura dos mercados na segunda-feira será crucial para definir qual narrativa prevalecerá.

Crise na OTAN e suas implicações para a região

Paralelamente à economia, a política externa americana também vive momentos de tensão. O ex-presidente Donald Trump ameaçou retirar os EUA da OTAN, classificando a aliança como um “tigre de papel”, e condicionou o fornecimento de armas à Ucrânia à reabertura do Estreito de Ormuz. Essa postura gerou uma crise transatlântica, com cinco países europeus proibindo o espaço aéreo militar americano para operações relacionadas ao Irã. A Secretária de Estado, Rubio, indicou que o governo “terá que reexaminar o valor da OTAN”. As implicações políticas internas são amplas, com republicanos históricos da aliança em conflito com a posição de Trump e democratas ganhando um novo flanco de ataque contra o governo. A legislação atual exige aprovação do Congresso para a retirada da OTAN, o que pode gerar um confronto constitucional. Para a América Latina, essa crise na OTAN tem três implicações: a possibilidade de um freio legislativo às políticas externas presidenciais, a reorientação militar dos EUA com potencial para maior engajamento no hemisfério ocidental ou um vácuo que a China poderia preencher, e a conexão entre segurança e política comercial, com ameaças de Trump de usar compromissos de segurança para obter concessões, um precedente que pode afetar relações bilaterais na região, como o Campo Grande NEWS já havia noticiado.

Recessão à vista apesar dos dados de empregos

Apesar do otimismo gerado pelo relatório de empregos de março, diversas instituições financeiras, como Goldman Sachs, Moody’s e EY-Parthenon, aumentaram suas projeções para a probabilidade de recessão nos próximos 12 meses. A taxa de contratação caiu para 3,1% em fevereiro, o menor índice desde o início da pandemia em 2020. Isso indica que as empresas pararam de contratar em massa, mesmo que não estejam demitindo em larga escala. A EY-Parthenon descreve um “mercado de trabalho largamente congelado em 2026, com contratações seletivas, crescimento salarial comprimido e redimensionamento estratégico da força de trabalho”. O JPMorgan alerta que “leituras negativas de folha de pagamento em qualquer mês se tornarão mais comuns”. O período de pesquisa para o relatório de março antecedeu o pico dos preços do petróleo, e o relatório de abril já capturará o impacto total do Brent a mais de US$ 107. Para investidores latino-americanos, o aumento nas probabilidades de recessão nos EUA implica em uma potencial redução da exposição a mercados emergentes, busca por ativos de refúgio e fortalecimento do dólar, além de menor demanda por bens importados da região.

Mercado imobiliário em desaceleração e taxas de hipoteca

O forte relatório de empregos de março, paradoxalmente, piora as perspectivas para o mercado imobiliário. O rendimento dos Treasuries subiu para 4,35%, e as taxas de hipoteca, que acompanham o rendimento de 10 anos, tendem a seguir essa tendência de alta. Um mercado de trabalho robusto diminui a probabilidade de cortes nas taxas de juros, mantendo os rendimentos elevados e afastando as taxas de hipoteca dos níveis necessários para reativar o setor. Aproximadamente 77% das hipotecas existentes nos EUA possuem taxas abaixo de 5,5%, o que desincentiva a venda de imóveis. O volume de transações está em mínimas históricas, os preços das casas permanecem artificialmente altos devido a restrições de oferta e a construção de novas moradias não se justifica diante da lentidão na venda do estoque existente. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a trajetória das taxas de hipoteca impacta diretamente as avaliações de propriedades em 2026, e a desaceleração na construção pode afetar a demanda por materiais de construção da América Latina, como madeiras brasileiras, cimento mexicano e pedra colombiana. O mercado imobiliário está preso em um ciclo vicioso onde bons dados econômicos pioram o cenário do setor.

Boicotes canadenses e pressão sobre os EUA

Os boicotes provinciais canadenses a produtos americanos, como cerveja, vinho e destilados, além de uma queda acentuada no turismo canadense para a Flórida e o Arizona, estão causando danos econômicos reais nos estados fronteiriços e nas economias do Cinturão do Sol. O governo Trump respondeu com um recuo em tarifas sobre produtos alimentícios e promessas de pagamentos. A estratégia canadense de “silêncio de rádio” em negociações comerciais tem ressonância doméstica enquanto a popularidade de Trump declina. O Fraser Institute sugere que “paciência e tempo” foram as melhores táticas do Canadá no primeiro mandato de Trump, e a pressão das eleições de meio de mandato pode forçar concessões. No entanto, a própria economia canadense, com PIB abaixo de 1%, não pode sustentar o boicote indefinidamente. Para investidores latino-americanos, o boicote canadense oferece um modelo de ação do consumidor direcionada a produtos simbólicos, gerando pressão política sem desestabilizar cadeias de suprimentos integradas. O Plano de Ação Canadá-México para a revisão do USMCA em 1º de julho coordenará o posicionamento na região, e todos os exportadores latino-americanos com exposição à cadeia de suprimentos norte-americana têm interesse em uma frente unida contra divisões impostas por Washington. O Campo Grande NEWS acompanha de perto essas dinâmicas comerciais.

A abertura dos mercados na segunda-feira promete ser a sessão mais densa em informações de 2026, concentrando dados de emprego, prazos de 6 de abril, decisões da OPEP+, votação da ONU sobre Ormuz, a crise da OTAN e desenvolvimentos militares do fim de semana, tudo precificado nos primeiros 30 minutos. Para investidores latino-americanos, o dado de +178.000 empregos apoia um rali de “pouso suave”, mas a revisão de -133.000 e a dependência do setor de saúde indicam fraqueza estrutural persistente. O Federal Reserve manterá as taxas de juros, fortalecendo o dólar e elevando as taxas de hipoteca. A crise da OTAN cria precedentes de segurança transacional relevantes para todos os países latino-americanos com parcerias militares dos EUA. A estratégia de boicote do Canadá oferece um modelo de resistência comercial direcionada que será testado na revisão do USMCA em 1º de julho. Esta análise será retomada após a Páscoa com a resposta: o número de +178.000 empregos foi o início da recuperação, ou o último bom número antes da chegada do choque energético?