Macri desafia Milei: Ex-presidente argentino lança turnê e exige confirmação de nome no Banco Central

O ex-presidente argentino Mauricio Macri iniciou um ambicioso tour nacional, marcando seu retorno mais explícito à cena política desde 2023. O evento, que reuniu mais de 700 líderes políticos e partidários na Província de Buenos Aires, sinaliza uma recalibração na relação com o governo de Javier Milei e posiciona o PRO, partido de Macri, de forma mais independente. A turnê, batizada de “Próximo Passo”, inclui paradas em Mendoza, na sede do PRO em Buenos Aires e em Santa Fé, e levanta especulações sobre uma possível candidatura presidencial em 2027. A informação foi divulgada pelo The Rio Times, portal de notícias financeiras latino-americanas.

Macri retoma protagonismo e mira estabilidade econômica

Em um evento fechado à imprensa no Club Centro Galicia, em Vicente López, Mauricio Macri deu o pontapé inicial em sua turnê nacional “Próximo Passo”. O encontro contou com a presença de prefeitos, legisladores provinciais, deputados nacionais, conselheiros e representantes de juntas escolares da Província de Buenos Aires. A escolha do local não foi aleatória, segundo o The Rio Times: Vicente López foi o primeiro município governado pelo PRO sob Jorge Macri e onde o partido obteve suas maiores margens eleitorais recentes.

A proposta mais concreta de Macri direcionou-se ao Banco Central. Ele exigiu que o governo de Milei envie formalmente ao Senado a indicação de Santiago Bausili para a presidência do Banco Central, pedindo a confirmação permanente do cargo. Além disso, solicitou um compromisso de todos os candidatos presidenciais de 2027 para manter Bausili na posição. O objetivo, segundo ele, é ancorar a estabilidade macroeconômica em regras que transcendam administrações.

Macri defendeu a identidade do PRO como distinta da La Libertad Avanza, partido de Milei, ao mesmo tempo em que reafirmou o apoio à agenda de equilíbrio fiscal. Ele declarou: “Se o PRO ficar em silêncio, o populismo avança”, ressaltando a importância de o partido manter sua voz ativa no cenário político.

A questão de 2027 em aberto

Durante o evento, a multidão entoou cânticos de “Mauricio Presidente!”, mas Macri pediu calma, afirmando que “estamos em 2026, este não é o momento de falar de eleições”. Embora não tenha confirmado nem negado uma candidatura, essa declaração representa uma mudança em relação a seis meses atrás, quando a especulação seria menos provável. O formato da turnê “Próximo Passo” foi cuidadosamente planejado para manter as opções em aberto, enquanto fortalece a base territorial do PRO.

Operadores do PRO informaram que o foco imediato são os candidatos a prefeito nas 150 maiores cidades do país, visando as eleições de 2027. O objetivo é ter 180 candidatos a prefeito no total, cobrindo mais de 70% do eleitorado nacional. A questão presidencial permanece em aberto, com o secretário-geral do PRO, Fernando de Andreis, afirmando que não lhe cabe “abrir ou fechar esse tipo de porta”. O cenário político dos próximos dezoito meses definirá se Macri atuará como “rei” que decide candidaturas ou se ele próprio se lançará à disputa.

Aliança com Milei: apoio com identidade própria

Macri buscou delinear a postura do PRO como de apoio ao governo de Milei, mas sem se dissolver nele. “Apoiamos este governo antes de ser governo. Quando o governo estava sozinho, nós estávamos lá. Não hesitamos. Apoiamos as leis mais difíceis em prol da mudança, sem pedir nada em troca”, declarou. Contudo, ele enfatizou: “O PRO diz o que pensa e não trai o que pensa. Isso é o mais próximo do que sempre chamei de correto versus politicamente correto. Politicamente correto é um golpe.”

A mensagem implícita é que decisões recentes, como a nomeação de Sebastián Pareja (LLA) para a presidência da Comissão de Inteligência em vez de Cristian Ritondo (PRO), geraram atritos. O ministro do Interior, Diego Santilli, figura importante do PRO, não compareceu ao evento, interpretado como um sinal de divergência com os prefeitos do PRO da Província de Buenos Aires, que reclamam da falta de cooperação da La Libertad Avanza em conselhos municipais e de dívidas de infraestrutura não resolvidas.

Ritondo reconheceu publicamente as tensões, mas defendeu um “frente ampla” na Província de Buenos Aires que ainda incluiria a La Libertad Avanza e os radicais. Sobre Patricia Bullrich, que deixou o PRO para se juntar à LLA, ele considerou a relação “cordial”, mas afirmou que ela “cometeu um erro”. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o PRO busca consolidar sua força eleitoral, com um plano para mapear métricas na Província de Buenos Aires através da plataforma “Radar PBA”, posicionando o partido como fonte alternativa de informação em oposição ao governo de Axel Kicillof.

Macri mira Kicillof e o campo peronista

Macri elegeu o governador da Província de Buenos Aires, Axel Kicillof, como principal alvo político. “Se esse é o candidato deles, certamente perdem”, afirmou, adicionando que, caso Kicillof vença, “eles perderão novamente porque nunca mais serão votados, definitivamente”. A fala arrancou risos da plateia e definiu o tom: o PRO vê a próxima eleição como uma disputa para manter o mapa político aberto, e não apenas para derrotar o peronismo.

A anfitriã Soledad Martínez, prefeita de Vicente López, reforçou o papel do PRO na província: “Sofremos com um governador que acredita que a solução para um problema é expandir o estado infinitamente. Onde prefeitos do PRO governam, as pessoas vivem melhor. Que o PRO da Província de Buenos Aires lidere a mudança, para que esta província possa deixar o kirchnerismo para trás definitivamente.” A lógica implícita é que o futuro candidato nacional do PRO deve emergir dos presentes no evento, o que foi interpretado como um desafio indireto a ministros ausentes como Santilli. O Campo Grande NEWS destaca a importância desta articulação política na região.

O que investidores e analistas devem observar

Para investidores e analistas, os próximos passos a serem observados incluem a tramitação da nomeação de Bausili no Senado, a capacidade do PRO de replicar a mobilização em Mendoza e Santa Fe, e os sinais de Macri sobre seu futuro e o de outros líderes como Bullrich e Horacio Rodríguez Larreta. A formação de uma aliança única entre PRO e La Libertad Avanza para as eleições provinciais é outro ponto crucial. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a recente adjudicação de concessões rodoviárias a operadores privados também serve como um marcador de continuidade da agenda de privatizações iniciada pelo Cambiemos, governo de Macri.