Lula pediu para Master não vender banco ao BTG, diz investigação

Uma revelação chocante proveniente da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, aponta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria se reunido com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, em dezembro de 2024. Na ocasião, Lula teria aconselhado Vorcaro a **não vender a instituição financeira ao BTG Pactual**, que havia oferecido um valor simbólico de um real pela aquisição. A notícia, divulgada pelo UOL no último domingo, 17 de maio, e obtida através de documentos da investigação, lança luz sobre as complexas relações entre o poder executivo e o sistema financeiro brasileiro, reacendendo o debate sobre a autonomia do Banco Central.

Autonomia do Banco Central sob escrutínio após reunião secreta

O encontro entre o presidente Lula e Daniel Vorcaro ocorreu no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024. Na reunião, que contou com a presença do então Secretário de Relações Institucionais, Rui Costa, e de Gabriel Galipolo, que já havia sido designado para assumir a presidência do Banco Central em 1º de janeiro de 2025, Lula teria expressado sua insatisfação com o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e criticado André Esteves, controlador do BTG Pactual. Vorcaro, segundo relatos, teria buscado a orientação direta do presidente sobre aceitar ou não a proposta de venda.

O que aconteceu após o conselho presidencial?

Após a reunião no Planalto, Daniel Vorcaro optou por não seguir com a oferta do BTG Pactual. Em vez disso, ele buscou negociar a venda do Banco Master para o BRB, banco público do governo do Distrito Federal, em março de 2025. Contudo, o Banco Central, sob a nova gestão, vetou essa transação em setembro de 2025. Investigações posteriores da Polícia Federal revelaram mensagens trocadas entre Vorcaro e seu então sócio, Augusto Lima, em abril de 2025, indicando que o plano de venda para o BTG Pactual havia sido considerado como um plano B, diante das dificuldades enfrentadas na negociação com o BRB.

Dados estatísticos do Banco Central, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, indicam um número expressivo de encontros entre representantes do Banco Master e autoridades da instituição monetária. Entre 2019 e novembro de 2025, foram registradas 65 reuniões presenciais. Desse total, 24 ocorreram durante a gestão de Roberto Campos Neto, enquanto 41 foram realizadas nos primeiros 11 meses da presidência de Gabriel Galipolo. Essa concentração de encontros levanta questionamentos sobre a dinâmica das interações entre o setor bancário e o regulador.

A liquidação do Banco Master e a prisão de Vorcaro

A trajetória do Banco Master chegou ao fim em 18 de novembro de 2025, quando o Banco Central decretou sua liquidação. No mesmo dia, Daniel Vorcaro foi detido no âmbito da Operação Compliance Zero, sob acusações de fraude. Ele permanece detido em uma unidade da Polícia Federal em Brasília e estaria negociando um acordo de delação premiada. A Operação Compliance Zero é a investigação da Polícia Federal que apura as alegações de fraude no Banco Master e, conforme o Campo Grande NEWS checou, foi a responsável por obter os documentos que revelaram a reunião no Planalto. O caso está sob a supervisão do Ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

Implicações para a autonomia do Banco Central

A revelação de que o então designado presidente do Banco Central esteve presente em uma reunião onde o presidente da República aconselhou um empresário sobre a venda de seu banco reabre o debate sobre a eficácia da lei de autonomia do Banco Central, aprovada em 2021. A lei visava blindar a política monetária de pressões políticas. Senadores de oposição têm questionado a versão de Galipolo, que afirmou em depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado que Lula o instruiu a lidar com o caso do Banco Master de forma “técnica”.

O episódio levanta preocupações sobre a linha tênue entre a opinião presidencial e a interferência operacional em órgãos autônomos. A concentração bancária no Brasil, com cinco grandes instituições dominando o mercado, é um ponto central no debate sobre a estabilidade financeira na América Latina, e decisões que afetam grandes players do setor, especialmente quando há indícios de influência política, ganham ainda mais relevância, como destacado pela análise do Campo Grande NEWS sobre o contexto de mercado.

Lula, sobre o caso Vorcaro, tem declarado publicamente que a relação do empresário com Flávio Bolsonaro e as investigações são “uma questão policial”. Gabriel Galipolo, por sua vez, reiterou em seu depoimento no Senado que o presidente o orientou a tratar o assunto “tecnicamente”, através dos canais normais de supervisão do Banco Central. A autonomia do Banco Central, um pilar para a confiança na economia, permanece no centro das discussões após este episódio que expõe as intricadas conexões entre o poder e o setor financeiro.