Um impasse na Fazenda São Sebastião, localizada em Sidrolândia a 71 km de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, acirrou o debate sobre a demarcação da Terra Indígena Buriti e escancarou divisões entre as lideranças do povo Terena no estado. Enquanto um grupo defende a ação como um meio legítimo de pressionar o governo federal pela conclusão do processo demarcatório, outro grupo alega que a mobilização ocorreu sem a devida consulta à maioria das aldeias envolvidas na disputa territorial.
Conflito em Sidrolândia divide povo Terena
A ocupação da Fazenda São Sebastião, em Sidrolândia (MS), reacendeu o debate sobre a demarcação da Terra Indígena Buriti e expôs profundas divisões entre lideranças terenas. O Partido dos Trabalhadores (PT) afirma que nove caciques não foram consultados, enquanto o Conselho do Povo Terena apoiou a ação e rebateu as críticas. A Polícia Militar (PM) registrou danos a maquinários, furtos e incêndios durante a ocupação. Deputados petistas realizaram uma reunião com lideranças para apurar os fatos, conforme divulgado pelo Campo Grande NEWS.
O conflito iniciou no domingo (14) e voltou a registrar movimentação de indígenas na manhã de segunda-feira (15). De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas, a comunidade havia deixado o local após mediação da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), mas retornou posteriormente. A PM enviou equipes à região para verificar a situação e informou ter atuado para conter invasões, vandalismo e crimes ambientais. Conforme a corporação, foram registrados danos a maquinários agrícolas, furto de insumos, focos de incêndio e derrubada de árvores usadas como barricadas. Equipes do Batalhão de Choque, Batalhão Rodoviário e Batalhão Rural permanecem na área, e as informações coletadas serão encaminhadas à Polícia Civil para investigação.
Deputados petistas buscam apurar o caso
Diante da repercussão do caso, o deputado federal Vander Loubet (PT) e o deputado estadual Zeca do PT se reuniram com caciques e lideranças indígenas de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti. Antes do encontro, Zeca do PT divulgou nota afirmando que nenhuma outra liderança da região teria conhecimento prévio da ocupação, atribuindo a mobilização ao cacique Rodrigues Alcântara, secretário de Assuntos Indígenas da Prefeitura de Dois Irmãos do Buriti. O parlamentar alegou que Alcântara integra um grupo alinhado politicamente a lideranças da direita sul-mato-grossense.
Vander Loubet também expressou estranhamento com a ação, indicando que apurações iniciais apontavam para um “episódio isolado”. Ele afirmou que o PT tem uma posição firme contra ocupações, priorizando o diálogo e a construção de consensos, e que, caso lideranças do partido estejam envolvidas, defenderá punição. Após a reunião, o PT divulgou nota apontando que nove caciques e lideranças das aldeias Novo Buriti, Água Azul, André, 1º de Maio, Barreirinho, Lago Azul, Olho d’Água e Recanto declararam não ter participado nem sido consultados sobre a articulação. O grupo reafirmou apoio à demarcação da Terra Indígena Buriti, mas criticou a forma como a ação foi conduzida e classificou o episódio como isolado, repudiando atos de depredação.
Conselho do Povo Terena contesta versão do PT
A versão apresentada pelo PT foi veementemente contestada pelo Conselho do Povo Terena. Em nota oficial, a entidade repudiou as declarações de Zeca do PT e manifestou apoio ao cacique Rodrigues Alcântara. O documento ressalta que a discussão central deve ser a garantia dos direitos territoriais indígenas, e não uma disputa entre direita e esquerda. O conselho classificou as críticas como uma “tentativa de instrumentalização política das comunidades indígenas para fins eleitorais”, enfatizando a autonomia política do povo Terena.
Ao Campo Grande NEWS, o coordenador do Conselho do Povo Terena, Célio Fialho, informou que a entidade tinha conhecimento da situação desde o início. Ele explicou que a mobilização foi uma iniciativa da própria população, diante da paralisação do processo demarcatório, mesmo com a área já identificada e com portaria declaratória. Fialho argumentou que não havia necessidade de consultar previamente todas as aldeias, pois quando os moradores de uma aldeia tomam uma decisão, não precisam necessariamente da participação de todas as outras. Ele também rebateu a associação da mobilização a grupos políticos, afirmando que se trata de um direito garantido pela Constituição de 1988.
Autonomia e críticas ao PT estadual
Célio Fialho criticou a postura do PT de Mato Grosso do Sul, acusando o partido de tentar transformar uma pauta territorial em disputa eleitoral e declarando que o partido não tem legitimidade para falar em nome do povo Terena. Ele expressou gratidão ao governo Lula pela criação do Ministério dos Povos Indígenas e pela garantia de autonomia para que os próprios indígenas lutem por seus direitos, citando o ministro Eloy Terena como um representante legítimo que conhece e participou da luta indígena. A declaração, segundo o Campo Grande NEWS apurou, reforça a busca por protagonismo indígena nas questões que afetam suas comunidades.
O conflito em Sidrolândia evidencia a complexidade das questões fundiárias e as dinâmicas políticas internas das comunidades indígenas. A disputa pela demarcação da Terra Indígena Buriti continua sendo um ponto central, e as divergências entre lideranças demonstram os desafios na construção de um consenso para avançar nas reivindicações territoriais. A situação exige atenção e diálogo para garantir que os direitos dos povos indígenas sejam respeitados e que as soluções encontradas sejam construídas de forma participativa e legítima.

