Intervenção revela Consórcio Guaicurus com R$ 415 mil em caixa para pagar R$ 1 milhão em salários

A intervenção da Prefeitura de Campo Grande no Consórcio Guaicurus expôs uma realidade financeira alarmante. Em 16 de junho de 2026, a gestão interina encontrou apenas R$ 415.198,44 em contas bancárias, um valor insuficiente para cobrir a folha de pagamento de R$ 1.035.784,72 que venceria quatro dias depois. O cenário, detalhado em um relatório preliminar de 177 páginas, também revelou que praticamente todo o limite de crédito bancário estava comprometido e o estoque de diesel em nível crítico, ameaçando a continuidade das operações de transporte público. Conforme informações divulgadas, o diagnóstico aponta para um déficit operacional crônico e falhas de governança.

Crise financeira exposta pela intervenção

O diagnóstico elaborado pela equipe de intervenção, que assumiu a gestão do transporte coletivo urbano em 16 de junho, foi entregue à Prefeitura e à Câmara Municipal. O documento detalha a situação encontrada, com R$ 147.679,28 no Bradesco e R$ 267.519,16 no Sicredi, enquanto o Santander apresentava saldo zero. A discrepância entre o caixa disponível e o compromisso salarial imediato era gritante, representando apenas cerca de 40% do necessário para o adiantamento dos trabalhadores, previsto para o dia 20 de cada mês.

Crédito bancário e diesel em nível crítico

A fragilidade financeira se estendia ao acesso a crédito. As linhas de Conta Garantida junto ao Bradesco e Santander somavam R$ 11,8 milhões, dos quais R$ 11,73 milhões já estavam utilizados, o que equivale a aproximadamente 99% do limite. No Santander, de um limite especial de R$ 1,33 milhão, R$ 1.227.911,04 já estavam comprometidos (cerca de 92%). Paralelamente, o estoque de óleo diesel encontrava-se em nível crítico, com combustível suficiente para pouquíssimo tempo de operação, em um sistema que consumia em média 26 metros cúbicos por dia. A aquisição de combustível tornou-se um processo de gestão considerado crítico pela equipe, especialmente diante da descoberta de que a compra através de um Transportador-Revendedor-Retalhista resultava em um preço aproximadamente R$ 0,50 por litro superior ao da aquisição direta junto a distribuidoras, gerando um custo adicional de mais de R$ 400 mil mensais.

Déficit operacional crônico e falhas de governança

A análise financeira revelou um quadro de déficit operacional crônico, onde as receitas tarifárias eram insuficientes para cobrir as despesas operacionais. Isso gerava uma dependência contínua de aportes das próprias empresas consorciadas para manter as atividades. No momento da intervenção, a margem de liquidez era praticamente nula, dificultando o pagamento de fornecedores essenciais e compromissos salariais. O relatório também apontou fragilidades nos processos de controle financeiro, como a dependência de lançamentos manuais para conciliação de pagamentos e baixa de valores no sistema ERP Globus. A falta de segregação de funções, onde o mesmo profissional realizava e aprovava registros, a ausência de trilha de auditoria para alterações fora do fluxo padrão e a falta de conciliação bancária automatizada criavam um ambiente suscetível a erros ou fraudes, conforme o Campo Grande NEWS checou.

Prefeitura devia ao consórcio e dívidas expressivas

Apesar da crise de liquidez do consórcio, o levantamento mostrou que a Prefeitura de Campo Grande possuía débitos com o Consórcio Guaicurus. Em 16 de junho, o valor a receber era de R$ 6.628.072,23, referente a Passe Servidor, subvenção municipal e subvenção para estudantes estaduais. Esse passivo foi reduzido para R$ 4.888.640,04 em 15 de setembro. Adicionalmente, as empresas do consórcio apresentavam um saldo devedor consolidado de R$ 31,29 milhões perante a Receita Federal e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. O relatório também indica a necessidade de aprofundar a análise sobre movimentações financeiras e despesas entre empresas consorciadas e partes relacionadas, para verificar a real vinculação dessas operações à prestação do serviço público. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o diagnóstico ainda é preliminar e as conclusões podem ser alteradas.

Recomendação de reestruturação contratual

O relatório preliminar, que não atribui responsabilidade individual por problemas antes da conclusão de processos administrativos, sugere uma reestruturação substancial do contrato de concessão firmado em 2012. A equipe de intervenção recomenda a repactuação de termos técnicos, operacionais, jurídicos e econômico-financeiros. O cenário encontrado envolvia não apenas dificuldades financeiras, mas também problemas de governança, planejamento, controle, frota, manutenção e prestação do serviço. O processo administrativo buscará apurar as causas e eventuais responsabilidades pelas deficiências identificadas, conforme o Campo Grande NEWS checou, atestando a apuração aprofundada sobre a gestão do transporte público na cidade.