Gestantes em MS: perigosas viagens para o parto

A jornada para dar à luz em Mato Grosso do Sul se tornou uma odisseia perigosa para muitas gestantes. Em 13 municípios do estado, a falta de hospitais que realizem partos obriga futuras mães a percorrerem dezenas, por vezes centenas, de quilômetros em busca de assistência médica. Essa realidade, marcada por longos deslocamentos em ambulâncias e a angústia de um nascimento prematuro longe de casa, expõe a precariedade da infraestrutura de saúde materno-infantil em diversas regiões.

Estradas de risco para mães e bebês

A história de Kethelyn Mariany Artiaga de Souza, de 22 anos, ilustra dramaticamente essa situação. Grávida de sete meses, ela precisou percorrer 141 km de ambulância do Samu, de Camapuã a Campo Grande, em meio a um temporal, com o receio de que seu filho nascesse no meio do caminho. A viagem foi ainda mais tensa devido às paradas necessárias para monitoramento médico, um lembrete constante da fragilidade de sua condição.

Em 2023, Kethelyn já havia vivenciado a dor de perder um bebê em circunstâncias semelhantes. Moradora de Pontinha do Cocho, um distrito de Camapuã sem estrutura alguma para partos, ela sofreu a ruptura da bolsa com sete meses de gestação. A demora no socorro e no deslocamento resultou na perda do filho. “Demorou muito para chegar na cidade, perdi muito líquido e o meu filho morreu”, relata a jovem, evidenciando as consequências devastadoras da falta de acesso à saúde.

Dessa vez, a gravidez veio em dose dupla, com a descoberta de gêmeos durante o parto em Campo Grande. Os recém-nascidos estão na UTI, mas se recuperam bem. No entanto, a experiência de Kethelyn, e de tantas outras mulheres, expõe a dura realidade da “ambulancioterapia” em um estado onde 13 cidades não oferecem assistência ao parto, como apurou o Campo Grande NEWS.

A dura realidade dos municípios sem estrutura para partos

Conforme a Secretaria Estadual de Saúde (SES), os 13 municípios sem hospitais ou unidades hospitalares que realizem partos são: Dois Irmãos do Buriti, Nioaque, Bandeirantes, Corguinho, Jaraguari, Rochedo, Terenos, Ladário, Douradina, Taquarussu, Paraíso das Águas, Paranhos e Batayporã. Para essas gestantes, o deslocamento para centros de referência é a única opção.

Maria Roméria de Sá, 35 anos, de Terenos, viajava a Campo Grande a cada 15 dias, e depois semanalmente, para acompanhamento pré-natal. Moradora a 31 km da capital, ela utilizava a van da Saúde, que parte de madrugada. Maria, que tem diabetes e pressão alta, ressalta a importância do acompanhamento médico regular. “A gravidez vai passando, vai complicando mais”, afirma.

Cíntia Magalhães, 22 anos, moradora de Rio Verde de Mato Grosso, enfrentou uma viagem de 253 km de ambulância para dar à luz em Campo Grande. Após acompanhamento na cidade onde reside, ela foi levada a Coxim e, de lá, transferida para a capital para a realização da cesariana. Seus outros dois filhos ficaram em Rio Verde, aos cuidados da avó materna.

O sistema de saúde e as esperanças da Rede Alyne

A médica Isabela Pierezan explica que o sistema recebe o encaminhamento do médico da cidade de origem, com informações sobre o exame físico, histórico da paciente e idade gestacional. Contudo, nem todas as gestantes conseguem realizar o pré-natal completo. “A gente só recebe a ponta do iceberg”, lamenta a médica Rosineia Martos, enfatizando que muitos problemas começam na falta de diagnóstico e triagem adequada nas cidades de origem.

Em resposta a essa demanda, a SES elaborou o Plano de Ação Regional (PAR) da Rede Alyne. O programa prevê a habilitação de novos serviços, como Ambulatórios Especializados para Gestação e Puerpério de Alto Risco (AGPAR) em Campo Grande, Dourados, Jardim e Três Lagoas. A iniciativa também inclui a implantação de Centros de Parto Normal intra-hospitalares em Sidrolândia, Dourados e Três Lagoas, focados em assistência humanizada e parto normal para gestantes de baixo risco.

A Rede Alyne visa fortalecer o acompanhamento especializado pós-alta hospitalar, com foco no desenvolvimento infantil e na redução de intervenções desnecessárias. Nos 13 municípios sem estrutura para o parto, a assistência será organizada de forma regionalizada, com encaminhamento para serviços de referência. O programa também atualiza o financiamento de componentes da assistência materno-infantil, como UTIs neonatais, bancos de leite e casas de apoio, além de ampliar o acesso a ultrassonografias e exames de pré-natal.

A estratégia reforça a humanização do atendimento e o combate às desigualdades regionais e étnico-raciais, buscando garantir cuidado contínuo durante toda a gestação, parto, puerpério e primeira infância. A Rede Alyne, lançada em setembro de 2024, é uma reestruturação da antiga Rede Cegonha, com metas ambiciosas para reduzir a mortalidade materna, especialmente de mulheres negras, até 2027.

Prefeituras e os desafios locais

O prefeito de Camapuã, Manoel Nery, explica que a cidade possui centro cirúrgico e obstetra, mas carece de anestesista e UTI, o que leva à recomendação de partos em locais com essa estrutura para maior segurança. A Prefeitura de Terenos informa que, embora possua uma unidade de atendimento 24 horas, não há estrutura cirúrgica para cesarianas, sendo Campo Grande a referência, com possibilidade de parto normal em Terenos em casos de impossibilidade de transferência imediata.

O prefeito de Rio Verde de Mato Grosso, Réqus Fornari, destaca que o município realiza pré-natal e partos naturais e emergenciais. No entanto, devido à reforma do hospital municipal e à dificuldade em contratar anestesistas, cesarianas são realizadas em Coxim. A cidade busca recompor o quadro de anestesistas e espera normalizar a situação após a reforma, conforme informações apuradas pelo Campo Grande NEWS.

A busca por segurança e qualidade no atendimento é um direito de toda gestante. A situação em Mato Grosso do Sul, porém, demonstra os desafios enfrentados por muitas mulheres que precisam percorrer longas distâncias e superar obstáculos para garantir um parto seguro para seus filhos. A esperança reside nas ações governamentais e na melhoria da infraestrutura de saúde, como as propostas pela Rede Alyne, para que nenhuma gestante precise enfrentar uma jornada de risco em busca de assistência, como detalhado pelo Campo Grande NEWS.