Um ano após a trágica morte de Cipriano Pereira Quinhone, de 60 anos, atropelado pelo caminhão da própria empresa onde prestava serviços, a família ainda clama por justiça e respostas. O acidente, ocorrido em 17 de setembro de 2023, na Avenida Duque de Caxias, em Campo Grande, deixou um vazio imensurável, e as filhas do gari buscam entender as circunstâncias que levaram à perda do pai.
Enquanto a família tenta reconstruir a vida sem a figura paterna, o motorista envolvido no atropelamento, Paulo Lima dos Santos, teve sua rotina normalizada. A situação intensifica a dor e a sensação de injustiça para as filhas, que consideram a punição e a indenização acordadas desproporcionais à perda. Conforme divulgado pelo Campo Grande NEWS, a família luta para obter respostas sobre o ocorrido.
O laudo da Perícia Oficial apontou que o atropelamento aconteceu durante uma manobra de marcha à ré em condições de segurança inadequadas. Cipriano, que dedicou anos de sua vida ao trabalho como gari na Solurb, estava em serviço quando foi atingido. A dinâmica do acidente levanta questionamentos sobre os procedimentos de segurança da empresa, como aponta o Campo Grande NEWS em sua apuração.
O drama de uma família em busca de respostas
Gabriella Araujo Quinhone, de 31 anos, expressa a angústia da família diante das perguntas sem resposta. “Eu tenho inumeráveis perguntas sem resposta. O porquê aconteceu isso. Por que ele estava na Duque de Caxias, coletando no meio do canteiro? Por que ele parou o caminhão e deu ré?”, questiona, demonstrando a falta de clareza sobre os fatos que levaram à morte do pai.
A família alega que o motorista foi ouvido apenas uma vez, no dia do acidente, e que o inquérito foi concluído com base na perícia e em outras provas. A falta de comunicação e o sentimento de desamparo por parte da empresa agravam o sofrimento. O Campo Grande NEWS buscou contato com a empresa para obter esclarecimentos.
Edilaine Neri de Araújo, de 45 anos, outra filha de Cipriano, critica duramente a indenização de R$ 3 mil, dividida em dez parcelas de R$ 300, acordada na esfera criminal. “Uma punição de uma indenização de R$ 3 mil não é nenhum dinheiro. O que a gente esperava mesmo da Justiça é que ele fosse, de alguma forma, perder a CNH, que saísse do serviço, alguma coisa”, desabafa, evidenciando a discrepância entre a perda sofrida e a reparação oferecida.
O último dia de trabalho e a dinâmica do acidente
Na manhã de 17 de setembro de 2023, Cipriano estava em seu último dia de trabalho, recolhendo material de varrição, quando o caminhão da Solurb iniciou uma manobra de marcha à ré. O boletim de ocorrência registrado na época pela Polícia Militar informou que o trabalhador foi encontrado caído na pista, sem sinais vitais e com ferimentos graves.
O motorista do caminhão, Paulo Lima dos Santos, declarou não ter percebido o atropelamento, alegando que a posição em que estava o impedia de visualizar o gari. No entanto, a perícia, ao analisar os vestígios no local e a dinâmica do veículo, concluiu que o acidente ocorreu durante a manobra de ré, em condições de segurança inadequadas.
O laudo pericial foi categórico ao afirmar que o atropelamento foi causado pela manobra de ré do caminhão, realizada “quando as condições de segurança não eram favoráveis”. As lesões resultantes do impacto foram fatais para Cipriano, que dedicou sua vida ao trabalho e à família.
A memória de Cipriano e a busca por dignidade
Além da busca por justiça, as filhas relembram Cipriano como um homem bom, preocupado com os colegas e dedicado à família. Gabriella descreve o pai como alguém que sempre se preocupava em ajudar os companheiros de trabalho, oferecendo apoio financeiro ou material quando necessário. “Meu pai era uma pessoa muito, muito boa. Era muito preocupado e muito amigo dos colegas de trabalho”, conta emocionada.
Cipriano também era conhecido por seu amor por bicicletas, tendo pedalado pela vida sem interesse em veículos motorizados. A notícia de que ele havia sido atropelado por um caminhão gerou ainda mais incredulidade e dor. “Para os outros não vai ter diferença, mas para nós faz muita diferença. Ele era a última referência de família. Minha mãe se foi e ficou ele. Ele era nossa referência para tudo”, lamenta Edilaine.
Em nota oficial, a Solurb lamentou o acidente e informou ter cumprido todas as obrigações legais e rescisórias, além do pagamento do seguro de vida. A empresa declarou que respeita a decisão da família em buscar reparação judicial e que aguarda os trâmites legais. A Solurb reafirmou que mantém e aplica rigorosos procedimentos de segurança, incluindo treinamentos periódicos para seus colaboradores. A família, contudo, segue em busca de respostas e de uma reparação que considere a dimensão da perda, conforme apurado pelo Campo Grande NEWS.

