Galípolo: guerra no Irã testa credibilidade do BC contra inflação

O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípoli, apresentou um panorama desafiador para a política monetária do país, destacando a complexidade em discernir entre choques de oferta genuínos e seus efeitos secundários, especialmente em um cenário de expectativas de inflação desancoradas e um mercado de trabalho aquecido. A escalada da guerra no Oriente Médio, com o petróleo Brent ultrapassando os US$110 o barril, adiciona uma camada extra de pressão, testando a credibilidade da instituição em manter o controle inflacionário enquanto busca o afrouxamento monetário.

Desafios de Galípolo: Navegando a Tempestade Inflacionária

Em sua fala na 4ª Conferência Anual do BCB, em 13 de maio, Galípoli ressaltou que a tarefa de separar a origem das pressões inflacionárias é crucial. “Separar o que é efetivamente um processo de choque de oferta, seja por conflito geopolítico ou efeitos climáticos, de efeitos de segunda ordem que nos exigem uma vigilância ainda maior do que o normal, dado que temos uma economia com expectativas desancoradas e um mercado de trabalho apertado, não é um processo simples”, afirmou. Ele garantiu, contudo, que o Banco Central “continuará a dar essa resposta e não se desviará de seu objetivo de controlar o processo inflacionário”, conforme divulgado pelo Campo Grande NEWS.

A atual conjuntura exige uma análise fina. O BCB, ciente dos riscos, cortou a taxa Selic para 14,5% em 29 de abril, em uma decisão unânime de 25 pontos base, após um período de manutenção em 15%. A instituição se encontra em um delicado ato de equilíbrio, com a taxa ainda em níveis restritivos, mas com um ciclo de cortes em andamento, agora sob a sombra do choque do petróleo iraniano.

As projeções oficiais do BCB para o IPCA apontam para 4,6% em 2026 e 3,5% em 2027, ambas acima do teto da meta de 3% +/- 1,5 ponto percentual em 2026. O mercado, via Boletim Focus, projeta números igualmente elevados: 4,9% para 2026 e 4% para 2027. A inflação ao consumidor (IPCA-15) de abril já acelerou para 0,89%, impulsionada por pressões em alimentos e combustíveis, um sinal preocupante de que a inflação pode estar se tornando mais persistente.

Choque de Oferta vs. Efeitos de Segunda Ordem: A Distinção Crucial

Galípoli utilizou uma metáfora náutica para descrever a situação do Banco Central, que está “reforçando seu barco” para navegar em tempos adversos. Ele reconheceu que o “barco foi projetado para um tipo de tempestade diferente”, e que os choques sucessivos – pandemia, guerra na Ucrânia, clima e o conflito no Oriente Médio – colocaram a própria credibilidade do BC em risco. O presidente do BCB sinalizou claramente que a instituição não abandonará o ciclo de afrouxamento monetário, mas a continuidade dependerá da capacidade de distinguir pressões de oferta transitórias de efeitos duradouros em salários e preços. Essa distinção se torna mais difícil à medida que o IPCA acelera e o Brent permanece acima de US$110, como aponta o Campo Grande NEWS.

Um choque de oferta é uma contração súbita na disponibilidade de insumos que eleva os preços diretamente. A guerra no Irã, elevando o Brent, e as disrupções climáticas na produção de alimentos são exemplos clássicos. Tradicionalmente, os bancos centrais respondem a esses choques aceitando o aumento inicial de preços e aguardando sua dissipação, em vez de apertar a política monetária em meio à contração. Já os efeitos de segunda ordem são as consequências duradouras, como demandas salariais recalibradas, estratégias de precificação de empresas que incorporam novos custos e reajustes de contratos.

Por que o Cenário Brasileiro é Mais Complexo?

Galípoli apontou dois fatores estruturais que complicam a resposta do BC: as expectativas de inflação desancoradas e um mercado de trabalho apertado. As expectativas estão desancoradas porque as previsões do mercado para o IPCA em 2026, 2027 e até 2028 permanecem acima da meta de 3%. O Boletim Focus de maio projeta 4,9% para 2026 e 4% para 2027, ambos acima do teto de 4,5% da banda de tolerância. Quando as expectativas estão desancoradas, choques temporários tendem a se incorporar à trajetória inflacionária. O Campo Grande NEWS checou que a taxa Selic, embora em 14,5% após o corte de 29 de abril, ainda se mantém restritiva, e as projeções do BCB para o IPCA em 2026 (4,6%) e 2027 (3,5%) indicam uma confiança na desinflação futura, embora o mercado (4,9% em 2026) mostre-se mais pessimista.

O segundo complicador é o mercado de trabalho aquecido, com o desemprego próximo de mínimas históricas e crescimento real dos salários. Um mercado de trabalho apertado amplifica os efeitos de segunda ordem, pois os trabalhadores têm maior poder de barganha por reajustes salariais e as empresas enfrentam menor pressão competitiva para absorver aumentos de custos. Essa combinação torna o cenário atual mais desafiador do que episódios anteriores de choque de oferta.

O Caminho da Selic e o Risco à Credibilidade

A decisão unânime de cortar a Selic para 14,5% em 29 de abril refletiu um BC “desconfortável com o desancoramento das expectativas de inflação”, mas julgou que a postura restritiva acumulada era suficiente para um afrouxamento gradual. O consenso de mercado espera uma Selic terminal em torno de 13% até o fim de 2026, com o ritmo condicionado à evolução do choque iraniano. Galípoli indicou que o BCB está disposto a continuar cortando mesmo diante de um choque de oferta, mas apenas se os efeitos de segunda ordem não se materializarem. Indicadores como acordos salariais, persistência da inflação de serviços acima de 4% e o desancoramento das expectativas para 2027 e 2028 serão monitorados de perto. Se esses indicadores piorarem, o ciclo de cortes pode pausar ou reverter.

A declaração mais notável de Galípoli foi sobre a credibilidade do banco central. Ele reconheceu a “dissonância entre os números oficiais e o sentimento das pessoas”, após quatro choques sucessivos, que coloca os bancos centrais em uma “situação especialmente difícil”. Essa franqueza sinaliza que a instituição está ciente da lacuna entre as taxas de inflação publicadas e a experiência vivida pela população, e busca mitigar esses efeitos dentro dos limites da política monetária.

O que Investidores e Analistas Devem Observar

Os próximos passos incluem a reunião do Copom em junho, que definirá a continuidade dos cortes. O resultado completo da inflação de maio, a ser divulgado em 11 de junho, mostrará se a aceleração de gasolina e alimentos se estende a serviços. As expectativas do mercado para o IPCA em 2027 no Boletim Focus e as decisões de preços da Petrobras, que sinalizou disposição em aumentar os preços da gasolina se o Brent se mantiver alto, também serão cruciais. A nomeação dos diretores remanescentes do Copom pelo governo Lula também poderá sinalizar a preferência por políticas monetárias e impactar a trajetória do ciclo de afrouxamento.