Fórum Líbia-EUA em Benghazi: um passo para transformar diálogo em contratos

O segundo Fórum Líbia-EUA para Desenvolvimento e Reconstrução teve início em Benghazi no último domingo, 6 de setembro, marcando um momento significativo para a cooperação entre os dois países. O evento, que reúne autoridades líbias e americanas, executivos do setor privado, instituições de desenvolvimento e especialistas técnicos, tem como objetivo principal converter o contato político em contratos concretos, impulsionando a reconstrução e a diversificação econômica da Líbia.

A escolha de Benghazi como sede da segunda edição, após a primeira ter ocorrido em Washington em abril de 2025, é um movimento estratégico. A realização do fórum em solo líbio, especificamente no território administrado pelo governo do leste, envia uma mensagem clara sobre o reconhecimento de um interlocutor válido em um país ainda marcado pela divisão institucional. Essa decisão, conforme noticiado pelo Libya Herald, sublinha a importância de onde tais encontros acontecem, pois reflete quem está sendo tratado como contraparte nos acordos futuros.

A agenda do fórum abrange áreas cruciais para a recuperação e o desenvolvimento da Líbia. Os participantes discutirão projetos de infraestrutura e obras públicas, o setor de energia e comunicações, a modernização da saúde e da educação, além de estratégias para a diversificação econômica. A ambição declarada pelos organizadores é gerar resultados tangíveis, um afastamento do modelo da primeira edição, que, segundo o próprio relato, produziu majoritariamente diálogos. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a presença do governo americano, e não apenas de uma delegação comercial, confere um peso adicional ao evento, buscando superar os obstáculos históricos que impedem o fechamento de projetos.

Reabertura da Universidade de Benghazi simboliza esperança de reconstrução

Um dos marcos simbólicos do evento foi a reabertura da Universidade de Benghazi, ocorrida em 4 de setembro, um dia antes da chegada dos delegados. O campus foi completamente reconstruído após ter sido devastado durante os conflitos que assolaram a cidade. A reconstrução de infraestruturas como esta é um dos principais argumentos apresentados pelas autoridades do leste líbio a potenciais parceiros estrangeiros. É mais fácil demonstrar progresso através de um campus universitário restaurado do que através de um acordo de assentamento constitucional, que ainda é um desafio no país.

As preparações para o fórum foram cuidadosamente orquestradas. Segundo o Al Wasat, discussões entre Belqasim Haftar, responsável pelo esforço de reconstrução na região leste, e o conselheiro americano Massad Boulos foram essenciais para a organização do evento. Essa colaboração demonstra um esforço coordenado para garantir o sucesso do fórum e atrair investimentos significativos para a Líbia. O Campo Grande NEWS destaca que este tipo de articulação é fundamental para superar a complexidade do cenário líbio.

Por que os Estados Unidos estão envolvidos na reconstrução líbia

A Líbia possui as maiores reservas comprovadas de petróleo da África e sua localização geográfica estratégica, diretamente oposta à Itália e Grécia, a torna um ponto de interesse geopolítico e econômico. Em junho de 2026, a National Oil Corporation reportou uma produção de aproximadamente 1,49 milhão de barris por dia, o nível mais alto desde 2013. Além disso, a Líbia é um ponto de partida crucial para a migração através do Mediterrâneo Central, o que aumenta o interesse dos parceiros europeus, um fator que Washington pode utilizar em suas negociações. A presença americana no país é vista como uma forma de contrapor a influência de outras potências, como a Rússia, cujas redes têm atuado no país desde o período Wagner, e a Turquia, com forte presença no oeste líbio através de acordos de defesa e construção.

Washington busca estabelecer uma presença comercial sólida em um mercado com concorrentes já estabelecidos, como Egito e Emirados Árabes Unidos, que possuem relações de longa data no leste líbio. O fórum em Benghazi insere os Estados Unidos em um cenário já competitivo, mas com a vantagem de uma presença governamental explícita. O Campo Grande NEWS observa que a estratégia americana visa capitalizar sobre os interesses energéticos e migratórios da Líbia para fortalecer sua posição na região e garantir oportunidades de negócio para empresas americanas.

O que a Líbia espera obter do fórum

As autoridades líbias, em especial as do leste, buscam **capital, tecnologia e legitimidade** através deste fórum, nessa ordem de prioridade. Embora as instituições do leste possuam recursos provenientes de transferências de petróleo, o acesso a empresas de engenharia ocidentais e a linhas de crédito para exportação é limitado. A participação americana oferece um **dividendo reputacional significativo**, que o investimento doméstico por si só não consegue proporcionar. Ser reconhecido como um parceiro pelos Estados Unidos confere uma credibilidade internacional valiosa.

Enquanto isso, a administração de Trípoli também está ativa na atração de investimentos, recebendo uma missão comercial espanhola na mesma semana do fórum em Benghazi e programando um fórum de negócios coreano para o final do mês. Ambas as administrações estão competindo pela atenção e pelos investimentos de parceiros internacionais, buscando consolidar suas posições e impulsionar suas respectivas agendas de desenvolvimento. Essa competição paralela destaca a importância estratégica da Líbia no cenário global.

Os desafios ocultos da reconstrução líbia

Apesar do otimismo gerado pelo fórum, existem **obstáculos significativos** que não foram explicitamente anunciados. A contratação em um estado dividido apresenta complexidades legais: definir qual autoridade assina contratos, qual banco central realiza pagamentos e qual tribunal julga disputas são questões ainda em aberto. A exposição a sanções e os custos de conformidade continuam sendo barreiras para empresas americanas, que enfrentam um escrutínio rigoroso em Washington.

A **segurança** é outro fator de restrição. Embora exista um roteiro para a transição política na Líbia, ele ainda não resultou em um governo nacional capaz de garantir contratos de longo prazo. Adicionalmente, os **mecanismos de pagamento** representam um desafio. As receitas do petróleo fluem através das instituições em Trípoli, e os projetos no leste historicamente foram financiados por meio de arranjos que dificultam a auditoria por parte de entidades ocidentais. Estes fatores explicam, em parte, por que muitos projetos anunciados na Líbia não chegam a serem totalmente financiados.

O que observar nos próximos passos

O primeiro indicador de sucesso do fórum será a assinatura de memorandos de entendimento, e, crucialmente, a conversão destes em projetos financiados, em vez de meras declarações de intenção. A edição de 2025 produziu poucos resultados concretos em termos de obras realizadas. Em seguida, será importante observar se o crédito à exportação ou o financiamento de desenvolvimento dos EUA assumirão um papel ativo. As **contratadas privadas dificilmente liderarão investimentos sem cobertura de risco pública** neste mercado. Por fim, a resposta de Trípoli será um termômetro importante. Se a administração ocidental conseguir organizar um evento americano comparável, o tema da reconstrução se tornará mais uma arena de competição do que uma ponte de união entre as diferentes facções.