Fios emaranhados causam caos em Campo Grande: lei de 2019 é ignorada e prejuízos se acumulam

A paisagem urbana de Campo Grande tem sido dominada por um emaranhado de fios que não só desfiguram a cidade, mas também causam prejuízos e transtornos diários. Apesar de uma lei municipal em vigor desde 2019, que determina a organização da fiação, a retirada de cabos inutilizados e a regularização da ocupação dos postes, o problema persiste, afetando gravemente a vida de moradores e o funcionamento de empresas. Rompimentos frequentes, muitas vezes causados por caminhões que se enroscam na fiação baixa, deixam bairros inteiros sem energia elétrica e conexão com a internet, gerando perdas financeiras e muita frustração.

Lei de 2019 ignora o caos dos fios em Campo Grande

A situação se agrava com a aparente inércia na fiscalização e aplicação da Lei Complementar nº 348/2019. Esta legislação, que deveria garantir a organização e segurança da infraestrutura aérea, parece ter caído no esquecimento. O resultado são postes abarrotados de cabos em um emaranhado perigoso, onde a identificação dos responsáveis se torna quase impossível. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a lei prevê notificações às empresas responsáveis e multas em caso de descumprimento, além de prioridade na regularização de situações de risco, com intervenção em até 24 horas. Contudo, a realidade nas ruas contradiz o que determina a norma.

Comerciantes sofrem com interrupções constantes

Em bairros como Miguel Couto e Chácara Cachoeira, o problema é uma constante. Comerciantes relatam que a falta de energia e internet é quase semanal. Ysabelle Lemes, gerente da Auto Rodas, afirma que a situação é recorrente, com incidentes que chegam a durar horas. “Pelo menos uma vez por semana acontece alguma ocorrência. Infelizmente é muito comum acontecer um incidente com fios. Falta energia ou internet”, desabafa. Ela detalha que um rompimento recente deixou a empresa sem energia por pelo menos três horas, impactando diretamente o trabalho.

Os prejuízos vão além da simples interrupção do serviço. “Na semana passada ficamos sem energia por pelo menos três horas, quando um fio de energia se rompeu. Acho que esses fios todos enrolados contribuem para isso. Sem energia não tem como trabalhar, porque todos os equipamentos dependem dela”, explica Ysabelle. Ela complementa que, em um episódio anterior, um rompimento próximo a uma escola chegou a queimar o modem e o aparelho de telefone fixo da loja, forçando o atendimento apenas via WhatsApp.

Risco iminente e danos materiais

A falta de organização da fiação não representa apenas um incômodo, mas um perigo real. O rompimento de cabos pode causar curtos-circuitos, incêndios e ferimentos em pedestres e motoristas. Katiuscia Nasu, moradora do Bairro Chácara Cachoeira, presenciou um caminhão-cegonha se enroscar na fiação, espalhando cabos pela rua e sobre um carro estacionado. “Quando saímos para ver, tinha um monte de fios arrebentados na rua e em cima de um carro estacionado”, relata.

A consequência direta para sua residência foi o mau funcionamento da rede elétrica. “Tinha aparelho funcionando e outro não. O ar-condicionado do quarto do meu filho ligava, o do meu quarto não. A geladeira também não funcionava. Além disso, ficamos sem internet até a manhã desta segunda”, descreve Katiuscia. Apesar do susto e dos transtornos, a Clínica da Família da Cassems, localizada nas proximidades, informou que não sofreu interrupções, demonstrando a imprevisibilidade dos danos.

Responsabilidades e a ineficácia da fiscalização

A reportagem do Campo Grande NEWS constatou a persistência do problema em diversos pontos da cidade, com cabos antigos misturados a novas instalações, dificultando a identificação dos responsáveis. Diante deste cenário, questionamentos foram direcionados à Prefeitura de Campo Grande, à Agems e à Energisa MS. Em nota, a Energisa esclareceu que sua responsabilidade se limita à disponibilização dos postes, cabendo às empresas de telecomunicações a instalação e manutenção de suas redes. A concessionária afirmou que notifica empresas com irregularidades e pode remover cabos em casos de risco à segurança, além de estar em andamento um cronograma de regularização com previsão de término até o fim do ano.

A Prefeitura de Campo Grande e a Agems, por sua vez, não se manifestaram até o fechamento da matéria. Vale lembrar que, em novembro do ano passado, essas instituições promoveram o projeto “Limpa Fios” no quadrilátero central, uma iniciativa voltada à remoção de cabos soltos e irregulares. Na ocasião, um engenheiro da Agems destacou que a regulamentação da Aneel permite a retirada de cabos irregulares, sendo uma medida essencial para a segurança e organização. Conforme o Campo Grande NEWS checou, a falta de ação coordenada entre os órgãos competentes e as empresas de serviço parece ser o principal entrave para a solução definitiva deste problema que afeta a qualidade de vida e a economia de Campo Grande.