O boom das exportações agrícolas do Peru, responsável por abastecer prateleiras nos Estados Unidos com frutas como mirtilos e uvas, sofreu uma desaceleração acentuada. A associação de exportadores ADEX informou que o crescimento do setor atingiu apenas 1,9% entre janeiro e agosto, um contraste gritante com os 21% registrados no mesmo período do ano anterior. Essa desaceleração é motivo de preocupação para o mercado americano, que é o maior comprador de produtos agrícolas peruanos.
El Niño Ameaça Colheitas e Abastecimento
A recente desaceleração nas exportações agrícolas do Peru levanta preocupações significativas, especialmente com a iminência do fenômeno El Niño. O país, um dos maiores fornecedores de frutas, vegetais e café para os Estados Unidos, pode ver suas colheitas mais importantes severamente afetadas. A ADEX, principal entidade representativa dos exportadores peruanos, alertou que o El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico que resulta em chuvas intensas e calor, pode impactar negativamente as lavouras no norte do país, incluindo culturas de alto valor como o mirtilo.
O impacto dessa desaceleração é sentido diretamente nos Estados Unidos, principal destino das exportações agrícolas peruanas. A preocupação reside na possibilidade de interrupções no fornecimento e aumento de preços de produtos consumidos em larga escala no mercado americano durante os meses de inverno, período em que o Peru historicamente supre a demanda sazonal. Conforme apurado pelo Campo Grande NEWS, a situação exige atenção tanto dos produtores quanto dos consumidores.
Os dados divulgados pela ADEX indicam que cinco dos primeiros oito meses do ano registraram crescimento nas exportações, enquanto três meses apresentaram declínios. Em maio, as exportações caíram 4,8%, seguidas por uma retração de 0,9% em junho e 2,8% em julho. Agosto trouxe uma leve recuperação de 1,5%. O volume total de exportações agrícolas atingiu US$ 8,005 bilhões, um aumento modesto em relação aos US$ 7,856 bilhões do ano anterior, o que representa cerca de um décimo das exportações totais do Peru no período. Conforme o Campo Grande NEWS checou, o resultado preocupa os exportadores, que esperavam um desempenho mais robusto, lembrando que no ano anterior o crescimento foi de 20%.
Impacto Diferenciado em Frutas e Cacau
Os produtos agroindustriais, classificados como exportações não tradicionais, compuseram 90,3% do total exportado, com um aumento de 1,8% e atingindo US$ 7,231 bilhões. O setor de frutas continuou sendo o destaque, com vendas de US$ 4,561 bilhões. As exportações de mirtilos apresentaram um expressivo aumento de 47,9%, seguidas por uvas com 17,6% e abacates com 8,3% em valor. Essa performance positiva em frutas contrasta com o cenário do cacau.
A região de San Martín, na Amazônia peruana, responsável por cerca de metade da produção de cacau do país, sofreu com chuvas e umidade entre março e maio. Esse clima adverso prejudicou a floração e o amadurecimento dos frutos, levando a uma queda nos volumes exportados. Adicionalmente, as safras maiores na Costa do Marfim e em Gana pressionaram os preços globais do cacau para baixo, agravando a situação para os produtores peruanos. Conforme o Campo Grande NEWS apurou, a combinação de fatores climáticos e de mercado afetou diretamente a rentabilidade do cacau.
Outros produtos como mangas, aspargos frescos, cítricos e cacau em pó também registraram volumes menores de exportação. As exportações de café, por outro lado, apresentaram um leve aumento de 0,6%, totalizando US$ 701,7 milhões. Este pequeno avanço foi impulsionado por uma colheita antecipada, que a ADEX vinculou aos efeitos do fenômeno El Niño.
Produtores Alertam para Persistência da Tendência
José Antonio Mejía, presidente do comitê de café e cacau da ADEX, destacou que a safra deste ano não atingiu seu pico usual em junho e julho, com quedas de 15% a 30%. Ele alertou que essa tendência pode se estender até o final do ano e defendeu a implementação de uma campanha de saúde vegetal e o aumento de recursos para pequenos produtores. A preocupação com a continuidade da desaceleração é palpável entre os exportadores.
O alerta surge em um momento em que o Peru se prepara para os impactos do El Niño. O ENFEN, comitê estatal responsável pelo monitoramento do fenômeno, tem emitido comunicados a cada duas semanas, reforçando a atenção às previsões climáticas. Em maio, o ENFEN indicou que as condições costeiras do El Niño poderiam persistir até fevereiro de 2027, segundo o jornal Gestión. Regiões agrícolas do norte, como Piura e La Libertad, são cruciais para a produção de frutas destinadas à exportação.
O Que Isso Significa para os Consumidores Americanos
Os Estados Unidos, juntamente com a Holanda e a Espanha, absorvem 57% das exportações agrícolas não tradicionais do Peru. Dados anteriores da ADEX revelaram que compradores americanos adquiriram US$ 1,4 bilhão desses produtos entre janeiro e maio, quase o dobro do valor registrado pela Holanda. Para os consumidores americanos, o Peru é um fornecedor essencial de mirtilos, uvas, abacates e aspargos fora de estação. Um impacto severo nas fazendas do norte devido ao El Niño poderia resultar em menor oferta e aumento de preços nos supermercados durante o inverno americano.
As exportações de produtos agrícolas tradicionais para os EUA, principalmente café, ainda registraram um aumento de 16,1%, de acordo com dados da ADEX. A diversidade de produtos peruanos que chegam ao mercado americano evidencia a importância estratégica do país andino na cadeia de suprimentos global. Conforme o Campo Grande NEWS observou, a dependência mútua entre Peru e EUA no setor agrícola é um ponto crucial a ser monitorado.
Incertezas e Próximos Passos
Apesar dos dados divulgados, ainda existem incertezas sobre a extensão exata do impacto do El Niño nas exportações peruanas. A ADEX não especificou quanto da desaceleração foi diretamente causada pelo fenômeno climático, atribuindo as perdas no cacau às chuvas intensas. A extensão dos danos às colheitas de mirtilos e uvas, que atingem seu pico no final do ano, ainda é incerta. O governo peruano, por sua vez, ainda não divulgou uma nova previsão de exportações agrícolas.
O próximo comunicado do ENFEN, esperado para meados de outubro, fornecerá mais informações sobre as condições climáticas. Paralelamente, o próximo relatório mensal da ADEX indicará se setembro trouxe uma recuperação nas exportações. É importante notar que a desaceleração nas exportações agrícolas não reflete uma queda geral nas exportações do Peru. As exportações totais do país saltaram 34,3% para US$ 74,1 bilhões, impulsionadas pelo setor de mineração, conforme informado pela ADEX em 6 de outubro.


