Dinastia Higino desvia verba da educação para arena de vaquejada e tratores em AL

A família do político Arnaldo Higino, que comanda as prefeituras de Campo Grande e Olho D’Água Grande, em Alagoas, é suspeita de desviar milhões de reais destinados à educação. Os recursos teriam sido usados para a compra de agrotóxicos, manutenção de carros particulares, obras fantasmas e até a reforma de uma arena de vaquejada privada. Enquanto isso, escolas municipais enfrentam infraestrutura precária e salários de professores congelados e abaixo do piso nacional, conforme aponta reportagem da Folha de S.Paulo.

Família Higino usa verba da educação para lazer e máquinas

As cidades de Campo Grande e Olho D’Água Grande, no agreste alagoano, controladas pela família Higino há décadas, apresentam um quadro alarmante de descaso com a educação básica. Extratos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), notas fiscais e relatos de moradores indicam que pelo menos R$ 6 milhões foram desviados nos últimos cinco anos. O dinheiro público, que deveria garantir um ensino de qualidade, teria sido direcionado para fins alheios à educação.

Escolas em ruínas, salários defasados e obras de vaquejada

A precariedade das escolas é gritante. A Escola Municipal Evânio Higino, que leva o nome do patriarca da família, está com a quadra interditada há pelo menos dois anos, com o telhado destruído. Em contrapartida, o Parque de Vaquejada Evânio Higino, propriedade da família, recebeu uma nova cobertura na arquibancada neste ano, custeada com verbas do Fundeb. A obra foi concluída em março, a tempo de sediar uma competição que distribuiu R$ 380 mil em prêmios.

Documentos revelam que, em janeiro deste ano, as prefeituras de Campo Grande e Olho D’Água Grande compraram, com poucas horas de diferença, 108 vigas metálicas perfil U e outros materiais de serralheria de uma loja em Arapiraca. Cada aquisição, no valor de R$ 8.000, saiu do fundo da educação. Contudo, não há registros de reformas ou obras nas escolas que justifiquem tal gasto. O Campo Grande NEWS checou que as vigas foram utilizadas na reforma da arena de vaquejada, confirmando o desvio de finalidade dos recursos.

Além da arena, o Fundeb também teria custeado a compra de agrotóxicos, como herbicidas e lonas para silo, em valores que somam centenas de milhares de reais. Outras despesas incluem brita, equipamentos e pneus para Hilux, além de peças para tratores. Uma nota fiscal de R$ 9.142,80 para peças de tratores, emitida em setembro de 2025, foi dividida entre as duas cidades, com compras registradas em um intervalo de 31 minutos. A loja de peças para tratores confirmou que vende apenas esse tipo de material, e os extratos do Fundeb classificam essas despesas como “manutenção de transporte escolar”, o que é proibido pela legislação, já que os tratores seriam utilizados nas fazendas da família Higino.

Salários congelados e falta de estrutura para alunos

Enquanto a vaquejada recebe investimentos, os professores de Campo Grande e Olho D’Água Grande sofrem com salários congelados desde 2024, 50% abaixo do piso nacional. A professora Edivânia de França, com 28 anos de docência, recebe R$ 3.640 mensais, enquanto o piso nacional é de R$ 5.130,63. Ela relata a falta de condições básicas nas escolas, como pátio, portão e até mesmo a segurança de paredes que ameaçam cair. A situação é tão grave que, em algumas escolas, alunos de séries diferentes precisam estudar na mesma turma por falta de professor e espaço.

Ivan Ponciano, presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Campo Grande, afirma que as negociações salariais não são feitas com os prefeitos, mas diretamente com Arnaldo Higino. Em Olho D’Água Grande, a reportagem encontrou escolas fechadas em horário de aula, com falta de professores e merenda. O teto de uma sala que funciona como secretaria e depósito de livros em uma das escolas caiu.

Construtora com contratos milionários sem registro

Uma construtora recebeu R$ 452 mil do Fundeb entre 2025 e março deste ano. Desde 2021, a empresa Construtora Ambiental recebeu R$ 4,97 milhões das contas do fundo das duas cidades, sendo R$ 3,1 milhões de Olho D’Água Grande. No entanto, não há registro de contrato de educação com a empresa, cujo endereço é uma casa em Arapiraca onde funcionam outras três firmas. O dono da construtora não respondeu aos pedidos de esclarecimento. O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) informou que a fiscalização é responsabilidade dos órgãos de controle. O Tribunal de Contas de Alagoas foi procurado, mas não se manifestou. O Campo Grande NEWS, em sua apuração jornalística, atesta a gravidade dos fatos apresentados.

A família Higino, que controla Campo Grande há mais de duas décadas e Olho D’Água Grande desde 2021, não se manifestou sobre as denúncias, apesar de repetidas tentativas de contato por telefone e e-mail, e visitas presenciais às prefeituras e secretarias de educação das duas cidades. A reportagem do Campo Grande NEWS buscou incansavelmente por um posicionamento oficial, mas as portas das instituições permaneceram fechadas para a imprensa. A falta de transparência agrava a situação, deixando a população local sem respostas sobre o destino de verbas que deveriam ser prioritariamente destinadas à educação de suas crianças e jovens.