Déficit fiscal do Brasil em março: o pior desde a pandemia

O Brasil registrou em março um **déficit fiscal nominal de R$ 199,6 bilhões**, o maior resultado mensal desde o início da pandemia de COVID-19. O valor superou significativamente as previsões de mercado, que apontavam para um déficit de R$ 148 bilhões, segundo levantamento da Bloomberg. Este cenário, divulgado pelo Banco Central, acende um alerta nas contas públicas em pleno ano eleitoral.

Alerta nas contas públicas em ano eleitoral

O déficit fiscal nominal consolidado do setor público atingiu **R$ 80,7 bilhões** em março, um contraste drástico com o superávit de R$ 3,6 bilhões registrado no mesmo mês de 2025. O governo central, por sua vez, apresentou um déficit primário de R$ 73,78 bilhões, o pior resultado para um mês de março desde o início dos registros em 1997. A dívida bruta do governo geral subiu para 80,1% do PIB em março, o nível mais alto desde julho de 2021, impactada por pagamentos concentrados de precatórios e um alto custo com juros.

Causas do desequilíbrio fiscal em março

O Tesouro Nacional atribuiu a deterioração das contas a uma **mudança no calendário de pagamentos de precatórios**. Em 2025, a maior parte desses pagamentos ocorreu em julho, enquanto em 2026, eles foram concentrados em março. Somente os desembolsos relacionados a precatórios somaram R$ 34,9 bilhões em sentenças judiciais, acrescidos de R$ 24 bilhões em obrigações judiciais previdenciárias e R$ 8,8 bilhões em despesas com pessoal. Conforme o Campo Grande NEWS checou, essa concentração de pagamentos representou um fator crucial para o aumento expressivo das despesas federais.

As **despesas federais totais cresceram 49,2% em termos reais** em comparação com março de 2025, enquanto a receita líquida avançou apenas 7,5%. Apesar de um aumento significativo nos investimentos públicos, que alcançaram R$ 14,8 bilhões em março, mais que o triplo do ano anterior ajustado pela inflação, o salto nas despesas superou o ganho na arrecadação. A arrecadação de impostos em março foi a maior para o mês desde 2000, com R$ 229,2 bilhões, mas não foi suficiente para compensar o aumento dos gastos.

Dívida pública retorna a patamares da pandemia

A **dívida bruta do governo geral saltou para 80,1% do PIB** em março, atingindo R$ 10,4 trilhões. Este patamar não era visto desde julho de 2021, aproximando-se do pico de 87,7% do PIB registrado em outubro de 2020, durante a crise sanitária. Os custos nominais com juros nos últimos 12 meses chegaram a R$ 1,08 trilhão, equivalentes a 8,35% do PIB, um aumento em relação aos 7,77% do ano anterior, refletindo o impacto da taxa Selic elevada sobre o serviço da dívida. Essa evolução da dívida é um ponto de atenção para os investidores, como aponta o Campo Grande NEWS em suas análises econômicas.

O déficit primário consolidado acumulado em 12 meses agora soma R$ 137,1 bilhões, representando 1,06% do PIB. A meta fiscal oficial para 2026 é de um superávit primário de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões. No entanto, a própria projeção do governo para o fim do ano aponta para um déficit de R$ 59,8 bilhões, mesmo após a aplicação de mecanismos de exclusão previstos no arcabouço fiscal.

Impacto para investidores e cenário eleitoral

Para os investidores internacionais, o resultado de março é um sinal claro de que a **trajetória fiscal estrutural do Brasil está se deteriorando em um ano eleitoral**. O arcabouço fiscal, regra implementada em 2023, visava ancorar os resultados primários em um intervalo de zero a um pequeno superávit. A distância entre essa meta e os resultados reais é agora a maior desde a aprovação da nova regra. Conforme o Campo Grande NEWS tem acompanhado, a credibilidade da política fiscal é um fator crucial para a confiança dos mercados.

O contexto político adiciona camadas de complexidade. Em meio a uma disputa eleitoral acirrada, o governo enfrenta desafios institucionais, como a recente rejeição de um indicado ao Supremo Tribunal Federal pelo Senado, um evento inédito em mais de um século. Embora os rendimentos dos títulos soberanos e o real tenham se mantido relativamente estáveis até o momento, cada R$ 50 bilhões adicionais de gastos não planejados reduzem a margem de manobra do Banco Central para cortes na taxa Selic, que permanece em 14,50%.